A Polícia Civil de São Paulo concluiu um novo mapeamento da estrutura interna do Primeiro Comando da Capital (PCC) e identificou um nível de organização considerado mais sofisticado e segmentado da maior facção criminosa do país. O levantamento, elaborado pelo Departamento de Inteligência Policial (Dipol), detalha mais de 100 integrantes distribuídos em 12 áreas operacionais — conhecidas internamente como “sintonias” — responsáveis por funções estratégicas que vão desde comunicação digital até disciplina interna e expansão internacional.
Segundo o relatório, mesmo com 61 membros da cúpula presos, muitos em presídios federais de segurança máxima, o grupo mantém uma cadeia de comando ativa e articulada, com ramificações em todo o território nacional e presença identificada em pelo menos 28 países.
Núcleo de liderança permanece ativo
No topo da estrutura aparece a chamada Sintonia Final, descrita como o núcleo máximo de decisão. O principal líder continua sendo Marco Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola, atualmente detido na Penitenciária Federal de Brasília. O organograma aponta ainda outros nomes associados ao comando central, entre eles Júlio César Guedes de Moraes, Rinaldo Teixeira dos Santos, Cláudio Barbará da Silva e Adeilton Gonçalves da Silva — este último citado como o único fora do sistema prisional.
Também foi identificado o papel de Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, o Marcolinha, irmão de Marcola, apontado como apoio direto ao núcleo dirigente. Logo abaixo, aparece a Sintonia Final do Sistema, responsável por garantir que as ordens da liderança sejam cumpridas dentro das unidades prisionais.
Setor digital reforça estratégia de comunicação
Um dos pontos considerados mais relevantes do novo levantamento é a existência de um departamento específico para comunicação online: a Sintonia da Internet e Redes Sociais. De acordo com o Dipol, essa área teria a função de gerenciar mensagens em aplicativos criptografados, monitorar conteúdos publicados por integrantes e evitar exposição indevida da organização.
A polícia avalia que o setor atua como uma central técnica de comunicação, destinada a padronizar discursos e preservar o sigilo das operações. O relatório indica que a estrutura seria comandada por integrantes presos subordinados diretamente à liderança principal.
“Corregedoria” interna fiscaliza integrantes
Outra área destacada é o chamado Setor do Raio X, descrito pelas autoridades como uma espécie de corregedoria interna da facção. Essa divisão teria atribuições de auditoria financeira, monitoramento de membros, investigação de condutas e aplicação de punições disciplinares.
Segundo o documento, a chefia desse setor estaria ligada a um integrante conhecido como Quadrado. Para investigadores, a existência desse mecanismo demonstra um nível elevado de controle organizacional, semelhante ao funcionamento de estruturas administrativas formais.
Núcleos estratégicos e operacionais
O relatório também descreve a Sintonia Restrita, responsável por decisões sensíveis e operações consideradas de alto risco. Associado a ela existe um braço tático encarregado da execução de ações estratégicas. Já a Sintonia dos Estados e Países coordena a expansão territorial da facção fora de São Paulo e no exterior.
Estimativas atribuídas ao Ministério Público indicam que o PCC movimenta cerca de R$ 10 bilhões por ano, com atividades ligadas principalmente ao tráfico internacional de drogas e à atuação em mercados ilícitos transnacionais na América do Sul, Europa, África e Ásia.
Setores econômico e territorial
No campo financeiro, o relatório aponta a Sintonia da Padaria como responsável pela arrecadação e gestão de recursos provenientes de contribuições internas e atividades ilegais. Outra área relevante é a Sintonia do Progresso, descrita como motor econômico do grupo, com foco principal no narcotráfico.
Já a Sintonia da Rua atua na organização territorial e na disciplina fora das prisões, enquanto a Sintonia Interna é responsável pela operacionalização das ordens dentro do sistema penitenciário.
Instância deliberativa interna
O organograma menciona ainda o chamado Quadro dos 14, apontado como órgão deliberativo responsável por julgamentos internos e decisões disciplinares. Entre os nomes associados ao grupo aparece um integrante preso acusado de envolvimento no assassinato do ex-delegado-geral paulista Ruy Ferraz Fontes.
Outros nomes citados no relatório incluem indivíduos investigados por crimes financeiros e ligações empresariais suspeitas, alguns dos quais negam qualquer vínculo com a facção.
Avaliação das autoridades
Para a Polícia Civil, o novo organograma indica que o PCC mantém um processo contínuo de reorganização e profissionalização, com divisão clara de funções e mecanismos internos de controle. A análise aponta que a estrutura atual permite à organização preservar eficiência operacional mesmo com parte significativa de seus líderes encarcerados.
Investigadores avaliam que o modelo segmentado, com departamentos especializados e cadeia hierárquica definida, representa um desafio adicional para as autoridades, pois amplia a capacidade de adaptação e resiliência do grupo diante de ações repressivas.
O relatório passa agora a subsidiar estratégias de inteligência e investigações em andamento, com o objetivo de identificar fluxos financeiros, redes de comunicação e conexões internacionais vinculadas à facção.