A França decidiu insistir no erro.
Apesar de verificadores de fatos independentes terem demonstrado que o vídeo usado como prova era adulterado, e apesar de mais de 150 ex-ministros, embaixadores e altos funcionários terem acusado o chanceler Jean-Noël Barrot de disseminar desinformação, Paris confirma que pedirá formalmente a remoção da relatora especial da ONU Francesca Albanese na sessão do Conselho de Direitos Humanos marcada para 23 de fevereiro de 2026.
Barrot voltou ao parlamento francês nesta semana para declarar que não tinha nada a retratar sobre as afirmações que fez em 11 de fevereiro — quando acusou Albanese de ter chamado Israel de “inimigo da humanidade”.
O problema é que ela nunca disse isso.
A verificação independente mostrou que a frase atribuída à relatora foi extraída de um vídeo digitalmente manipulado, amplificado pelo UN Watch — organização conhecida por campanhas sistemáticas de descrédito contra mecanismos da ONU — e por seu diretor executivo Hillel Neuer, figura recorrente em ofensivas contra funcionários que investigam violações israelenses. O que Albanese disse, de fato, num fórum transmitido pela Al Jazeera em 7 de fevereiro, foi: “Vemos agora que nós, como humanidade, temos um inimigo comum — e o respeito das liberdades fundamentais é a última via pacífica, a última caixa de ferramentas que temos para reconquistar nossa liberdade.” Barrot citou uma versão adulterada dessa frase como fundamento para pedir a demissão de uma alta funcionária do sistema multilateral internacional, sem verificação prévia e sem retratação posterior.
A coalizão de ex-diplomatas e funcionários que veio a público não poupou palavras: “Ao pedir publicamente a demissão de uma especialista independente da ONU com base em alegações infundadas, as autoridades arriscam enfraquecer os mecanismos da ONU, disseminar desinformação e fomentar hostilidade que pode colocar em perigo a segurança da relatora.” Grupos jurídicos franceses chegaram a registrar queixas criminais contra o ministro. Nada disso o fez recuar.
A resposta da sociedade civil foi à altura da gravidade do episódio. Mais de 100 figuras proeminentes da cultura mundial assinaram carta aberta em defesa de Albanese, organizada pelo grupo Artists for Palestine. Entre os signatários estão os atores Mark Ruffalo e Javier Bardem, a Nobel de Literatura Annie Ernaux, a cantora britânica Annie Lennox, as atrizes Rosa Salazar e Asia Argento, os diretores de cinema indicados ao Oscar Yorgos Lanthimos e Kaouther Ben Hania, o astro da música latina Residente e a fotógrafa Nan Goldin. A carta é direta: “Oferecemos nosso total apoio a Francesca Albanese, defensora dos direitos humanos e, portanto, também do direito do povo palestino de existir.” E conclui com uma frase que ressoa além do episódio imediato: “Somos infinitamente mais, em cada canto da Terra, que queremos que a força não seja mais a lei. Que sabemos o que a palavra ‘lei’ realmente significa.”
Para entender a gravidade do que está em jogo, é preciso entender quem é Francesca Albanese e o que seu mandato representa. Jurista italiana especializada em direito internacional e direitos dos refugiados, Albanese é Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados desde 2022, exercendo o cargo de forma não remunerada. Seus relatórios documentaram com rigor técnico o que organismos internacionais — incluindo o Tribunal Internacional de Justiça — passaram a examinar sob a lente do direito internacional humanitário: o padrão de destruição em Gaza, o bloqueio, os ataques a hospitais, escolas e campos de refugiados, a fome imposta como instrumento de guerra. Em março de 2024, apresentou ao Conselho de Direitos Humanos um relatório que concluiu haver base razoável para considerar que Israel estava cometendo genocídio contra o povo palestino — em linha com o que a própria CIJ havia indicado ao ordenar medidas cautelares no processo movido pela África do Sul. Não foi opinião política. Foi análise jurídica fundamentada nas Convenções de Genebra e na Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio.
Os números que embasam essa análise são de uma brutalidade que desafia a linguagem — e continuam crescendo. Até 10 de fevereiro de 2026, o Ministério da Saúde de Gaza registrava oficialmente mais de 73.158 palestinos mortos desde outubro de 2023, com 171.715 feridos. Mas os números reais são provavelmente muito maiores: um estudo publicado hoje pelo Lancet, a mais respeitada revista médica do mundo, estima que o total real de mortos seja mais de 50% superior às cifras oficiais — 75.200 mortes violentas e 16.300 mortes não-violentas atribuíveis ao colapso do sistema de saúde, à fome e às doenças. Corpos sob escombros, sistemas de registro destruídos, comunicações cortadas, hospitais demolidos: tudo conspira para que o horror seja documentado abaixo do que realmente ocorreu. Em janeiro de 2026, um oficial do próprio exército israelense reconheceu publicamente, pela primeira vez, que cerca de 70.000 palestinos haviam sido mortos — confirmando, de forma inédita, a credibilidade dos dados que Israel havia meses tentado desacreditar. Entre os mortos, 80% eram civis. Duzentos e quarenta e oito jornalistas foram mortos. Mais de 224 trabalhadores humanitários perderam a vida. A fome foi declarada no norte de Gaza em agosto de 2025. Mais de 80% da população foi deslocada mais de uma vez.
É nesse contexto que a França decide usar um vídeo falsificado para destruir a carreira da funcionária que ousou nomear o que está acontecendo. A manobra tem uma lógica política inteligível, ainda que moralmente repugnante: se o mensageiro é desacreditado, a mensagem pode ser ignorada. Se Albanese é afastada, o mandato fica vago, o relatório perde autoridade e o processo no TIJ perde uma de suas referências técnicas mais citadas. É uma operação de supressão institucional disfarçada de indignação moral.
Vale registrar que a própria Albanese respondeu às acusações com uma frase que resume a assimetria do episódio: “Três governos europeus me acusam — com base em declarações que nunca fiz — com uma virulência e convicção que jamais usaram contra aqueles que massacraram mais de 20 mil crianças em 858 dias.”
O que a coalizão de diplomatas, os funcionários da ONU e os artistas que assinaram a carta pedem é simples: que Paris retire suas declarações, reafirme a independência dos mandatos da ONU e proteja as instituições multilaterais no momento em que elas são o último dique contra a impunidade. O que a França responde, ao insistir no erro documentado, é que proteger essa impunidade vale mais do que a integridade das instituições que ajudou a construir.
A história registrará esse episódio. A questão é saber se o registrará como o momento em que a Europa escolheu o silêncio — ou como aquele em que ainda havia vozes dispostas a nomear o que estava acontecendo.