Navios mexicanos levam ajuda a Cuba em meio a bloqueio de petróleo dos EUA

Imagem: Norlys Perez/Reuters

Duas embarcações mexicanas carregadas com ajuda humanitária atracaram nesta quinta-feira no porto de Havana, em meio ao endurecimento das restrições impostas pelos Estados Unidos ao fornecimento de petróleo à ilha. A chegada dos navios ocorre enquanto Washington mantém uma estratégia para interromper o fluxo de combustível que sustenta a rede elétrica e outras infraestruturas essenciais de Cuba.

Um dos navios, o Papaloapan, de bandeira mexicana, foi visto descarregando paletes brancos no cais da capital cubana, sob o olhar de moradores que acompanhavam a operação a partir do Malecón. A entrega foi confirmada pela presidente do México, Claudia Sheinbaum, durante sua coletiva matinal. “Estamos enviando diferentes formas de ajuda, diferentes formas de apoio. Hoje, os navios chegam. Quando retornarem, vamos enviar mais apoio de outro tipo”, afirmou. A mandatária também declarou que o México busca “abrir as portas para que o diálogo se desenvolva” entre Havana e Washington, ressaltando que a soberania cubana é prioridade.

Desde janeiro, o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou medidas para cortar o abastecimento de petróleo à ilha caribenha. O embargo atual teve início em 3 de janeiro, após Trump autorizar uma operação militar contra a Venezuela e anunciar o sequestro do então presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. A Venezuela era uma das principais fornecedoras de petróleo a Cuba e aliada histórica do governo cubano.

Após a retirada de Maduro do poder, Trump declarou que grande parte das trocas econômicas entre Caracas e Havana seria interrompida. Em 11 de janeiro, escreveu em sua rede Truth Social: “Cuba viveu, por muitos anos, com grandes quantidades de PETRÓLEO e DINHEIRO da Venezuela. Em troca, Cuba forneceu ‘Serviços de Segurança’ aos dois últimos ditadores venezuelanos, MAS NÃO MAIS”. E acrescentou: “NÃO HAVERÁ MAIS PETRÓLEO OU DINHEIRO INDO PARA CUBA – ZERO!”. Dias antes, em 4 de janeiro, afirmou a jornalistas a bordo do Air Force One: “Cuba está pronta para cair. Cuba agora não tem renda. Eles obtinham toda a renda da Venezuela, do petróleo venezuelano. Não estão recebendo nada”.

Sem acordo após semanas de impasse, Washington elevou o tom em 29 de janeiro ao declarar a situação em Cuba como “emergência nacional” para os Estados Unidos. O governo americano acusou Havana de representar uma “ameaça extraordinária” e de apoiar “atores hostis, terrorismo e instabilidade regional que colocam em risco a segurança e a política externa americanas”. Paralelamente, anunciou que aplicaria tarifas a países que fornecessem petróleo à ilha, direta ou indiretamente.

A medida colocou o México em posição delicada. O país é um dos parceiros comerciais de Cuba no fornecimento de energia, mas também mantém forte dependência econômica dos Estados Unidos: cerca de 80% das exportações mexicanas têm como destino o mercado americano, e ambos integram um acordo regional de livre comércio. Ainda assim, Sheinbaum classificou o bloqueio de petróleo como “injusto”.

Especialistas das Nações Unidas alertaram que a redução drástica no fornecimento de combustível pode levar a um “colapso” humanitário iminente em Cuba. No início de fevereiro, Stephane Dujarric, porta-voz do secretário-geral António Guterres, afirmou que o chefe da ONU está “extremamente preocupado com a situação humanitária em Cuba, que vai piorar e, se não colapsar, caso suas necessidades de petróleo não sejam atendidas”. A ilha já enfrenta apagões frequentes e dificuldades no abastecimento de itens básicos, cenário agravado desde a pandemia de COVID-19, período em que houve escassez de combustíveis e uma das maiores ondas migratórias recentes.

Os Estados Unidos anunciaram neste mês o envio de US$ 6 milhões em ajuda humanitária a Cuba, informando que os recursos não serão repassados por meio do governo cubano, mas sim da Igreja Católica.

Enquanto os navios mexicanos descarregavam suprimentos em Havana, moradores expressaram apoio à iniciativa. Ediberto Rodriguez, de 65 anos, disse à agência Reuters que a entrega representou um “gesto inesquecível” de um aliado. “O México não nos abandonou”, afirmou. “Mesmo com a pressão de uma superpotência global [os Estados Unidos], não tiveram medo.”

Lucas Allabi: Jornalista formado pela PUC-SP e apaixonado pelo Sul Global. Escreve principalmente sobre política e economia. Instagram: @lu.allab
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