A última chance do Ocidente: o presidente da Finlândia alerta para a reconstrução urgente da ordem global

Alexander Stubb, presidente da Finlândia. Criador: LEHTIKUVA | Crédito: REUTERS Direitos autorais: Lehtikuva

Em artigo de capa da edição de janeiro/fevereiro de 2026 da prestigiada revista americana Foreign Affairs, publicado online em 2 de dezembro de 2025, o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, faz um diagnóstico implacável e um apelo dramático: o Ocidente tem uma janela estreita — talvez os próximos cinco a dez anos — para reformar o sistema internacional antes que ele desabe de vez. O título não deixa margem para dúvida: “The West’s Last Chance: How to Build a New Global Order Before It’s Too Late” (“A Última Chance do Ocidente: Como Construir uma Nova Ordem Global Antes que Seja Tarde Demais”).

Stubb, que assumiu a presidência finlandesa em 2024 após carreira como primeiro-ministro, ministro das Relações Exteriores e eurodeputado, escreve com a autoridade de quem viveu na fronteira da Rússia e viu de perto o colapso da ordem pós-Guerra Fria. “O mundo mudou mais nos últimos quatro anos do que nos 30 anteriores”, afirma ele. Guerras na Ucrânia, no Oriente Médio e na África, o declínio das democracias e o fim da era unipolar americana sepultaram o multilateralismo liberal nascido em 1945. O que unia o planeta — comércio, energia, tecnologia e informação — agora o fragmenta.

O autor descreve um triângulo de poder que define o século XXI. De um lado, o Global West (cerca de 50 países democráticos e de economia de mercado, liderados pelos EUA, incluindo Europa, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia). Do outro, o Global East (cerca de 25 Estados alinhados à China, com Rússia, Irã e Coreia do Norte como parceiros revisionistas). No centro do jogo, o Global South — os 125 países em desenvolvimento ou de renda média que concentram a maioria da população mundial e incluem potências médias como Brasil, Índia, Indonésia, México, Nigéria, Arábia Saudita, África do Sul e Turquia. São esses países que decidirão se o futuro será de cooperação, fragmentação ou dominação pura.

Stubb não é um teórico de gabinete. Ele conta sua própria trajetória. Em 1989, estudante de relações internacionais nos Estados Unidos, assistiu à queda do Muro de Berlim e acreditou, como Francis Fukuyama, no “fim da história”. A democracia liberal e o capitalismo pareciam destinados à vitória universal. Trinta e seis anos depois, o sonho virou pesadelo: as intervenções desastrosas pós-11 de Setembro, a crise financeira de 2008, a ascensão meteórica da China e, sobretudo, a invasão russa da Ucrânia em 2022 — um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU violando flagrantemente a Carta que deveria defender — sepultaram a ilusão.

A experiência finlandesa serve de lição prática. Durante a Guerra Fria, Helsinque praticou a “finlandização”: cedeu território, adotou neutralidade forçada e engoliu humilhações para sobreviver ao vizinho soviético. Após 1991, abraçou o “idealismo baseado em valores” e entrou na União Europeia em 1995. Mas errou ao demorar para aderir à OTAN — Stubb defendeu a entrada por três décadas e só viu o país ingressar em 2023, depois da invasão da Ucrânia. Hoje ele defende o que chama de “realismo baseado em valores”: defender princípios como soberania, direitos humanos e integridade territorial sem impor o modelo ocidental a culturas diferentes.

O cerne da proposta de Stubb é claro: o Ocidente precisa abandonar a arrogância do “fim da história” e reformar urgentemente as instituições multilaterais. ONU, OMC, FMI e Banco Mundial não refletem mais a realidade do poder econômico e político de 2026. Ele sugere expandir o Conselho de Segurança com assentos permanentes para África, Ásia e América Latina (citando explicitamente Índia, Brasil e Nigéria), limitar ou suspender o direito de veto para violadores da Carta (como a Rússia no caso ucraniano) e atualizar regras para desafios do século XXI: clima, regulação de IA, comércio justo e desenvolvimento sustentável.

Sem essas mudanças, argumenta Stubb, o sistema multilateral morrerá de inanição. Países do Sul Global não querem escolher entre Washington e Pequim; querem ser ouvidos, ter voz nas decisões e acesso equitativo a tecnologia e mercados. “Uma ordem multilateral faz do bem comum o próprio interesse nacional. Uma ordem multipolar funciona apenas com base no interesse próprio”, escreve ele.

O artigo rejeita explicitamente o retorno a esferas de influência ao estilo de Yalta (1945) e defende um novo “espírito de Helsinque” (1975): normas compartilhadas, diálogo em pé de igualdade e respeito mútuo. Stubb reconhece que o Ocidente ainda detém vantagens — redes de alianças, soft power, capacidade de inovação —, mas só as manterá se agir agora. Se optar pela competição pura e pela arrogância, o mundo entrará numa era de instabilidade prolongada, conflitos regionais e erosão das regras básicas.

Três cenários são esboçados: desordem persistente (regras à la carte), colapso total da ordem (vácuos de poder preenchidos por atores não estatais) ou reequilíbrio bem-sucedido (instituições reformadas que permitam cooperação real em temas globais). A escolha, diz Stubb, é do Ocidente — e o relógio está correndo.

O presidente finlandês encerra com tom de urgência otimista e anuncia seu próximo livro, The Triangle of Power: Rebalancing the New World Order. Para ele, pequenos países como a Finlândia — e, por extensão, o Brasil — não são meros coadjuvantes: são agentes ativos que podem ajudar a moldar o futuro se o Ocidente abrir espaço.

Em tempos de guerra na Europa, tensão no Indo-Pacífico e ascensão do Sul Global, o alerta de Alexander Stubb na Foreign Affairs não é apenas um texto acadêmico. É um chamado à ação para líderes ocidentais — e uma advertência clara aos países emergentes: a janela para uma ordem mais justa e estável está se fechando. Resta saber se o Ocidente terá humildade suficiente para aproveitá-la.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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