Viagem de Lula à Índia expõe espaço para crescer no comércio e reduzir déficit com gigante asiático

Foto: Ricardo Stuckert / PR

A viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia tem um componente estratégico claro: ampliar a relação econômica com um país grande, dinâmico e ainda relativamente “subaproveitado” pelo Brasil. O comércio bilateral já é relevante, mas o perfil do que o Brasil vende e do que compra mostra que ainda há muito espaço para crescer — e, principalmente, para crescer de um jeito mais equilibrado.

Nos 12 meses encerrados em janeiro de 2026 (ou seja, de fevereiro de 2025 a janeiro de 2026), o Brasil exportou US$ 6,95 bilhões para a Índia e importou US$ 8,19 bilhões. Somando os dois lados, a corrente de comércio — a soma de exportações e importações — chegou a US$ 15,14 bilhões. O saldo ficou negativo: o Brasil terminou o período com déficit de US$ 1,24 bilhão no comércio de bens com os indianos.

Esses números mostram duas coisas ao mesmo tempo: o fluxo é grande o bastante para estar no centro da agenda econômica do governo, e o desequilíbrio não é enorme, mas é persistente. Ainda assim, o retrato recente traz uma melhora importante. Nos 12 meses encerrados em janeiro de 2025, o Brasil exportava US$ 5,44 bilhões e importava US$ 7,12 bilhões, com corrente de US$ 12,56 bilhões e déficit de US$ 1,69 bilhão. Em um ano, portanto, as exportações para a Índia subiram US$ 1,52 bilhão (alta de 28%), as importações cresceram US$ 1,07 bilhão (alta de 15%) e o déficit encolheu cerca de US$ 0,45 bilhão.

Quando se olha para o que o Brasil vende para a Índia, aparece um ponto central para qualquer estratégia de longo prazo: a pauta é concentrada. Nos 12 meses até janeiro de 2026, três produtos responderam por quase 60% de tudo o que o Brasil exportou para a Índia. O principal foi petróleo bruto, com US$ 2,02 bilhões no período — quase 30% da pauta. Depois vieram açúcar, com US$ 1,03 bilhão, e óleo de soja, com US$ 1,01 bilhão. Ou seja, boa parte do comércio é puxada por energia e alimentos básicos.

Esse retrato ajuda a explicar por que a relação Brasil–Índia oscila tanto: quando poucos itens mandam no total, qualquer mudança de preço internacional ou de demanda altera o placar rapidamente. Mas, ao mesmo tempo, dá para enxergar por onde o comércio cresceu no último ano. O avanço mais forte veio do petróleo, que aumentou cerca de US$ 717 milhões em relação aos 12 meses anteriores. Além disso, ganharam tração produtos ligados a mineração e agro: minério de ferro chegou a US$ 494 milhões (na prática, saindo de um patamar quase inexistente no ano anterior), óleo de soja cresceu US$ 240 milhões, minério de cobre alcançou US$ 222 milhões, e também houve aumento em itens como algodão (US$ 389 milhões) e ouro (US$ 177 milhões).

Ao mesmo tempo, o Brasil perdeu força em um item tradicional. O açúcar caiu aproximadamente US$ 535 milhões na comparação anual, mesmo ainda ficando acima de US$ 1 bilhão no acumulado de 12 meses. Essa troca de “motores” — menos açúcar, mais petróleo e minérios — ajuda a entender por que as exportações cresceram, mas com uma cara diferente.

O caso do café é ilustrativo de outro desafio: nem tudo o que é símbolo do agro brasileiro aparece com peso na relação com a Índia. Nos 12 meses encerrados em janeiro de 2026, o Brasil exportou para a Índia US$ 16,7 milhões em café. Isso é pouco: representa 0,24% do total exportado para os indianos no período. E o movimento recente foi ruim: nos 12 meses anteriores (encerrados em janeiro de 2025), o valor era US$ 51,8 milhões. Ou seja, o café caiu cerca de US$ 35 milhões em um ano. Se a ideia é transformar café em agenda bilateral, o ponto de partida é admitir que hoje ele é pequeno e instável, e que crescer exige estratégia de mercado — regularidade de compras, presença comercial e, sobretudo, produtos com mais valor agregado.

Do lado do que o Brasil compra da Índia, a pauta é mais espalhada, mas com um padrão nítido: muitos itens são industriais e químicos, e isso explica o déficit. Nos 12 meses até janeiro de 2026, o Brasil importou da Índia US$ 1,05 bilhão em combustíveis refinados e derivados de petróleo. Em seguida vieram produtos químicos e itens ligados à cadeia de saúde: um grande grupo de insumos químicos somou US$ 729 milhões, defensivos agrícolas chegaram a US$ 530 milhões, e medicamentos a US$ 509 milhões. Também tiveram peso itens que alimentam a indústria, como autopeças (US$ 295 milhões), peças para motos (US$ 204 milhões), partes de motores (US$ 166 milhões) e pneus (US$ 140 milhões).

A tendência recente reforça por que o saldo é difícil de virar apenas “na marra”. O item que mais cresceu, em valor, foi justamente o de derivados de petróleo, que aumentou cerca de US$ 514 milhões em relação aos 12 meses anteriores. Também houve avanço importante em medicamentos (alta de US$ 143 milhões) e em insumos químicos usados pela indústria (altas na casa de US$ 150 milhões em alguns grupos). Em resumo: as importações que crescem são, em boa medida, aquelas que o Brasil compra porque precisa para produzir, para o agronegócio funcionar e para abastecer cadeias industriais e o sistema de saúde.

Esse contraste explica o coração da estratégia possível. O Brasil vende para a Índia, principalmente, produtos básicos — petróleo bruto, açúcar, óleo de soja, minérios. E compra da Índia, em grande parte, produtos mais elaborados e insumos industriais — combustíveis refinados, químicos, defensivos, medicamentos, peças. Isso não é “erro” em si; é o retrato de especializações diferentes. Mas é exatamente por isso que o debate sobre investimento e produção local é central: se a relação crescer só do jeito atual, ela pode crescer com déficit junto.

A oportunidade, portanto, é dupla. De um lado, há espaço para o Brasil ampliar vendas num mercado enorme, especialmente em energia e alimentos, e também explorar melhor nichos onde o país tem diferencial — inclusive alimentos com mais processamento e marca, e produtos industriais e semimanufaturados onde for possível competir. De outro, há uma porta estratégica para reduzir o déficit: atrair investimentos e parcerias para produzir no Brasil parte do que hoje entra como importação, especialmente em segmentos onde a Índia é forte, como medicamentos e química. Isso não depende apenas de discurso; depende de projetos concretos, fábrica, cadeia de fornecedores e acordos que façam sentido para os dois lados.

Nos 12 meses encerrados em janeiro de 2026, o comércio Brasil–Índia cresceu, e o déficit diminuiu. A viagem de Lula acontece com esse pano de fundo: um intercâmbio grande, em expansão, mas que ainda precisa ser “qualificado” para se tornar mais equilibrado. Se o Brasil conseguir transformar parte do aumento de comércio em investimento produtivo, tecnologia e mais valor agregado nas exportações, a relação pode subir de patamar — com mais estabilidade e menos dependência de ciclos de preço e de importações industriais.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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