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Lula diz que Trump não deveria ameaçar o mundo “todo dia”

“Um país do tamanho dos Estados Unidos, do ponto de vista militar e tecnológico, não pode ameaçar todo mundo todo dia.” A frase é de Lula, dita na Índia ao ser questionado sobre Donald Trump e sobre como pretende conduzir a relação com Washingto, durante entrevista exibida pela India Today em 20 de fevereiro. O […]

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Crédito: Twitter do Modi

“Um país do tamanho dos Estados Unidos, do ponto de vista militar e tecnológico, não pode ameaçar todo mundo todo dia.”

A frase é de Lula, dita na Índia ao ser questionado sobre Donald Trump e sobre como pretende conduzir a relação com Washingto, durante entrevista exibida pela India Today em 20 de fevereiro.

O presidente brasileiro emendou o raciocínio: “o mundo precisa de paz e tranquilidade”, porque só assim é possível “crescer”, “estudar”, “criar empregos” e “construir”. Ele falou em levar esse argumento diretamente a Trump, “pessoa a pessoa”.

A entrevista foi gravada durante a passagem de Lula por Nova Déli, onde participou do India AI Impact Summit e teve agenda com o primeiro-ministro Narendra Modi. Em paralelo às reuniões oficiais, o presidente aceitou conversar com a India Today em um especial de cerca de 52 minutos, divulgado como “world exclusive” pela emissora.

A India Today descreveu Lula como “a voz inabalável dos nossos tempos fraturados”, “campeão dos marginalizados”, “sobrevivente da prisão” e de “múltiplas tempestades políticas”, com um “retorno lendário” e uma mensagem “intransigente”: “o Sul Global não será silenciado”.

Na conversa, Lula foi entrevistado por Geeta Mohan e Marya Shakil. Depois, em um programa de comentários exibido pela própria emissora, as duas voltaram ao assunto com a âncora Sonal, que tratou o trecho sobre Trump como o centro político da entrevista.

“Para mim, a manchete era claramente o que ele disse sobre o Trump; ele foi muito categórico”, afirmou Sonal, no estúdio, antes de pedir que Geeta Mohan repetisse a pergunta “exata” feita ao presidente e exibir um trecho em vídeo como “teaser”.

Mohan contou que escolheu abrir o bloco de forma frontal. “Eu disse: ‘ok, vamos falar de Trump… é uma relação muito difícil. Como você está lidando com isso, navegando esse espaço com Trump? O que você acha de Trump? Defina Trump para nós'”, relatou. A resposta, segundo ela, destoou do padrão que vinha observando em entrevistas com líderes. “Ele foi muito franco… não foi como a maioria dos líderes, que hoje é muito cautelosa quando fala de Trump. Eu não esperava respostas tão inflamadas.”

No mesmo programa, Mohan resumiu a impressão sobre o entrevistado com uma palavra que reapareceu mais de uma vez no debate: “estadista”. “Eles não são apenas líderes, são estadistas… viram a política global mudar diante deles”, disse ela, comparando o tipo de entrevista àquelas que já havia feito com Vladimir Putin. As jornalistas também mencionaram bastidores de produção: não receberam perguntas prévias e houve tradução simultânea por fones, com o intérprete em outra sala para não “vazar” no microfone. Mohan relatou ainda uma frase atribuída a Lula antes do início formal da gravação: “Ele nos segurou e disse: ‘vocês podem me perguntar o que quiserem’.” Sonal reagiu: “isso é o sonho de qualquer repórter.”

A entrevista voltou repetidamente ao mesmo eixo: Trump, tarifas, ameaças, América do Sul e o método de Lula para conduzir a relação com o presidente americano. Em um dos trechos destacados pela emissora, Lula traçou uma linha de continuidade. “Eu me dei muito bem com o presidente Bush, me dei muito bem com o presidente Obama, me dei muito bem com o presidente Biden; e agora eu quero me dar muito bem também com o presidente Trump”, afirmou, acrescentando que a relação entre Brasil e Estados Unidos tem “mais de 200 anos” e que quer mantê-la “forte”.

Para enquadrar o impacto do atrito tarifário, Lula recorreu a números. Segundo ele, o comércio bilateral gira em torno de “US$ 80 bilhões”, com superávit do lado americano; os EUA representam “apenas 12%” da balança comercial brasileira e, dentro desse recorte, “22%” teriam sido atingidos pelas tarifas. “Não é o fim do mundo”, concluiu. O governo brasileiro optou por não acionar a lei de reciprocidade, apostando na negociação. “Nós não aplicamos a lei da reciprocidade porque acreditamos na capacidade de negociar do lado brasileiro”, declarou.

O presidente deixou claro que o tema tarifário não esgota a agenda com Washington. Propôs a Trump uma reunião “pessoa a pessoa” em março para “colocar os assuntos na mesa”, mas estabeleceu um limite explícito: “Não há nada proibido para discutir com o presidente Trump em matéria comercial. O que eu não posso colocar em discussão é a minha soberania e a democracia no Brasil; isso pertence a mim e ao meu povo.”

Quando perguntado se Trump estaria “militarizando” tarifas e se é difícil negociar com ele, Lula ponderou que a negociação propriamente dita ainda não havia começado — houve duas ligações telefônicas, e o encontro presencial ainda estava por vir. A pauta que pretende levar é concreta: combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas, minerais críticos e terras raras. No bloco sobre segurança, narrou um episódio específico: disse ter apresentado aos americanos uma lista de brasileiros envolvidos em contrabando e mencionou “um criminoso” que, segundo ele, “mora em Miami”, chegando a levar “uma fotografia da casa” dessa pessoa. O pedido foi direto: “Se vamos combater o tráfico de drogas, mandem de volta ao Brasil esses criminosos brasileiros que estão vivendo nos Estados Unidos.”

Um detalhe sublinhado pela emissora como recado político foi a insistência no registro formal. Lula quer levar propostas “por escrito” para Trump. “Eu tenho medo que o vento leve as palavras”, advertiu — humor de velho sindicalista, mas também método: com Trump, o improviso verbal não tem valor de compromisso.

A entrevista buscou ainda caracterizar Trump a partir do contraste entre comportamento público e privado, introduzindo uma observação atribuída a Putin, de que o presidente americano seria diferente “fora das câmeras”.

“Trump é um especialista em marketing; é especialista no digital e nas redes sociais. Está muito claro que ele faz isso como um show de TV”, respondeu Lula, acrescentando que, em “reunião pessoal”, Trump seria “muito mais tranquilo”.

Recorreu então à idade como argumento para desarmar a retórica de confronto: “Eu tenho 80 anos e ele vai fazer 80 agora em junho. Então dois homens de 80 anos não precisam brigar; não precisamos montar uma vitrine.”

Foi nessa sequência que veio o trecho que as entrevistadoras descreveram como o mais marcante do programa: a menção a Mahatma Gandhi.

“A única coisa que eu sei é que eu não quero guerra. O modelo da minha vida é Gandhi”, declarou Lula, evocando o episódio de 2003 em que, segundo ele, George W. Bush o convidou para a guerra do Iraque. Recusou, disse, por não conhecer Saddam Hussein — e porque sua prioridade era outra: “a minha guerra era contra a fome.”

No programa de comentários, Mohan voltou à passagem com ênfase: “Quando ele falou de Mahatma Gandhi e não violência, isso realmente ficou.” Acrescentou que Lula teria dito querer “levar Gandhi” consigo ao encontrar Trump.

O bloco sobre Trump retornou pelo tema das redes sociais, com menção ao Truth Social. Perguntado se decisões anunciadas por plataformas digitais deveriam mudar, Lula criticou o ambiente online: “O que a gente chama de rede social tem pouco de social no que a gente vê nas redes digitais. A mentira prevalece.” Defendeu regulação das plataformas, com punição para divulgação de violência, e citou a proibição de celulares nas escolas brasileiras como exemplo de política pública eficaz. Quando a entrevistadora perguntou se Trump deveria falar pessoalmente com líderes antes de anunciar medidas, a resposta foi por contraste: “Eu nunca comunicaria uma ação da minha parte com a Índia pelo Twitter; eu ligaria primeiro para o primeiro-ministro Modi.” Era, disse, “o modo mais civilizado” de construir harmonia — e de evitar que um país seja “pego de surpresa”.

O tema Venezuela entrou como porta de entrada para as perguntas sobre ameaça regional. A entrevistadora descreveu a América do Sul como uma região “muito pacífica” que estaria vendo “problemas” e perguntou sobre a ação dos EUA no país vizinho. Lula foi categórico: “Não podemos aceitar que um chefe de Estado de um país invada outro país e capture o presidente; isso é inaceitável.” Se Nicolás Maduro “tiver que ser julgado”, argumentou, deveria ser “julgado no país dele, não fora”. Citou o histórico de golpes na América Latina nos anos 1960 e a influência de embaixadas americanas naquele período, concluindo que espera uma solução “pelo povo venezuelano” e “não por interferência externa.”

Quando as entrevistadoras listaram possíveis próximos alvos de Trump — Cuba, Colômbia, o próprio Brasil —, Lula respondeu que o país “não quer confronto” com os Estados Unidos e busca uma relação “civilizada”, com respeito à soberania e negociação “ganha-ganha”. “Eu quero tratar os Estados Unidos como eu trato a Índia, como eu trato a China”, afirmou. “Não tenho preferência.”

O caso Jair Bolsonaro apareceu no fim da entrevista como um potencial ponto de atrito com Trump. As jornalistas contaram, no programa posterior, que insistiram com reperguntas porque Lula não respondeu de imediato.

A resposta que veio foi de encerramento: “A questão do Bolsonaro está resolvida.” Lula afirmou que ele foi “condenado a 27 anos e três meses”, mencionou documentação sobre um suposto plano de assassinato, disse que o devido processo foi seguido e concluiu com uma pergunta retórica: “Qual é a relação do Trump com Bolsonaro?”

Foi depois desse bloco que Lula enunciou a frase que a India Today tratou como manchete — sobre paz e sobre os limites do poder americano. “Um país do tamanho dos Estados Unidos… não pode ameaçar todo mundo todo dia.”

A entrevista também teve um eixo longo sobre os BRICS. Lula descreveu o bloco como “uma das coisas mais importantes” criadas nas últimas décadas, contrapondo-o a fóruns como G7 e G20. “Índia e China… só esses dois carregam metade da população do mundo”, observou, defendendo que o grupo pode estabelecer “nova dinâmica” de comércio, cultura e relações entre Estados. Reiterou que o Brasil não quer uma “segunda Guerra Fria” — “se a primeira foi entre os EUA e a União Soviética, nós não queremos outra entre China e EUA” — e que o país quer negociar com “EUA, China, Índia, Rússia” e “todos os países do mundo”.

Sobre divergências internas ao bloco, Lula respondeu que ele se fortalece quando “toma decisões corretas”. Citou uma teleconferência do BRICS convocada após Trump impor “tarifas universais”, para produzir uma nota contra medidas unilaterais, e mencionou manifestações do grupo sobre Gaza e sobre a guerra na Ucrânia, com condenação à invasão territorial.

A relação Brasil-Índia apareceu como parte da agenda de diversificação. Lula disse querer “reforçar” a parceria e ter levado uma delegação empresarial numerosa, com meta de elevar o comércio bilateral dos atuais “US$ 15 bilhões” para “US$ 30 bilhões” a “US$ 40 bilhões”. “Ninguém compra aquilo que não conhece”, justificou, ao descrever o esforço de apresentar o mercado brasileiro ao empresariado indiano. Citou interesse em setores como espaço, defesa e indústria farmacêutica, e mencionou que a Embraer pretende abrir uma planta de fabricação de aeronaves na Índia. Na leitura de Geeta Mohan no pós-programa, Lula teria associado “um futuro melhor” a uma “parceria maior” com Modi, descrevendo a Índia como “a história do crescimento”.

O tema moeda foi tratado com certo suspense no estúdio — as jornalistas prepararam o trecho com “espera só”, repetido com ênfase. Marya Shakil observou que Lula “enquadrou de forma diferente” a discussão: defendeu comércio em moedas nacionais, mas não projetou um mundo em que o dólar deixe de circular como circula hoje. Na entrevista, ao ser perguntado se o BRICS pode “desdolarizar” a economia global, Lula respondeu que não considera necessário fazer comércio Brasil-Índia em dólar. “O que eu defendo é que a gente possa usar as nossas próprias moedas”, disse, reconhecendo que é “difícil” mas que “podemos tentar” — sem “desfazer o sistema da noite para o dia”. Citou como exemplo compras entre Brasil e Argentina em moedas nacionais em seu primeiro mandato e encerrou com a pergunta que, segundo ele, deveria orientar o debate: “nós precisamos do dólar?” Quando a hipótese migrou para uma moeda comum do BRICS, descartou sem hesitar: “Ninguém propôs criar a moeda do BRICS; essa não é a proposta. Não há debates dentro do BRICS para criar uma nova moeda.”

Na parte final, Lula falou de Amazônia e de reforma do sistema internacional. Convidou as entrevistadoras a visitar a região, citou que “30 milhões de pessoas” vivem na floresta com direito a trabalho e consumo, e afirmou que o governo reduziu “mais de 50%” do desmatamento em três anos, com meta de “desmatamento zero” até 2030. Sobre a ONU, defendeu mudança na Carta para torná-la “mais representativa”, questionou por que Índia, Brasil e países africanos não ocupam assentos permanentes no Conselho de Segurança e disse concordar com a crítica de Trump ao excesso de burocracia — mas advogou reforma, não dissolução.

A entrevista havia começado com inteligência artificial e terminou voltando ao tema, como fecho natural da visita. Lula saudou a convocação do summit por Modi como “muito positiva” e defendeu que a IA pode ajudar saúde e educação, mas não deve substituir o trabalho humano em escala. A tecnologia, insistiu, não pode ser “privilégio de poucos” nem ter “um dono, ou dois donos” — e exige “regulação muito rígida”, conduzida por uma instituição multilateral “do tamanho das Nações Unidas”, com foco em proteger “crianças, adolescentes e mulheres”. No programa de comentários, Marya Shakil apontou convergência entre Modi e Lula nesse ponto, citando a ideia de tornar a IA “child safe” e de envolver as famílias no controle do que crianças acessam.

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Estamos terminando de renderizar os vídeos legendados da entrevista e dos comentários da mídia indiana.

Por enquanto fique com os links dos originais. Daqui a pouco a gente troca os links pelos vídeos legendados.

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