Cientistas chineses criam tomate com cheiro de pipoca com edição genética e revoluciona mercado agrícola

XINHUA

Pesquisadores da China e da Austrália desenvolveram uma variedade experimental de tomate com aroma semelhante ao de pipoca com manteiga após modificações precisas no DNA do fruto por meio da tecnologia de edição genética CRISPR/Cas9. O resultado, descrito em estudo publicado em 24 de janeiro no periódico científico Journal of Integrative Agriculture, é apontado pelos cientistas como um avanço potencial para melhorar sabor, valor comercial e preferência do consumidor sem afetar a produtividade agrícola.

O experimento foi conduzido em uma estufa de pesquisa na província de Zhejiang, no leste da China, onde plantas geneticamente editadas passaram a exalar um odor característico normalmente associado a variedades aromáticas de arroz. O aroma é resultado do aumento do composto químico 2-acetil-1-pirrolina (2-AP), substância responsável pelo cheiro marcante de certos tipos de arroz premium e conhecida por remeter ao odor de pipoca fresca.

Segundo os autores do estudo, o objetivo não foi restaurar o sabor tradicional do tomate — frequentemente criticado por consumidores por ter perdido intensidade ao longo das décadas de melhoramento genético focado em produtividade e resistência —, mas criar um perfil sensorial completamente novo inspirado em culturas agrícolas de alto valor agregado.

O líder do trabalho, Xu Shengchun, vice-diretor do Instituto de Pesquisa em Biotecnologia do Laboratório Xianghu, afirmou no artigo que variedades aromáticas de arroz alcançam preços significativamente mais altos no mercado internacional, muitas vezes superiores ao dobro do valor do arroz comum. A equipe avaliou que a introdução de características aromáticas em outras culturas poderia gerar estratégia semelhante de valorização econômica.

O tomate está entre as hortaliças mais produzidas do mundo. Apenas a China colheu mais de 70 milhões de toneladas em 2023, respondendo por mais de um terço da produção global. Apesar da escala, especialistas apontam que o sabor de muitas variedades comerciais se tornou menos intenso ao longo do tempo devido à seleção genética voltada a rendimento, durabilidade e aparência.

Para criar a nova variedade aromática, os cientistas investigaram o genoma do tomate e identificaram dois genes relacionados ao controle do aroma — chamados SlBADH1 e SlBADH2 — equivalentes ao gene BADH2 encontrado em plantas de arroz aromático. No arroz, a inativação desse gene aumenta a concentração de 2-AP, intensificando o cheiro característico.

Utilizando a técnica CRISPR/Cas9, que permite alterações direcionadas em regiões específicas do DNA, os pesquisadores produziram linhagens de tomate com mutações simples e duplas nesses genes. Após análises laboratoriais para verificar possíveis efeitos colaterais genéticos, os frutos foram submetidos a testes sensoriais com voluntários.

Os resultados indicaram que tomates com apenas o gene SlBADH2 desativado já apresentavam aroma perceptível semelhante ao de pipoca tanto nos frutos quanto nas folhas. Nas plantas em que os dois genes foram silenciados simultaneamente, a concentração do composto aromático quadruplicou em comparação com os níveis observados nos exemplares de controle.

Para verificar se essa característica poderia ocorrer naturalmente, a equipe analisou 706 amostras de tomates de diferentes origens genéticas. Nenhuma delas apresentou mutações naturais que inativassem o gene SlBADH2, indicando que a fragrância obtida em laboratório não havia surgido espontaneamente na natureza.

Apesar da alteração genética, os pesquisadores relataram que não houve mudanças significativas em características agronômicas consideradas essenciais para cultivo comercial. Parâmetros como altura da planta, tempo de floração, peso do fruto, teor de açúcares solúveis e níveis de ácidos orgânicos permaneceram semelhantes aos de tomates convencionais. Segundo os autores, isso demonstra que o aroma foi aprimorado sem prejuízo de produtividade ou qualidade agrícola.

O projeto foi desenvolvido no Laboratório Xianghu, instituição de pesquisa agrícola inaugurada em 2022 com investimento inicial de cerca de 3 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 434 milhões). O centro integra iniciativas chinesas voltadas à inovação em biotecnologia e segurança alimentar.

Os cientistas afirmam que o próximo passo é transferir a característica aromática para cultivares comerciais de alto rendimento. A meta é avaliar a aceitação do produto no mercado e determinar se o diferencial sensorial pode ampliar a competitividade do tomate em cadeias de consumo global.

No estudo, Xu escreveu que a introdução controlada dessa fragrância pode aumentar a complexidade do sabor e potencialmente elevar a preferência dos consumidores, criando um produto com valor agregado semelhante ao observado no mercado de arroz aromático.

Especialistas em agricultura e biotecnologia observam que o desenvolvimento reforça o papel crescente da edição genética na criação de culturas com características específicas, como aroma, textura e valor nutricional, sem necessidade de cruzamentos tradicionais prolongados. Ao mesmo tempo, ressaltam que a adoção comercial dependerá de regulamentações nacionais, avaliações de segurança alimentar e aceitação pública.

Se aprovados para cultivo e venda, tomates aromáticos como os desenvolvidos no experimento podem representar uma nova categoria de hortaliças diferenciadas, voltadas a nichos gastronômicos e mercados premium, indicando uma possível mudança de paradigma na indústria agrícola global.

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