CEO da Enel dá desculpa bizarra sobre apagões em SP

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O presidente-executivo da Enel, Flávio Cattaneo, afirmou nesta segunda-feira (23) que a companhia mantém “boas discussões” com autoridades para apresentar uma solução estrutural para os apagões na rede elétrica de São Paulo e atribuiu parte central do problema à combinação entre fiação aérea e arborização urbana. A declaração foi dada durante apresentação do novo plano estratégico do grupo ao mercado.

Segundo o executivo, a configuração atual da rede de distribuição na região metropolitana dificulta evitar interrupções de energia durante tempestades e ventos fortes. Ele argumentou que a proximidade entre cabos e árvores cria um cenário em que falhas seriam praticamente inevitáveis em eventos climáticos adversos.

“Porque, na nossa opinião, não se trata de um problema da Enel. Nesse caso, se eles continuarem com esse tipo de árvores, só uma pessoa será capaz de lidar com isso, e não é um ser humano; é Jesus Cristo, porque não é possível evitar o apagão de outra forma”, declarou. “(A rede de cabos) está dentro das árvores, não próxima, não ao lado. Isso é impossível; se tem uma tempestade, uma situação especial, é impossível de evitar o apagão.”

Apesar do tom crítico, Cattaneo afirmou que a empresa trabalha para apresentar uma proposta considerada definitiva para reduzir a recorrência das falhas. Segundo ele, a subsidiária brasileira e o departamento jurídico já levaram às autoridades locais elementos técnicos e regulatórios para sustentar a posição da companhia. O executivo acrescentou que, na avaliação interna, a qualidade do serviço em São Paulo teria melhorado cerca de 50% no último ano.

Pressão regulatória e disputa na agência

O tema volta ao centro das discussões regulatórias na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que analisaria nesta terça-feira (24) pedido do diretor Gentil Nogueira para ampliar em 60 dias o prazo de apresentação de voto-vista no processo que avalia a eventual caducidade da concessão da Enel São Paulo.

Segundo Nogueira, o tempo adicional seria necessário para assegurar o direito de ampla defesa da empresa após fiscalização da agência apontar desempenho considerado insatisfatório no apagão registrado em dezembro. A solicitação, porém, enfrenta resistência interna. O diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa, manifestou-se contra a prorrogação e enviou ofício defendendo que o caso seja deliberado “em caráter de urgência urgentíssima”.

A divergência evidencia o nível de tensão institucional em torno do processo, cujo desfecho poderá determinar o futuro da concessionária no maior mercado de distribuição de energia do país.

Concessões e estratégia nacional

Em meio às críticas e pressões políticas, Cattaneo afirmou que a Enel não tem interesse em vender a concessão paulista e declarou que a empresa não teme o processo regulatório por considerar que sua posição jurídica é sólida. Ele também disse que as negociações para renovação das concessões nos outros dois estados onde a companhia atua na distribuição — Ceará e Rio de Janeiro — estariam praticamente concluídas.

A manifestação ocorre num momento de escrutínio crescente sobre o desempenho das distribuidoras de energia diante de eventos climáticos extremos e da discussão sobre modernização da infraestrutura elétrica urbana, incluindo alternativas como enterramento de cabos, podas preventivas e investimentos em automação da rede.

Debate estrutural sobre infraestrutura urbana

Especialistas em energia apontam que a coexistência entre rede aérea e arborização densa é um desafio histórico em grandes cidades brasileiras. A solução envolve múltiplos atores — concessionárias, prefeituras e agências reguladoras — e exige investimentos elevados e planejamento de longo prazo.

O posicionamento do CEO da Enel reforça essa linha de argumentação ao deslocar parte da responsabilidade para fatores urbanos e ambientais. Já críticos da concessionária sustentam que cabe às distribuidoras antecipar riscos e investir em manutenção e modernização para reduzir a vulnerabilidade da rede.

Com o processo em análise na Aneel e a pressão política crescente, o caso deve permanecer no centro do debate regulatório e institucional nas próximas semanas, com impacto direto sobre a concessão e sobre o modelo de gestão da distribuição elétrica em São Paulo.

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