O novo pacote tarifário anunciado por Donald Trump acaba produzindo um efeito inesperado: o Brasil surge como o maior beneficiado da mudança. Segundo análise do Global Trade Alert (GTA), órgão independente de monitoramento do comércio, o Brasil terá a maior redução na tarifa média aplicada pelos Estados Unidos, com queda de 13,6 pontos percentuais. Apesar do discurso duro da Casa Branca em relação a diversos parceiros comerciais, o redesenho do regime tarifário termina, na prática, aliviando de forma significativa o peso das tarifas sobre produtos brasileiros.
Esse ganho relativo decorre da forma como Trump decidiu substituir o instrumento anterior. O presidente havia usado a International Emergency Economic Powers Act (IEEPA) para impor tarifas a parceiros comerciais. Na sexta-feira, porém, a Suprema Corte considerou grande parte dessa política comercial ilegal, derrubando as tarifas impostas com base na IEEPA. A resposta do governo foi imediata: Trump anunciou que substituiria as tarifas anuladas por uma tarifa global uniforme. Primeiro mencionou 10%, mas no sábado elevou o percentual para 15%.
É nessa transição que o Brasil ganha espaço. Como o país havia sido alvo de tarifas IEEPA sob ordens executivas específicas, a adoção de uma taxa plana global reduz significativamente sua tarifa média efetiva. O GTA aponta que a China aparece como o segundo maior beneficiado, com redução de 7,1 pontos percentuais. O economista Johannes Fritz, chefe-executivo do GTA e responsável pela análise, observou que países que haviam sido particularmente visados pelas tarifas anteriores são justamente os que mais veem suas taxas médias recuarem agora.
O novo regime deve entrar em vigor na terça-feira, mas há uma limitação importante: a tarifa de 15% terá validade de 150 dias e dependerá de nova autorização do Congresso para continuar. Isso introduz um componente de incerteza no horizonte comercial.
O representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que, sem a flexibilidade oferecida pela IEEPA, o governo pretende conduzir investigações que permitam impor tarifas se forem justificadas. Em entrevista à CBS, defendeu a elevação para 15% como resposta à “urgência da situação”. Também declarou que conversou com parceiros sobre acordos já firmados e que nenhum país indicou intenção de abandonar os entendimentos negociados.
O texto traz uma ironia evidente. A combinação entre a decisão da Suprema Corte e a criação da tarifa global de 15% acaba atingindo mais duramente aliados históricos dos Estados Unidos do que a China, frequentemente descrita por Washington como seu principal rival estratégico. Reino Unido, União Europeia e Japão aparecem entre os mais prejudicados pelo novo arranjo, enquanto a China vê sua tarifa média recuar.
O Reino Unido, que havia garantido uma tarifa de 10% para muitos bens, enfrentará agora aumento médio de 2,1 pontos percentuais. A União Europeia, que negociou taxa de 15% em acordo com Washington, terá elevação média de 0,8 ponto percentual, com Itália e França particularmente expostas quando se consideram categorias anteriormente isentas. Além disso, aliados são mais afetados porque suas exportações para os EUA concentram-se em aço, alumínio e automóveis — setores cobertos por outras tarifas que continuam em vigor após a decisão judicial.
Para o Brasil, o cenário combina oportunidade e prudência. O alívio tarifário médio é expressivo no curto prazo. Contudo, o artigo informa que os Estados Unidos já iniciaram investigações com base na Seção 301 do Ato de 1974 contra Brasil e China. Johannes Fritz ressalta que a administração sinalizou intenção de recorrer a esse instrumento para aplicar medidas adicionais específicas por país. Assim, o atual regime pode representar apenas um intervalo antes de nova rodada de disputas comerciais.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, declarou à CNN que os parceiros comerciais desejam manter os acordos negociados e que a tarifa global de 15%, combinada a outros encargos, preservará as projeções de receita do Tesouro para 2026.
No balanço geral, a reviravolta mostra como uma decisão judicial interna e uma resposta política imediata podem alterar o desenho do comércio internacional. Para o Brasil, os números são claros: maior redução média de tarifas entre os países analisados. Para o sistema global, permanece a incerteza. O instrumento muda, a base legal se transforma, mas a disputa comercial continua — agora sob novas regras e com um novo ciclo prestes a começar.

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