Faria Lima desmente Faria Lima

As expectativas do mercado financeiro para a economia brasileira, apuradas pelo Boletim Focus, do Banco Central, vêm evoluindo positivamente nas últimas semanas.

É a Faria Lima desmentindo a Faria Lima.

Numa pesquisa técnica, os operadores financeiros são obrigados a ser objetivos. Nas análises para consumo da mídia, suas preferências ideológicas falam mais alto.

Segundo o Focus, que sonda diariamente as instituições financeiras do país, os principais indicadores macroeconômicos registram revisões positivas.

A inflação deve encerrar 2026 em 3,91%, diz o boletim divulgado nesta segunda-feira — queda em relação aos 4,0% que se estimava no começo de fevereiro.

A previsão de crescimento do PIB subiu para 1,82%.

O cenário para o câmbio melhorou. A expectativa agora é de que o dólar encerre o ano em R$ 5,45, contra R$ 5,50 há quatro semanas.

A dívida líquida do setor público deve fechar o ano em 70,0% do PIB. O número indica estabilidade em relação às projeções anteriores.

A previsão do Focus para a dívida líquida nos próximos anos ainda é de crescimento moderado até 2029, mas esses números também vêm sendo revisados para baixo, ainda que discretamente, nas últimas semanas.

De acordo com o Focus, a dívida líquida em 2029 chegou a ser calculada em 79,32% do PIB há quatro semanas; agora, a estimativa recuou para 78,87%.

Para 2031, o Focus indicava, no início de fevereiro, que a dívida líquida atingiria 83,19% do PIB, mas na edição desta segunda-feira (23) o número recuou para 81,62%.

O resultado primário também segue uma trajetória favorável. A expectativa de hoje é que feche 2026 com déficit de somente 0,50% do PIB, contra 0,53% no início do mês.

O resultado nominal — que, quando negativo, é chamado de déficit nominal — está projetado em 8,58% do PIB para 2026. Mesmo sendo o dado mais preocupante, ele não sinaliza qualquer cenário de colapso fiscal, até porque as previsões do Ministério da Fazenda, do Focus e do FMI são de estabilidade ou queda ao longo dos próximos anos.

Vale lembrar que o resultado nominal raramente é positivo na maioria dos países do mundo (veja gráfico ao final do post).

Ainda pelo Focus, a trajetória do déficit nominal é de queda gradual. A estimativa é de chegar a 8,0% do PIB em 2027, caindo para 7,56% em 2028 e 7,29% em 2029.

Lembrando que, neste item, o FMI é mais otimista, prevendo um déficit nominal no Brasil inferior a 5% do PIB em 2030 (gráfico ao final do post).

Entre 2031 e 2035, o Focus aponta que o resultado nominal deve recuar para cerca de 6% do PIB. Trata-se de uma tendência de acomodação no médio prazo.

Ou seja, mesmo as fontes ultraliberais da Faria Lima, tradicionalmente hostis ao governo Lula e sempre pessimistas em relação à questão fiscal, vêm sinalizando melhora gradual dos indicadores macroeconômicos do país.

Os números do mercado, portanto, acabam contrariando o discurso mais alarmista que parte dele mesmo ajuda a difundir.

O Ministério da Fazenda divulgou, recentemente, um relatório com cenários macroeconômicos que apontam estabilização da dívida bruta, a partir de 2027, para 84% do PIB, caindo gradualmente até chegar a 81% em 2035.

Já o Boletim Focus projeta hoje a dívida bruta do governo geral do Brasil, para 2030, em 93,50% do PIB, o que também já é um número inferior ao que se esperava anteriormente.

No cenário internacional, praticamente todas as grandes economias registraram deterioração fiscal após a pandemia. O Fundo Monetário Internacional prevê continuidade dessa tendência global até 2030.

Embora utilize metodologia distinta e seja mais conservador em relação ao Brasil, o FMI calcula que a dívida bruta brasileira possa atingir 99% do PIB em 2030. Ainda assim, o ritmo de crescimento é inferior ao de diversas economias desenvolvidas e deve ficar abaixo da média global.

É fundamental lembrar que todos esses indicadores são medidos como proporção do PIB. Se a economia cresce acima do esperado, a relação dívida/PIB melhora.

Como as expectativas de crescimento estão sendo revisadas para cima, o próprio cenário fiscal passa a desenhar trajetória mais favorável. Crescimento econômico é variável central na dinâmica da dívida pública.

Do ponto de vista político, a melhor notícia que o Focus trouxe para o governo é a expectativa de inflação baixa.

A desaceleração recente tem sido influenciada pela queda no preço dos alimentos. Esse componente tem impacto ainda mais direto sobre o custo de vida da população de baixa renda, que forma o grosso do eleitorado.

Caso a previsão do Focus para a inflação de 2026 se confirme, o presidente Lula terá oferecido a seus eleitores uma inflação de 8,17% no acumulado do biênio 2025-2026. A inflação acumulada no biênio final do governo Bolsonaro (2021-2022) ficou em 15,85%.

Mas nenhum indicador macroeconômico existe isolado do cotidiano. Resta enfrentar um dos principais vetores estruturais de custo: a energia elétrica residencial, cujos preços constituem um fator de instabilidade e preocupação nos lares brasileiros.

Uma política consistente de incentivo à energia solar poderia contribuir para reduzir preços no médio prazo.

Isso incluiria financiamento para instalação de painéis em residências e estímulo a cooperativas de geração em áreas populares. Também seria possível criar pequenas centrais urbanas para abastecimento coletivo de prédios.

Se o país combinar crescimento econômico, inflação controlada e transição energética inteligente, o debate fiscal pode perder o tom dramático — e muitas vezes cínico — que tem hoje.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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