Comunidades do entorno do Porto do Açu, no Norte Fluminense, enfrentam falta crônica de água, salinização de poços e impactos à saúde, enquanto o megaempreendimento industrial retira volumes expressivos do aquífero Emboré, reserva estratégica de água doce da região. Apenas em 2024, o porto extraiu 708 mil metros cúbicos de água subterrânea. Nos últimos três anos, o volume ultrapassa 2 milhões de m³.
Desde 2022, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) autorizou a captação de águas profundas para abastecer o porto e as empresas instaladas no empreendimento. Atualmente, cerca de 20 poços profundos operam na área do complexo. Paralelamente, comunidades de São João da Barra relatam longos períodos sem abastecimento regular, com casos de mais de dois meses sem água suficiente para encher caixas domiciliares.
Em diversos bairros, a baixa pressão da rede obriga famílias a recorrerem a baldes, bombas elétricas ou ao armazenamento de água da chuva para atividades básicas de higiene e limpeza. Quando há fornecimento, a água frequentemente apresenta coloração amarelada e aspecto enferrujado, sendo considerada imprópria para consumo, preparo de alimentos e até lavagem de roupas. A compra regular de galões de água mineral tornou-se rotina para muitas famílias.
Estudos realizados pelo Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) apontam que a salinidade das águas superficiais e subterrâneas da região atingiu níveis de cinco a sete vezes superiores aos do rio Paraíba do Sul. Em comunidades como Água Preta, foram registrados índices de salinidade comparáveis aos da água do mar, inviabilizando a agricultura, a criação de animais e ampliando riscos à saúde da população.
Especialistas alertam que a sobreexploração do aquífero Emboré, associada à supressão de áreas úmidas, à dragagem marítima e às mudanças climáticas, compromete a recarga natural da reserva subterrânea e pode levar ao agravamento permanente da escassez hídrica regional.
O caso evidencia um conflito socioambiental estrutural: enquanto a água do aquífero sustenta a expansão industrial do Porto do Açu, comunidades do entorno arcam com os impactos ambientais, sociais e sanitários, colocando em risco a permanência de populações tradicionais, a segurança alimentar e o direito humano à água.


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