Gana leva à ONU o caso da escravidão transatlântica

DW

União Africana quer que a ONU reconheça o tráfico transatlântico de escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. Proposta é vista com reservas por países que se beneficiaram da prática.

Historiadores concordam: o tráfico de africanos escravizados entre os séculos 15 e 19 – quando milhões foram levados à força para as Américas – foi um dos pontos mais baixos da história da humanidade.

Estima-se que mais de 15 milhões de pessoas tenham sido deportadas ao longo de 400 anos. Outras fontes falam em 12 a 12,8 milhões. Cerca de 10,7 milhões chegaram vivas às Américas. Entre 1,5 e 2 milhões morreram durante a travessia do Atlântico.

Quase dois séculos depois, 40 países da União Africana (UA) pedem à Organização das Nações Unidas (ONU) que reconheça a escravidão transatlântica como o maior crime contra a humanidade.

Há uma base jurídica sólida para isso, afirma o presidente de Gana, John Dramani Mahama, que fala ainda em “obrigação moral inquestionável” ao lembrar os que resistiram à escravização e os que, doentes e enfraquecidos, foram jogados ao mar. O país dele encabeça a proposta e irá apresentá-la à ONU em março.

“O comércio de africanos escravizados e formas racializadas de escravidão são crimes que moldaram o mundo moderno”, declarou Mahama em meados de fevereiro, durante a conferência anual da UA em Adis Abeba, na Etiópia.

“As consequências [desses crimes] continuam a se manifestar em desigualdades estruturais, discriminação racial e disparidades econômicas”, disse. “Reconhecer essas injustiças não é sinônimo de divisão, e sim de coragem moral. Esta iniciativa nos oferece uma oportunidade histórica de afirmar a verdade de nossa história.”

O presidente de Gana, John Dramani Mahama, fala à Assembleia Geral da ONU em setembro passado | Jeenah Moon/Reuters

Essa visão é compartilhada por intelectuais africanos como Kojo Asante, especialista em direitos humanos do Centro de Gana para o Desenvolvimento Democrático.

Asante considera a proposta da UA válida do ponto de vista histórico e jurídico. Ele lembra que Estados africanos há muito buscam o reconhecimento e, ao menos, um pedido de desculpas dos responsáveis históricos.

Em Gana, o tema está há anos na agenda – Mahama não é o primeiro a apoiar pedidos de reparação; seu predecessor Nana Akufo-Addo também o fez. A proposta também é apoiada pelo eleitorado jovem de Gana, especialmente entre os mais politizados, segundo Asante.

O próximo passo: reparações?

Em 2025, a União Africana proclamou o “Ano da Justiça para Africanos por meio de Reparações”. A resolução da entidade africana define reparações como instrumentos orientados para o futuro, vinculados ao desenvolvimento.

Mahama enfatizou que não se trata inicialmente de valores financeiros, e sim do reconhecimento da verdade histórica. Questões monetárias viriam depois.

A ideia não foi recebida com muito entusiasmo por grandes potências globais, sobretudo países que se beneficiaram economicamente da escravidão e do colonialismo.

Nos Estados Unidos, Asante aponta que membros do governo de Donald Trump alegam não ser justo responsabilizá-los por crimes de seus antepassados. “O comércio transatlântico de escravizados é uma questão muito sensível, delicada e polêmica, principalmente para aqueles países que se beneficiaram maciçamente do tráfico e de outras atividades coloniais”, afirma Asante.

Um “ranking” de crimes?

Ao discursar na cúpula da UA, Mahama disse que não houve na história recente crime maior contra a humanidade do que o tráfico transatlântico de escravizados. Críticos questionam se isso não significa relativizar outros crimes, como o Holocausto.

Asante rejeita essa comparação: não se trata de criar um “ranking” de tragédias, mas de reconhecer o que o tráfico negreiro foi de fato: uma prática profundamente desumana, com consequências globais.

O racismo persistente mostra o quanto esse capítulo da história permanece atual, afirma o especialista em direitos humanos. Por isso, ele defende que o que importa é que haja reconhecimento – e que o mundo aprenda, para não permitir que tais crimes se repitam.

Mas para os jovens ganeenses, Asante alerta que é importante não focar só o passado, e sim oferecer-lhes também uma boa política no presente, já que, segundo ele, muitos problemas atuais dos países africanos não podem ser atribuídos exclusivamente às potências coloniais.

A responsabilidade africana

Mahama também afirmou que a verdade sobre a história do comércio transatlântico precisa ser “contada por completo”. Para críticos, isso implica reconhecer o papel desempenhado por elites, comerciantes e reinos africanos no tráfico, e suas alianças com europeus.

Como aponta Asante, formas de escravidão já existiam em sociedades africanas antes do comércio transatlântico, assim como ocorreu em outras partes do mundo e em outros momentos históricos. No entanto, Asante ressalta que o tráfico transatlântico teve impactos econômicos, políticos e sociais desproporcionalmente grandes ao longo da costa atlântica da África, com consequências que afetam a ordem mundial até hoje.

Publicado originalmente pelo DW em 23/02/2026

Por António Cascais

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