Vladimir Putin recebeu o chanceler cubano Bruno Rodríguez no Kremlin nesta quarta-feira e deixou claro, sem rodeios, que Moscou não aceitará passivamente o cerco americano a Havana.
As novas sanções impostas por Washington à Cuba — parte de uma estratégia que diplomatas russos descrevem como uma tentativa de estrangular a ilha de petróleo — foram classificadas pelo presidente russo como “inaceitáveis”.
“Agora é um período especial, novas sanções. Você sabe como nos sentimos a respeito”, disse Putin ao ministro cubano, segundo a agência estatal TASS. “Não aceitamos nada disso.”
O encontro no Palácio do Senado do Kremlin aconteceu no mesmo dia em que o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, se reuniu separadamente com Rodríguez para reforçar a posição de Moscou: oposição a qualquer bloqueio naval total à ilha e defesa de uma saída negociada para a crise. A mensagem foi dupla e coordenada — Putin e Lavrov falando em uníssono, cada um pelo seu canal, para que não restassem dúvidas sobre a posição russa.
Um alto diplomata russo havia antecipado na semana passada que Moscou forneceria ajuda concreta a Havana, incluindo assistência material, para enfrentar a pressão americana sobre o abastecimento de combustível. A Cuba já enfrenta apagões prolongados e escassez crônica de combustível — e a perspectiva de um aperto ainda maior no fornecimento de petróleo transforma a crise humanitária em tema de segurança regional.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, foi às agências de notícias afirmar que Moscou não discutiu a questão cubana com Washington. A ressalva não é trivial: mais cedo nesta quarta-feira, representantes da Rússia, da Ucrânia e dos Estados Unidos concluíam conversações trilaterais de paz em Genebra — o que tornava o dia diplomaticamente carregado e o silêncio russo sobre Cuba uma escolha deliberada de compartimentação.
O contexto é de escalada. Desde que a administração Trump intensificou as restrições ao comércio com Cuba e começou a pressionar países terceiros a reduzirem o fornecimento de petróleo à ilha, Moscou passou a enquadrar a questão como parte de um padrão mais amplo de coerção unilateral americana — o mesmo enquadramento que usa para justificar seu apoio à Venezuela, ao Irã e a outros governos sob sanções ocidentais.
Para Putin, Cuba não é apenas um aliado ideológico herdado da Guerra Fria: é uma peça no tabuleiro mais amplo da disputa com Washington, um símbolo da resistência ao que Moscou chama de “ordem baseada em regras” imposta pelos Estados Unidos. Defender Havana publicamente, no Kremlin, no mesmo dia em que diplomatas russos negociavam em Genebra, é uma mensagem calculada — de que a Rússia é capaz de jogar em múltiplos tabuleiros ao mesmo tempo, e não pretende deixar nenhum deles.