Em entrevista coletiva realizada neste domingo (23), em Nova Déli, após o encerramento de sua missão oficial à Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a relação entre os dois países se diferencia das dinâmicas internacionais marcadas pela “lei do mais forte” e por relações hierárquicas. Segundo ele, Brasil e Índia compartilham necessidades convergentes, o que permite construir uma cooperação baseada em interesses comuns, capaz de ampliar investimentos cruzados e acelerar o comércio bilateral.
“Com a Índia é diferente. Nós somos dois necessitados. Ninguém é superior a ninguém.” O presidente destacou que, apesar das diferenças culturais, religiosas e linguísticas, existem “muitas similaridades nas virtudes e nas necessidades” entre as duas sociedades, o que, em sua avaliação, cria um ambiente favorável para acordos práticos e metas conjuntas.
Ao comparar a relação com a Índia a outros cenários diplomáticos, Lula afirmou que há negociações internacionais em que predomina um “tom de supremacia”, no qual países mais fortes tentam impor condições aos mais fracos. Para ele, esse padrão não se verifica no diálogo com o governo indiano. “Ou seja, não existe o tom da supremacia, o tom do maior, o tom do grande. É a política dos iguais. Isso é que me dá muito prazer e muito otimismo.”
Segundo o presidente, essa dinâmica se manifesta tanto nas reuniões com autoridades quanto nos encontros com empresários. Ele citou conversas com o primeiro-ministro Narendra Modi e recordou visitas anteriores para indicar continuidade na estratégia de aproximação. Na sua leitura, a percepção mútua de desafios e objetivos comuns facilita a formulação de planos de ação e metas concretas.
Durante a coletiva, Lula também comentou a evolução do comércio bilateral. Ele afirmou que, em sua primeira visita à Índia, a corrente comercial entre os países era de cerca de US$ 2,4 bilhões e que atualmente alcança aproximadamente US$ 15,5 bilhões. Apesar do crescimento, avaliou que o volume ainda está abaixo do potencial das duas economias. “Chegou agora a 15 bilhões e meio, o que é muito pouco. O que é muito pouco para duas economias razoavelmente grandes. É muito pouco.”
Segundo o presidente, o primeiro-ministro indiano mencionou a meta de elevar o comércio para US$ 20 bilhões até 2030. Lula afirmou, porém, que apresentou um objetivo mais ambicioso. “Porque eu disse ao presidente Modi, nós vamos chegar a 30 bilhões em 2030. É um desafio que está colocado. Nós vamos chegar.”
O chefe do Executivo explicou que costuma tornar metas públicas para transformá-las em compromissos políticos verificáveis. Durante a entrevista, pediu aos jornalistas que registrassem o objetivo para acompanhar sua execução. “Eu queria falar aqui para a imprensa para vocês anotarem. Eu quero que vocês anotem para eu seguir.” Segundo ele, a cobrança pública ajuda a mobilizar governo, diplomacia e setor privado em torno das metas estabelecidas.
Outro ponto enfatizado foi o papel do setor empresarial na aproximação bilateral. Lula afirmou que a estratégia não se limita à atuação estatal e depende da criação de pontes entre empresários brasileiros e indianos. “Construir parceria entre os empresários indianos e os empresários brasileiros, convidá-los a fazer investimento no Brasil e se oferecer para fazer investimento na Índia.”
De acordo com o presidente, a cooperação econômica deve ocorrer de forma equilibrada, sem uma lógica em que um país apenas exporte e o outro apenas importe. A proposta apresentada durante a viagem aponta para projetos conjuntos e expansão de investimentos mútuos em áreas como indústria, agronegócio e serviços.
No plano político, Lula reiterou a defesa de um sistema internacional menos hierárquico. Ao criticar a lógica da supremacia e afirmar que, com a Índia, “ninguém é superior a ninguém”, o presidente sinalizou a intenção de fortalecer parcerias entre países do chamado Sul Global. Segundo ele, relações baseadas em respeito e interesses convergentes tendem a produzir resultados mais consistentes e duradouros.
A viagem à Índia integrou a agenda diplomática voltada à diversificação de parceiros econômicos e tecnológicos. Para o governo brasileiro, o país asiático é considerado estratégico na ampliação do comércio exterior e na atração de investimentos. Lula afirmou que o avanço dessa cooperação dependerá da capacidade de transformar compromissos em ações concretas ao longo dos próximos anos.