Denúncias feitas por funcionários atuais e antigos do Committee to Protect Journalists (CPJ) indicam que a organização teria encerrado a publicação anual do “Impunity Index” após constatar que Israel passaria a ocupar o primeiro lugar no ranking. As alegações foram encaminhadas coletivamente ao site The Electronic Intifada, que tornou o conteúdo público.
O índice, publicado desde 2008, classificava países com base no número de assassinatos de jornalistas não solucionados como proporção da população, considerando um período móvel de dez anos. O relatório é citado regularmente em documentos da ONU e, segundo os denunciantes, seus dados são amplamente utilizados por organismos como o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e a UNESCO.
De acordo com os relatos, a diretora-executiva do CPJ, Jodie Ginsberg, decidiu cancelar a edição de 2025 do levantamento em agosto do ano passado. Em mensagem enviada à equipe, vista pelo The Electronic Intifada, Ginsberg afirmou que o índice apresentava “muitas falhas” metodológicas e que “não refletia com precisão o nível de fracasso na obtenção de justiça” nos casos de jornalistas mortos. Ela mencionou como exemplo situações em que o CPJ não conseguiu determinar com certeza se as mortes foram homicídios intencionais, citando especificamente casos envolvendo Israel.
A metodologia do Impunity Index incluía apenas mortes classificadas pelo CPJ como assassinatos deliberados, excluindo óbitos ocorridos em circunstâncias consideradas inerentemente perigosas. Segundo os denunciantes, isso já limitava o número de casos contabilizados em contextos como o da Faixa de Gaza. Ainda assim, argumentam que, mantido o critério, Israel apareceria no topo da lista por vários anos, considerando o período de dez anos analisado.
A última edição publicada, em 2024, posicionou Israel em segundo lugar, atrás apenas do Haiti, com base em dados até 2023. Conforme o banco de dados do próprio CPJ citado na reportagem, 64 jornalistas teriam sido mortos de forma deliberada por Israel em 2023, 76 em 2024, 51 em 2025 e três em 2026 até o momento. O Gabinete de Mídia do governo de Gaza afirma que 260 profissionais de imprensa foram mortos desde o início da ofensiva israelense, número que, segundo o órgão, supera o total de jornalistas mortos nas duas guerras mundiais, na Guerra do Vietnã, nos conflitos na ex-Iugoslávia e na Guerra do Afeganistão somados.
Os denunciantes também sustentam que a decisão de encerrar o índice teria sido motivada por receio de reações do conselho da organização, de doadores pró-Israel e do próprio governo israelense e seus aliados. O CPJ, por sua vez, negou que considerações relacionadas a financiadores influenciem suas decisões sobre Israel ou qualquer outro país. A organização afirmou que a suspensão do ranking não teve relação com a possível posição de Israel, mas com a necessidade de “mudar radicalmente” a forma de promover a responsabilização por crimes contra jornalistas.
Entre os financiadores do CPJ, segundo o The Electronic Intifada, estão veículos pertencentes ao empresário Rupert Murdoch e a empresa Ariel Investments, sediada em Chicago, que investe em companhias como a israelense Check Point Technologies. O conselho diretor da entidade inclui membros ligados a grandes veículos de comunicação, entre eles ao menos cinco associados ao The New York Times.
No lugar do índice, o CPJ publicou em dezembro uma declaração mais breve destacando cinco casos considerados emblemáticos para ilustrar dificuldades na busca por justiça. Entre eles estão o da jornalista da Al Jazeera Shireen Abu Akleh, morta por um soldado israelense em 2022, e o do jornalista filipino Gerry Ortega, assassinado em 2011. Também foram citados casos na Eslováquia, em Camarões e no México.
Segundo os denunciantes, o antigo índice gerava ampla cobertura da imprensa internacional, ao passo que a nova declaração teve repercussão limitada. Eles relatam “profunda decepção, raiva e ressentimento” entre funcionários do CPJ em decorrência da decisão. A organização declarou que continua empenhada em promover a responsabilização por crimes contra jornalistas, mas não detalhou quais novas medidas substituem o relatório anual.
Antes desse episódio, Omar Shakir deixou seu cargo de direção na Human Rights Watch após a organização ter suprimido um relatório que classificava a negação do direito de retorno de refugiados palestinos por Israel como “crime contra a humanidade”. Em sua carta de renúncia, Shakir escreveu ter perdido a fé na integridade do trabalho e no compromisso com uma aplicação baseada em fatos e na lei.


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