O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu nesta segunda-feira (23) o fim da escala de trabalho 6×1 no Brasil e afirmou que o país precisa priorizar a qualidade de vida dos trabalhadores diante das transformações tecnológicas e das novas dinâmicas do mercado. A declaração foi feita em Seul, durante o encerramento do Fórum Empresarial Brasil-Coreia do Sul, que reuniu autoridades e representantes do setor produtivo dos dois países.
Em discurso, Lula afirmou que o debate sobre a jornada semanal está alinhado às mudanças estruturais no mundo do trabalho e ao aumento da produtividade proporcionado pela tecnologia. “Estamos discutindo, no Brasil, o fim da chamada jornada seis por um, para assegurar que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal. A tecnologia nos permitiu atingir níveis inimagináveis de produtividade. É hora de pensar no bem-estar das pessoas”, disse.
Ao contextualizar o tema, o presidente citou o filósofo sul-coreano Byung Chul Han e a ideia de “sociedade do cansaço”, associada à pressão por desempenho e aos impactos do trabalho sobre a vida pessoal. Segundo Lula, o diálogo entre governos, trabalhadores e empresários é essencial para construir uma economia forte e inclusiva.
Durante a fala, o presidente também destacou a trajetória econômica da Coreia do Sul como referência de desenvolvimento. Ele lembrou que, nos anos 1960, o PIB per capita sul-coreano era inferior à metade do brasileiro e que hoje é três vezes maior. Lula afirmou que, enquanto o Brasil adotou políticas de orientação neoliberal nos anos 1990, a Coreia manteve investimentos estratégicos com forte participação estatal. “Nenhum país que chegou atrasado à corrida industrial conseguiu subir a escada do desenvolvimento sem políticas públicas robustas”, declarou.
O presidente ressaltou que o Brasil registrou em 2025 a maior safra de grãos de sua história, com 350 milhões de toneladas, consolidando-se como um dos principais fornecedores globais de alimentos. Apesar disso, defendeu a diversificação da economia para enfrentar instabilidades internacionais e o avanço do protecionismo.
Segundo Lula, a Coreia do Sul é parceira estratégica nesse processo. O Brasil é atualmente o principal destino de investimentos sul-coreanos na América Latina, com presença de empresas como Samsung, Hyundai e LG. O estoque de investimentos coreanos no país soma cerca de US$ 9 bilhões, tornando o país asiático o quarto maior investidor da região.
O presidente citou programas federais lançados nos últimos anos, como o PAC, a Nova Indústria Brasil (NIB), o Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) e o Plano de Transformação Ecológica, apontando que essas iniciativas oferecem oportunidades a investidores estrangeiros. Também mencionou indicadores econômicos, como a menor taxa de desemprego da série histórica, a alta participação de fontes renováveis na matriz energética e a redução de 50% no desmatamento da Amazônia em 2025 em relação a 2022.
Na área tecnológica, Lula destacou possibilidades de cooperação bilateral. A Coreia é o segundo maior produtor mundial de semicondutores e tem posição relevante no mercado de baterias, enquanto o Brasil dispõe de minerais críticos usados na indústria eletrônica e em veículos elétricos. “O papel de meros exportadores de matérias-primas não condiz com nosso potencial. Buscamos parcerias que nos permitam agregar valor e produzir tecnologia de ponta em solo brasileiro”, afirmou.
O presidente também mencionou projetos no setor aeroespacial, como a atuação da start-up coreana Innospace no Centro de Lançamento de Alcântara, e defendeu maior integração entre as agências espaciais dos dois países, incluindo compartilhamento de dados de satélites e cooperação em pesquisas.
Na área de saúde, citou o avanço do laboratório de biossegurança Órion e a cooperação entre instituições brasileiras e coreanas para ampliar a produção conjunta de vacinas e medicamentos. Já no setor de cosméticos, destacou que as exportações brasileiras superaram US$ 1 bilhão em 2025 e afirmou que a combinação entre biodiversidade nacional e tecnologia coreana pode ampliar a presença internacional das duas indústrias.
Lula também ressaltou a relevância da economia criativa, que representa mais de 3% do PIB brasileiro, citando o alcance global do funk, do audiovisual e de produções culturais, além do impacto internacional do K-pop e do cinema sul-coreano.
A corrente de comércio bilateral gira em torno de US$ 11 bilhões, abaixo do recorde de quase US$ 15 bilhões registrado em 2011. O presidente avaliou que o volume ainda é inferior ao potencial das duas economias e celebrou a assinatura de um acordo de cooperação comercial e integração produtiva em áreas como tecnologia, agricultura e audiovisual.
Segundo ele, a Apex identificou 280 oportunidades para produtos brasileiros no mercado sul-coreano, incluindo alimentos, bebidas e produtos químicos. Lula mencionou ainda o interesse brasileiro em exportar carne bovina para o país asiático e afirmou que o governo está disposto a cumprir exigências sanitárias para viabilizar o acesso.
Ao final do discurso, o presidente defendeu a retomada das negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a Coreia do Sul e disse que o diálogo e a cooperação são a melhor resposta a tentativas de transformar o comércio internacional em instrumento de pressão.