Enquanto o presidente Lula visitava a Índia em missão diplomática, o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, aproveitou a comitiva para fechar um acordo que pode redesenhar, de forma silenciosa mas estrutural, a política farmacêutica do SUS.
A parceria, a ser formalizada durante fóruns empresariais em Nova Déli e Seul entre os dias 21 e 23 de fevereiro, permitirá ao Estado produzir localmente ao menos quatro medicamentos de alto custo que juntos consomem R$ 1,7 bilhão por ano dos cofres públicos.
Os alvos são precisos: Eculizumabe, para doenças raras, com demanda anual de R$ 817 milhões; Pertuzumabe, para câncer de mama; Nivolumabe, imunoterapia para tumores de pulmão, rim e estômago; e Bevacizumabe, também usado em oncologia.
A lógica do acordo é brutal em sua evidência: uma caixa que hoje custa R$ 20 mil pode ser produzida localmente por até R$ 15 mil. Em alguns casos, a redução chega a 25%, o equivalente a uma economia de R$ 600 milhões anuais, segundo a diretora-presidente da Bahiafarma, Ceuci Nunes.
O caminho até aqui passou por uma decisão estratégica de 2024, quando a Bahiafarma selecionou a empresa nacional Bionovis como parceira privada na transferência de tecnologia. A partir dessa âncora doméstica é que se tornaram possíveis os acordos com as multinacionais detentoras das patentes: a sul-coreana Samsung Bioepis, a indiana Dr. Reddy’s Laboratories e a Biocon Biologics, também indiana.
O modelo não é inédito no mundo, mas é incomum no Brasil — e sua lógica geopolítica merece atenção. A Índia é o maior produtor mundial de medicamentos genéricos, responsável por cerca de 20% do abastecimento global, e consolidou essa posição através de décadas de política industrial deliberada, investimento em biotecnologia e uma legislação de patentes que privilegia o acesso em detrimento dos direitos exclusivos dos laboratórios ocidentais. Não é coincidência que países do Sul Global, desesperados por romper dependências farmacêuticas históricas, olhem para Nova Déli como parceiro natural nessa disputa.
Mas a importância estratégica da aproximação entre Brasil e Índia vai muito além dos remédios. A Índia é hoje a economia que mais cresce entre as grandes nações do mundo — cresceu 6,5% em 2024, contra 5% da China, e o FMI projeta expansão de 6,6% no ano fiscal 2025-26, quase o dobro da média global de 3,2%. Em meados de 2025, ultrapassou o Japão para se tornar a quarta maior economia do planeta em termos de PIB nominal, e as projeções a colocam no terceiro lugar até 2028. Em 2024, a Índia contribuiu com cerca de 17% do crescimento do PIB global — participação que deverá subir para quase 20% nos próximos cinco anos.
Para o Brasil, que se posiciona como protagonista do Sul Global no G20 e no BRICS, subestimar esse parceiro é um erro estratégico de proporções históricas. A Índia tem o que o Brasil precisa: capacidade farmacêutica, tecnologia de ponta em software e serviços digitais, uma indústria de defesa em expansão e, acima de tudo, o peso político de uma democracia de 1,4 bilhão de habitantes que recusa tanto a subordinação ao Ocidente quanto a tutela de Pequim. São dois países que compartilham a condição de potências intermediárias num mundo em reconfiguração — e que, juntos, representam mais de 2,6 bilhões de pessoas.
O acordo farmacêutico da Bahia é, nesse contexto, muito mais do que uma transação comercial. É um experimento de soberania — a demonstração prática de que o Brasil pode acessar tecnologia de ponta sem passar pelos portões dos laboratórios americanos ou europeus que historicamente definem preços, condicionam transferências e constrangem políticas públicas. Cada biossimilar produzido em solo baiano com tecnologia indiana é uma pequena fissura no muro da dependência farmacêutica que o Brasil jamais conseguiu, de forma consistente, superar.
Para o SUS, o impacto é imediato e mensurável: os quatro medicamentos incluídos na lista inicial tratam condições graves, têm demanda crescente e pressionam orçamentos estaduais e federal de forma estrutural. Reduzir esse peso sem comprometer o acesso é um dos desafios mais complexos da política pública de saúde no Brasil — e esta parceria aponta, pela primeira vez, um caminho concreto.
A produção local tem início previsto ainda para este ano. Se os números prometidos se confirmarem, a Bahia terá transformado uma viagem diplomática num modelo replicável de política industrial para a saúde — com potencial de expansão para outros estados, outras moléculas e outros parceiros do Sul Global que, como a Índia, constroem poder à margem das velhas hierarquias do século XX.


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