Depois da derrota que sofreu na Suprema Corte dos Estados Unidos, que proibiu o presidente Donald Trump de aplicar tarifas de emergência sem autorização prévia do Congresso, o chefe da Casa Branca partiu para uma sequência de anúncios apressados — quase desesperados — para manter de pé sua política tarifária.
A decisão do tribunal considerou que Trump extrapolou sua autoridade ao usar a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional para impor um conjunto amplo de tarifas. O voto majoritário, redigido pelo presidente da Corte, John Roberts, foi acompanhado inclusive por dois juízes indicados pelo próprio Trump, Neil Gorsuch e Amy Coney Barrett, além dos três magistrados do campo liberal.
A resposta do presidente foi imediata. Em menos de 24 horas, anunciou primeiro uma tarifa universal de 10% sobre todas as importações e, no dia seguinte, elevou o percentual para 15% — o teto permitido pela Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, dispositivo nunca antes acionado por um presidente.
Tarifa é imposto — e imposto regressivo
É curioso observar a obsessão de Trump por tarifas. Tarifa é imposto. E imposto regressivo: incide sobre bens de consumo e é repassado aos preços finais. Na prática, pesa proporcionalmente mais sobre trabalhadores de baixa renda do que sobre milionários.
Enquanto o governo insiste em cortar impostos sobre renda e patrimônio dos mais ricos, amplia a carga indireta sobre produtos importados — que encarecem alimentos, eletrônicos, roupas, insumos industriais. Um relatório do Federal Reserve de Nova York apontou que consumidores e empresas dos Estados Unidos arcaram com quase 90% do custo das tarifas em 2025.
Com as eleições de meio de mandato se aproximando, a política tarifária passou a ser apontada por democratas como um dos fatores que agravam o custo de vida. Pesquisa Reuters/Ipsos mostra queda consistente na aprovação de Trump na área econômica.
Manobra jurídica e incerteza
A Seção 122 permite tarifas de até 15% por 150 dias, exigindo aprovação do Congresso para prorrogação. Especialistas em comércio e assessores legislativos duvidam que o Congresso — ainda que de maioria republicana — sustente a medida diante da crescente impopularidade das tarifas.
O próprio Trump afirmou que usará esse período para buscar outros caminhos “legalmente permissíveis” para manter taxas elevadas, sinalizando que pode recorrer a dispositivos ligados à segurança nacional ou a investigações de práticas comerciais desleais.
A volatilidade é tamanha que, segundo relatos da imprensa americana, até integrantes da Casa Branca foram pegos de surpresa pelo salto de 10% para 15% em menos de um dia.
Reações internacionais
Líderes europeus reagiram com cautela. O presidente francês Emmanuel Macron afirmou que a decisão da Corte demonstra a importância dos contrapesos institucionais nas democracias. Já o chanceler alemão Friedrich Merz declarou que pretende reiterar em visita a Washington que “tarifas prejudicam a todos”.
A nova taxa uniforme de 15% altera o mapa relativo das tarifas. Países que já enfrentavam alíquotas superiores — como China, Vietnã, Índia e Brasil — podem ver redução temporária nominal. Outros, como Reino Unido e Austrália, passam a enfrentar percentuais mais altos do que antes.
Segundo o economista chinês Gao Lingyun, ouvido pela imprensa asiática, a adoção de uma tarifa uniforme reduz diferenças relativas entre países, mas não elimina o impacto negativo geral sobre comércio e cadeias globais de suprimento. A crítica central é à imprevisibilidade: mudanças abruptas corroem a confiança e dificultam planejamento empresarial.
A política como guerra comercial permanente
Trump tem usado tarifas como instrumento de pressão diplomática, exigindo que países honrem acordos comerciais mesmo após a decisão judicial. Exportações de países como Malásia e Camboja continuarão a pagar 19%, segundo seu representante comercial.
A insistência em manter a guerra comercial, mesmo após reprimenda da Suprema Corte, revela mais que uma política econômica: trata-se de uma estratégia política central. A retórica de que países estariam “explorando” os Estados Unidos sustenta a narrativa nacionalista que mobiliza sua base eleitoral.
Mas o custo econômico é concreto. Empresários enfrentam um mosaico regulatório cada vez mais confuso. Analistas descrevem o cenário como um “patchwork” de tarifas setoriais e universais, sujeito a novos contenciosos judiciais.
No fim das contas, a manobra para elevar a tarifa global a 15% soa como tentativa de contornar uma derrota institucional. Ao invés de rever a estratégia, Trump dobra a aposta.