Os Estados Unidos terminaram 2025 com um déficit recorde no comércio de bens, contrariando a promessa de que tarifas resolveriam o saldo negativo crônico do país. Não resolveu, pelo menos até aqui.
Em 2025, as exportações americanas de bens somaram US$ 2,18 trilhões, uma alta de 5,7% em relação a 2024.
As importações chegaram a US$ 3,42 trilhões, crescimento de 4,6% sobre o ano anterior.
O déficit, portanto, bateu US$ 1,24 trilhão, cerca de 2,7% maior do que em 2024.
Somadas exportações e importações, a corrente de comércio atingiu US$ 5,59 trilhões em 2025, avanço de 5,0% na comparação anual.
Essa escala coloca os EUA no centro do comércio global. Em bens, a China operou num patamar ainda maior em 2025, com uma corrente de cerca de US$ 6,5 trilhões, o que dá a medida do tamanho da disputa entre as duas economias.
E há um detalhe político importante: os Estados Unidos seguem como o maior mercado importador do mundo, o que amplifica tanto seu poder de pressão quanto o custo interno quando Washington decide “subir a régua” do protecionismo.
En passant: as tarifas não “curaram” o déficit comercial e, na prática, funcionam como imposto de importação. Elas encarecem insumos e produtos para quem compra dentro dos EUA, mesmo quando a retórica fala em “punir” o fornecedor estrangeiro.
Esse custo tende a pesar mais nas pequenas e médias empresas, que têm menos margem, menos poder de barganha e pouca flexibilidade para trocar fornecedores ou redesenhar rapidamente suas compras. As grandes corporações, com escala e caixa, conseguem amortecer melhor o choque.
Quando o volume importado sobe ao mesmo tempo em que a alíquota aumenta, a consequência é direta: mais imposto recolhido na alfândega e mais custo espalhado pela cadeia produtiva. Em 2025, o déficit recorde mostra que o “remédio” tarifário não atacou a raiz do problema.
Para entender o quadro, vale olhar a trajetória com calma. Em 2005, os EUA exportavam cerca de US$ 0,90 trilhão em bens e importavam US$ 1,67 trilhão — números que hoje parecem de outra era.
Vinte anos depois, o comércio cresceu muito e a economia americana ficou ainda mais conectada às cadeias globais. O déficit também cresceu, e segue oscilando mais com a dinâmica da demanda interna e do câmbio do que com a retórica política do momento.
Do lado das exportações, dois motores se destacam em 2025: aeronaves e energia. Aeronaves civis, motores e partes somaram US$ 152,8 bilhões, uma alta de cerca de 23% sobre 2024.
Na energia, o conjunto de petróleo bruto, derivados e gás natural exportou cerca de US$ 291,8 bilhões em 2025. Nesse mesmo pacote, o saldo ficou positivo em aproximadamente US$ 92,6 bilhões.
Esse superávit energético cresceu com força em 2025, porque as importações de energia caíram bem mais do que as exportações. Em termos simples, os EUA passaram a “pagar menos lá fora” por energia ao mesmo tempo em que mantiveram vendas externas em nível alto.
O contraste histórico é forte: em meados dos anos 2000, energia era um grande buraco na balança; hoje, é um dos pilares que ajudam a reduzir a dependência externa. Isso não significa “autossuficiência” perfeita, mas sinaliza a virada estrutural do país para um papel de grande exportador de energia.
Nas importações, 2025 misturou tecnologia, consumo e cadeia industrial. Um exemplo claro foi o salto nas compras externas de máquinas e equipamentos de informática, que chegaram a US$ 251,0 bilhões — quase 80% acima de 2024.
Outros itens também cresceram, como aparelhos de comunicação e transmissão de dados, que somaram US$ 142,1 bilhões em 2025, alta de cerca de 25% na comparação anual. Já automóveis de passeio caíram no período, o que mostra que 2025 não foi um “boom” uniforme em todas as categorias.
E há um símbolo do cotidiano: o café. A importação americana de café chegou a US$ 12,6 bilhões em 2025, um salto de aproximadamente 43% em relação a 2024.
Quando se compara com 2005, a diferença é ainda mais gritante: naquele ano, a importação de café era de US$ 2,8 bilhões. O consumo continua, mas o preço e o valor importado mudaram de patamar.
O Brasil aparece como parceiro relevante, mas pequeno no total. Em 2025, o país respondeu por 1,17% das importações americanas de bens, abaixo de 2024, quando a participação foi de 1,30%.
Esse recuo tem uma explicação direta: em 2025, as compras americanas vindas do Brasil caíram, enquanto as importações totais dos EUA aumentaram. Ou seja, o bolo cresceu e a fatia brasileira diminuiu.
Na relação bilateral, a corrente de comércio Brasil–EUA chegou a US$ 94,3 bilhões em 2025, alta de cerca de 3% sobre 2024. É uma relação grande, mas ainda distante do “clube do trilhão” que marca os maiores blocos do comércio americano.
O saldo, porém, foi claramente favorável aos EUA: superávit de US$ 14,4 bilhões em 2025. Esse número mais do que dobrou na comparação com 2024, puxado pelo aumento das exportações americanas ao Brasil e pela queda das importações americanas vindas daqui.
E aqui vale o cuidado com comparações isoladas: é verdade que o Brasil teve superávit com os EUA em meados dos anos 2000, mas essa janela foi curta. Desde 2008, o saldo passou a ser sistematicamente favorável aos americanos, o que muda o tom de qualquer debate sobre “vilões” comerciais.
Já a relação com a China segue no centro do tabuleiro, mas 2025 trouxe uma queda forte no comércio bilateral. A corrente EUA–China foi de cerca de US$ 414,7 bilhões em 2025, uma redução próxima de 29% em relação a 2024.
O déficit americano com a China também encolheu: ficou em torno de US$ 202,1 bilhões em 2025, uma melhora de cerca de 32% sobre 2024. É um recuo relevante, mas não elimina a dependência de cadeias asiáticas em setores de tecnologia e bens de consumo.
Só que parte do desequilíbrio parece ter mudado de endereço. Com a ASEAN, a corrente de comércio subiu para cerca de US$ 580,1 bilhões em 2025, alta de aproximadamente 22% sobre o ano anterior, e o déficit americano aumentou para US$ 327,3 bilhões.
Com a União Europeia, a história é diferente: a corrente de comércio passou de US$ 1 trilhão e cresceu em 2025, e o saldo negativo ficou menor do que no ano anterior. Entre grandes blocos, a Europa segue sendo a relação mais volumosa do comércio americano — e, ao mesmo tempo, menos “explosiva” do que o eixo asiático no debate tarifário.
O resultado final de 2025 é um retrato de como tarifas podem reorganizar fluxos sem “matar” o déficit. O saldo negativo recorde permanece, enquanto a geografia do desequilíbrio vai sendo redesenhada — com custos internos que, no fim, aparecem no preço e na margem das próprias empresas americanas.