A verdadeira dominância energética do século XXI não cheira a petróleo — cheira a silício, lítio e cabos de cobre saídos de fábricas chinesas.
É essa a tese central do artigo “Energy Dominance With Chinese Characteristics” (“Dominância Energética com Características Chinesas”), publicado hoje na edição de março/abril de 2026 da Foreign Affairs, assinado pela professora Carolyn Kissane, decana associada da NYU School of Professional Studies e diretora fundadora do Energy, Climate, and Sustainability Lab.
Com a autoridade de quem acompanha o setor há décadas, Kissane entrega um diagnóstico que soa como alarme vermelho em Washington: enquanto Donald Trump ressuscita a retórica dos anos 1970 e proclama uma nova era de “drill, baby, drill”, Pequim já venceu a batalha que realmente importa.
Há apenas duas décadas, a China era um importador ansioso de óleo e gás, à mercê das rotas marítimas que a Marinha americana controlava nos estreitos do Oriente Médio. Hoje, é o maior produtor mundial de turbinas eólicas e painéis solares, controla praticamente toda a cadeia global de baterias e exporta veículos elétricos pela metade do preço dos modelos ocidentais.
O contraste com os Estados Unidos não poderia ser mais brutal. Washington celebra a autossuficiência no gás natural enquanto depende de Pequim para turbinas, transformadores, painéis solares e baterias — exatamente os componentes que alimentarão data centers, drones militares, frotas elétricas e redes inteligentes nas próximas décadas. A ironia é de cortar: a administração que mais proclama “energy dominance” é a que mais a compromete.
Kissane deixa claro que a estratégia chinesa não nasceu de nenhum impulso ambientalista, mas de cálculo geopolítico frio e metódico. Desde que Xi Jinping chegou ao poder em 2012, Pequim identificou o controle da energia como o eixo do poder nacional: integrou indústria, inovação, segurança e influência global numa única arquitetura estratégica, construída com paciência e subsidíada com determinação. O resultado são painéis solares 30 a 40% mais baratos que os ocidentais e carros elétricos que conquistam mercados emergentes onde a população convive com apagões crônicos.
É precisamente no Sul Global que essa dominância se consolida com mais eficiência. No Quênia, fazendas solares e extensões de rede; no Paquistão, gigawatts de energia chinesa; na América Latina, modernização da transmissão elétrica financiada e operada por empresas de Pequim.
O Brasil não é exceção: empresas chinesas já controlam ou operam mais de 10% da infraestrutura elétrica nacional. Pequim não vende painéis — oferece o pacote completo: geração, transmissão, armazenamento, modernização da rede, financiamento e manutenção. Países desesperados por energia barata e confiável não hesitam em aceitar.
Em 2024, a China codificou essa visão na nova Lei de Energia, tornando explícito o que já era implícito: energia não é setor, é domínio estratégico. Carvão, petróleo e gás permanecem como base de estabilidade industrial; solar, eólica, nuclear, hidrogênio e armazenamento crescem em paralelo, sem pressa ideológica, com pragmatismo de potência.
Kissane arremata com um alerta direto a Washington: a verdadeira dominância energética não se define pela escolha entre fósseis e renováveis, mas pela integração de tudo — petróleo, gás, nuclear, renováveis, manufatura e inovação — numa estratégia nacional coerente, capaz de projetar poder econômico e militar além das próprias fronteiras. Caso contrário, será Pequim a ditar preços, padrões e prazos da transição energética global, usando sua alavanca tecnológica e mineral como arma silenciosa de influência.
Para leitores brasileiros, a mensagem é especialmente oportuna — e incômoda. Enquanto Brasília debate seu papel no G20, no BRICS e na transição energética, o artigo de Kissane lembra que a China não está apenas vendendo equipamentos: está construindo dependência estratégica de longo prazo em toda a América Latina. Quem controla a eletricidade do futuro controla o desenvolvimento — e a influência política que vem com ele.
Em tempos de tensão comercial crescente entre Washington e Pequim, o texto da Foreign Affairs não é análise acadêmica — é necrológio precoce de uma hegemonia que não soube se reinventar.