“Eu saio da Venezuela convencido de que não houve golpe interno no chavismo, não houve traição política ao presidente Nicolás Maduro, convencido de que Delcy Rodríguez, Diosdado Cabello, Jorge Rodríguez, que são hoje os principais dirigentes na Venezuela, especialmente Delcy Rodríguez, não cometeram qualquer tipo de ato desleal com o presidente Nicolás Maduro.”
A declaração abre o relato de Breno Altman no programa exibido no domingo 22 de fevereiro de 2026, quando ele busca responder ao que descreve como uma onda de informações falsas e opiniões diversas após o sequestro de Maduro.
🇻🇪”Eu saio da Venezuela convencido de que não houve golpe interno no chavismo, não houve traição política ao presidente Nicolás Maduro, convencido de que Delcy Rodríguez, Diosdado Cabello, Jorge Rodríguez, que são hoje os principais dirigentes na Venezuela, especialmente Delcy… pic.twitter.com/Y8abQYxNya
— O Cafezinho 🇧🇷 (@ocafezinho) February 24, 2026
Altman afirma ter passado toda a semana em Caracas para reconstruir, por apuração, a sequência dos fatos do dia 3 de janeiro. Ele descreve um trabalho de campo apoiado em aproximadamente 20 conversas com integrantes do governo, opositores, especialistas e pessoas na rua, incluindo um encontro de cerca de duas horas com a presidente encarregada.
Ao justificar o método, o jornalista rejeita versões baseadas em impressões e boatos. “É um problema de método”, diz, antes de sustentar que a análise só é séria se feita com base nos fatos. Nessa chave, ele reconhece posição política, mas tenta separar alinhamento e rigor: “Eu não sou imparcial, eu tenho lado. O meu lado é o lado da solidariedade à Revolução Bolivariana e à Venezuela.”
A defesa de Delcy Rodríguez aparece, na entrevista, como ponto de partida para reorganizar o debate sobre os acontecimentos. Altman afirma que Nicolás Maduro, através da família, mantém contato permanente com o que ocorre na Venezuela e que sua mensagem sempre é de apoio à presidente encarregada. Ele também diz ter recebido da própria Delcy elementos concretos para sustentar sua versão: “não apenas me explicou o que aconteceu no dia 3 de janeiro, como me provou o que aconteceu no dia 3 de janeiro”.
Para Altman, o sequestro de Maduro precisa ser entendido dentro de um cenário que ele define como extremamente delicado antes mesmo do ataque. A Venezuela estava sob severo bloqueio naval e sanções econômicas dramáticas, e já teria sofrido ações e escaladas anteriores. Nesse contexto, ele afirma ter ouvido do próprio Maduro, ainda em novembro, que um ataque norte-americano seria inevitável.
A resposta venezuelana, conforme Altman, não teria sido preparar uma guerra aberta, e sim tentar evitá-la por negociação. “A linha da Venezuela não era de enfrentamento militar. A linha da Venezuela era evitar o enfrentamento militar”, afirma, ao descrever ofertas de conversa sobre combate ao narcotráfico, a questão petroleira e as terras raras. Ele insiste que isso não equivaleria a capitulação, mas a cálculo diante do desequilíbrio de forças.
Questionado sobre entreguismo, Altman é direto: “Não, de forma alguma. Veja, há uma situação assimétrica de forças.” Ele descreve que o custo de uma guerra de ocupação seria devastador e projeta números e cenários de mortandade ao discutir o que chama de guerra de todo o povo. Ainda assim, sustenta que Washington não buscaria ocupação, mas um ataque cirúrgico, com superioridade aérea, naval e cibernética.
É nessa moldura que ele reconstrói a madrugada do dia 3 de janeiro como uma operação destinada a capturar o presidente. “No dia 3 de janeiro, às duas da manhã, horário local, os Estados Unidos começam o ataque”, diz, antes de detalhar que a primeira fase teria sido cibernética. O objetivo inicial seria cegar os radares e, com isso, comprometer baterias antiaéreas e comunicações digitais.
Altman descreve o impacto como um colapso operacional. Haveria um apagão elétrico, e a ofensiva teria rompido a cadeia de comunicação, dificultando extremamente a capacidade de defesa da Venezuela. Em seguida, ele menciona a presença de 150 aeronaves, entre helicópteros e aviões, incluindo F-35, e diz que não foi apenas Caracas que foi atacada.
No relato, a operação teria atingido La Carlota, além de outros pontos citados como alvos de baterias antiaéreas, e culminado no ataque ao Forte Tiuna, porque o objetivo era o sequestro do presidente. Altman contesta versões que minimizariam a resistência e afirma que a luta travada no Forte Tiuna foi brutal. Ele atribui ao confronto a morte de 32 cubanos e aproximadamente 27 venezuelanos — 59 baixas apenas naquele ponto da operação, a que se somariam outras mortes registradas ao longo do ataque.
A negociação, na versão apresentada, começa logo após a primeira onda de ataques, que ele situa por volta das três da manhã. Altman afirma que Washington teria exigido resposta de Delcy Rodríguez em 15 minutos, sob ameaça de novo bombardeio, e narra a sequência de mensagens recebidas: primeiro, que o presidente estava morto; depois, a correção de que estava vivo, em mãos norte-americanas e já fora da Venezuela. A reação da dirigente, segundo ele, foi imediata: “Queremos prova de vida.”
Altman argumenta que, naquele momento, os Estados Unidos entrariam numa mesa com três vantagens: o sequestro do presidente, a demonstração de superioridade militar e o bloqueio naval absoluto. A partir daí, ele apresenta o dilema como escolha entre opção militar e opção política — a primeira equivaleria, em suas palavras, a transformar a Venezuela numa faixa de Gaza. A segunda seria negociar para ganhar tempo, esperando uma nova correlação de forças e usando o petróleo como instrumento de sobrevivência.
A defesa de Delcy Rodríguez se estende ao gesto mais simbólico e polêmico do pós-ataque, que é a presença de autoridades norte-americanas em Caracas. Altman chama de provocação e tentativa de humilhar o governo chavista a visita do diretor da CIA, mas diz que a recusa significaria o fim do único caminho disponível. “O que significaria não receber o diretor da CIA? Significaria que a negociação não ia ocorrer”, afirma. Ele reforça a dimensão pessoal do constrangimento: a CIA havia matado o pai de Delcy e Jorge Rodríguez em 1976.
O capítulo econômico da entrevista se concentra na mudança da legislação de hidrocarbonetos, tema que Altman diz ter estudado a fundo antes e durante a viagem. Ele atribui parte da desinformação sobre o assunto a uma estratégia de Washington para desmoralizar o governo e criar condições para que emerja na Venezuela um bloco conservador capaz de substituir o chavismo.
Ao explicar o marco anterior, ele lembra que Chávez aprovou em 2001 a lei dos hidrocarbonetos e rejeita a ideia de estatização completa: não era uma lei de estatização total do petróleo, afirma, descrevendo um modelo de monopólio operacional e comercial da PDVSA combinado a mudanças tributárias relevantes. O imposto sobre vendas, que era de 1%, passou a 30%, e o imposto sobre lucro podia chegar a 50%.
A virada, na narrativa, ocorre com o impacto acumulado das sanções e do bloqueio sobre a capacidade de investimento e manutenção da indústria. No ápice do governo Chávez, a Venezuela extraía 3,2 milhões de barris por dia; sob sanções, chegou a 300 mil. “Que soberania é essa? Com 300 mil barris por dia, acabou a soberania”, resume.
O caminho de retomada descrito por ele passa pela Lei Antibloqueio e por um novo tipo de contrato, o CPP, Contrato de Participação Petroleira, que permite a entrada de capital externo para investir e operar, pagando impostos e dividendos, com liberdade de comercialização. Altman relaciona esse mecanismo à recuperação da produção: antes do dia 3 de janeiro, o país havia chegado a 1,2 milhão de barris por dia, com a Chevron respondendo por cerca de 160 a 180 mil barris.
Para sustentar que a presença de uma petroleira norte-americana não significa, por si só, capitulação política, Altman recorre a um paralelo histórico. Altman lembra que Lenin chamou uma empresa norte-americana da família Hammer, que mais tarde passaria a se chamar Occidental Petroleum. No exemplo citado por ele, a empresa recebeu licença para explorar e vender o petróleo russo, pagando ao governo uma participação que chegou a mais de 40% da extração não soviética. “Isso não é uma traição revolucionária. São necessidades que os processos revolucionários têm”, afirma.
Na avaliação do jornalista, a nova lei aprovada pela Assembleia Nacional institucionaliza o CPP e altera regras sem equivaler a privatização. Ele sustenta que o patrimônio petrolífero do país não está sendo entregue a empresas privadas, e cita entre as mudanças a perda da obrigatoriedade de maioria acionária da PDVSA e a flexibilização tributária, com piso reduzido de 30% para 15%.
Altman também descreve a liberdade de venda como peça central, porque desloca parte das transações para fora do alcance direto do bloqueio. As vendas da PDVSA estavam bloqueadas, as da Chevron não — e essa assimetria teria moldado a estratégia de sobrevivência do setor. Ao mesmo tempo, ele insiste que a principal trava não está na lei, mas na coerção militar: os Estados Unidos impedem militarmente que a Venezuela venda petróleo a quem quiser, tornando o país refém de um monopsônio forçado.
Na entrevista, Delcy Rodríguez é apresentada como eixo político de duas frentes simultâneas: estabilização interna e pressão externa. Altman diz que a tarefa principal declarada pelas lideranças é estabilizar a vida política e econômica do país, recompondo capacidade de governo e base social, num contexto em que os salários perderam poder aquisitivo durante o período de sanções.
A construção de uma coalizão mais ampla aparece como parte desse desenho, com a lei de anistia como instrumento. Altman argumenta que, desde 2017, a disputa central teria migrado: a luta principal deixou de ser de classes e passou a ser entre nação e imperialismo. Depois do dia 3 de janeiro, o governo busca ampliar a coalizão de forças em defesa do país, porque, na avaliação do jornalista, a lógica dos Estados Unidos é transformar a Venezuela em um protetorado.
No plano das ruas, Altman descreve uma rotina de mobilização permanente em torno do retorno do presidente sequestrado. Desde o dia 3 de janeiro, há manifestações diárias pela libertação de Maduro, distribuídas por setores para evitar repetição. No carnaval, houve a Marcha de los Claveles, descrita por ele como parte dessa mobilização contínua pela libertação de Nicolás Maduro e Cília Flores.
Ao projetar os próximos passos, Altman associa a saída do impasse a negociações e pressão internacional, e já antevê que o tema eleitoral entrará na mesa. Em termos constitucionais, o novo pleito só ocorreria em 2030, mas ele aposta que uma eleição terá de ser negociada — com a condição de que as sanções sejam encerradas antes, para garantir paridade de condições.
No fechamento do seu diagnóstico, o jornalista insiste que o conflito não é uma crise abstrata de democracia, mas uma imposição de força. “O problema da Venezuela não tem a ver com democracia, o problema da Venezuela tem a ver com imperialismo”, afirma, ao lembrar que o presidente da República foi sequestrado e que mais de 100 pessoas foram mortas ao longo da operação. A entrevista, conduzida como relato de apuração e tomada de posição, apresenta Delcy Rodríguez como figura-chave de uma estratégia descrita em termos duros: negociar sob ameaça, sustentar mobilização cotidiana e tentar reconstruir margem de manobra enquanto o país segue sob pressão.
Abaixo o vídeo completo com o depoimento de Breno Altman.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!