A vassalagem de Javier Milei não tem limite

O presidente da Argentina, Javier Milei, aperta a mão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enquanto segura uma carta fundadora assinada durante a reunião do “Conselho da Paz”, no encontro anual do Fórum Econômico Mundial (WEF), em Davos, em 22 de janeiro de 2026. | Fabrice COFFRINI / AFP

Milei oferece soldados argentinos às guerras imperiais de Trump

Javier Milei fez uma escolha que marca um ponto de virada na política externa da Argentina: enquanto uma greve geral de 24 horas paralisava o país em protesto contra sua reforma trabalhista, ele estava em Washington participando da primeira reunião do chamado Conselho da Paz criado por Donald Trump — uma iniciativa que poucos países abraçaram de forma entusiasmada e que, para muitos analistas, carece de legitimidade e entusiasmo entre as principais potências do mundo. ([TIME][1])

A própria ideia do Conselho da Paz, concebida por Trump para coordenar ações internacionais a partir de um foco inicial na Faixa de Gaza, é encarada com ceticismo por governos tradicionais e críticos argumentam que a iniciativa corre o risco de se sobrepor às instituições multilaterais existentes, como a ONU, e que a maioria dos governos ocidentais optou por não aderir ao organismo ou por participar apenas como observadores. ([The Guardian][2])

Milei não se limitou a aceitar convites protocolares: em Washington ele ofereceu a “colaboração” da Argentina, incluindo a possibilidade de enviar efetivos para compor forças de estabilização sob a liderança política e militar dos Estados Unidos. Essa oferta significa, na prática, colocar vidas de soldados argentinos à disposição de um projeto geopolítico que — liderado por Trump — está no centro de tensões internacionais crescentes.

O presidente dos Estados Unidos tem acumulado controvérsias e isolamento, tanto no plano externo quanto no interno. No cenário internacional, ações recentes atribuídas a Washington — como a operação militar de início de ano que resultou na captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, com forte repercussão global, e as sucessivas ameaças a países como Colômbia e outros governos latino-americanos — intensificaram o debate sobre os rumos da política externa estadunidense e a legitimação de intervenções militares. ([Wikipedia][3])

Além disso, figuras políticas próximas a Trump chegaram a ressuscitar a retórica sobre a Groenlândia, sugerindo que a ilha — parte do Reino da Dinamarca — poderia “pertencer” aos Estados Unidos, um episódio que provocou reações firmes de países europeus e aliados tradicionais. ([Agência Brasil][4])

É nesse contexto que a oferta de Milei assume implicações práticas e simbólicas. Dentro da Argentina, sindicatos organizaram a paralisação como resposta ao pacote de reformas trabalhistas que o governo tenta aprovar no Congresso, um conjunto de mudanças legais que flexibiliza regras de contratação e demissão, amplia períodos de experiência e impõe limites ao direito de greve em setores essenciais. Os críticos veem no projeto um enfraquecimento de conquistas históricas dos trabalhadores; o governo argumenta que se trata de modernização econômica.

Enquanto isso, fora do país, Milei sinaliza que está disposto a disponibilizar forças argentinas para iniciativas que são lideradas por uma potência global que se encontra em um momento de elevada contestação e isolamento diplomático. A oferta de tropas e participação em estruturas como o Conselho da Paz de Trump levanta questões imediatas: em que cenários essas forças seriam empregadas? Com que mandato e sob que regras de engajamento? E, por fim, quem define o que constitui “paz” em um plano geopolítico tão contestado quanto o promovido pelos Estados Unidos atualmente?

A coincidência entre uma greve geral interna e a busca de reconhecimento internacional através de alianças estratégicas evidencia a direção escolhida pelo governo Milei: uma Argentina que, ao mesmo tempo em que promove reformas profundas em sua legislação trabalhista, se aproxima de agendas externas que demandam sacrifícios e riscos para cidadãos comuns, colocando vidas argentinas em cenários de conflito que são decididos muito além das fronteiras de Buenos Aires.

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