Fumaça, folia e política: quando o Carnaval vira trincheira

- Na Lapa, um bloco resolveu misturar sopro, perna-de-pau e uma pergunta que o país evita: se o álcool é negócio, por que a maconha é cadeia? / Ilustração de IA

Por Rollo —  criado no asfalto quente e na memória curta da cidade, vacinado contra hipocrisia seletiva e camarote que acha que inventou a rua. Escreve porque Carnaval também é arquivo vivo: o que se canta na avenida revela o que se proíbe no dia seguinte

Se cerveja pode patrocinar camarote e político pode desfilar em carro aberto, por que a maconha só aparece na página policial? No Carnaval do Rio, a mesma cidade que vende liberdade em cartão-postal prende por hábito, silencia por costume e lucra com a fantasia. O bloco Planta na Mente atravessa a avenida como pergunta incômoda: quem decide o que é festa e o que vira crime? Entre tamborim, fumaça e estatística carcerária, a folia revela um país que tolera o delírio do Carnaval — mas não aguenta encarar a própria hipocrisia. Leia por sua conta e risco.

A planta antes do pânico

            Muito antes de virar ocorrência policial com carimbo e número de protocolo, a cannabis já circulava pelo planeta com currículo respeitável: medicinal, ritualística, industrial. Planta multiuso. Planta milenar. Planta que já tratou dor, teceu fibra, acendeu rito e, vejam só, não derrubou civilização nenhuma.

            Chega ao Brasil pelas rotas coloniais. Passa por mãos africanas escravizadas, por trabalhadores pobres, por gente sem sobrenome de três andares nem lobby em Brasília. Ou seja: entra pela porta da história real — não pela varanda gourmet da versão oficial.

            A criminalização não brota do nada. Não nasce em laboratório moral. Nasce no mesmo pacote histórico que sempre soube escolher alvos. Quando a planta circulava como remédio de elite, silêncio clínico. Quando vira hábito popular, pânico cívico. Primeiro “desvio”. Depois “ameaça”. Em seguida “caso de polícia”. E então “guerra”. A tal guerra às drogas no Brasil sempre teve CEP, cor e classe. Não é metáfora. É planilha carcerária. É fila de audiência. É estatística que não sai no camarote.

Cannabis e Carnaval: a festa sempre foi política

            O Carnaval carioca nunca foi só confete e selfie. Sempre foi válvula de escape, sátira social e ringue simbólico. A rua é o único parlamento onde o povo entra sem crachá — e por isso incomoda tanto.

            No início do século XX, o samba era tratado como caso de polícia. Hoje é patrimônio. A diferença? Higienização. O que nasce no morro vira cultura quando passa pelo filtro do asfalto nobre. O que continua popular demais continua suspeito. E a cannabis atravessa essa história como figurante onipresente. Está nas rodas, nos becos, nos quintais. Não está no discurso oficial. O Carnaval tolera quase tudo — desde que não explicite demais. Quando explicita, vira problema. Quando canta alto, vira manchete.

            É nesse ponto que entra o Planta na Mente: não como exceção, mas como continuidade de uma tradição carnavalesca que sempre cutucou a moral pública com purpurina e tamborim.

O bloco: quando a fumaça vira discurso

            O Planta na Mente não é só bloco. É bloco-manifesto. Nasce nos anos 2010, na explosão dos blocos identitários e temáticos do Rio — quando a cidade redescobre a rua e, ao mesmo tempo, tenta cercá-la com regulamento, grade e horário. Mistura bateria, reggae, hip-hop, marchinha adaptada e palavra de ordem. Junta quem quer brincar, quem quer debater e quem quer só dar um dois em paz. Junta fantasia e política pública. Ou seja: faz o que o Carnaval sempre fez — só que sem o disfarce da neutralidade conveniente. A proposta é simples e perigosa: festejar e politizar ao mesmo tempo. Num país onde a política de drogas encarcerou gerações — sobretudo jovens negros e periféricos — falar em descriminalização no meio da folia não é irreverência. É diagnóstico. O bloco ocupa Lapa, Praça Tiradentes e imaginário coletivo com uma pergunta básica: se o álcool pode patrocinar camarote, por que a cannabis só patrocina estatística policial?

Descriminalização: o debate que a avenida não abafa

            A luta pela descriminalização da maconha no Brasil não é sobre “liberar geral”, como o pânico moral gosta de simplificar. É sobre redução de danos, política de saúde pública, revisão de um modelo legal que lota presídios e esvazia direitos, enfrentar a seletividade penal. Quando um bloco como o Planta na Mente desfila, ele não está inventando o debate. Está escancarando o que já existe. O Carnaval só amplifica. E amplifica porque a rua, durante a folia, vira território simbólico. O que se canta ali ecoa. O que se vê ali incomoda. O que se tolera ali revela o limite do que a cidade aguenta enxergar.

Carnaval do século XXI: identitário, fragmentado e direto

            Descriminalizar não é “liberar geral”, como gosta de repetir o pânico moral em horário nobre. É discutir redução de danos, saúde pública, justiça penal e racionalidade mínima. É revisar um modelo que lota presídio e esvazia argumento. Quando o Planta na Mente desfila, não cria o debate. Escancara. O Carnaval funciona como megafone: o que se canta na rua ecoa no resto do ano. O que se vê incomoda. O que se tolera revela limite. A avenida vira laboratório simbólico. O que é permitido ali mostra o quanto a cidade aguenta enxergar de si mesma sem precisar de filtro.Carnaval do século XXI: direto ao ponto

            O Planta é filho de um novo Carnaval: segmentado, politizado, sem paciência para fingir neutralidade. Antes, a crítica vinha em metáfora. Hoje vem em estandarte. Não porque a festa mudou. Porque a hipocrisia ficou mais difícil de disfarçar. O bloco expõe o paradoxo carioca clássico: vende-se liberdade em cartão-postal, mas se regula a liberdade na portaria. E todo ano, a mesma coreografia institucional: autoriza, regula, vigia, enquadra. A rua é permitida — desde que previsível. A crítica é tolerada — desde que folclórica.

            O Planta na Mente quebra o script. Lembra que Carnaval não é só entretenimento. É termômetro político. O que passa na avenida indica o que está sendo empurrado para debaixo do tapete no resto do ano. Se a cidade tratou certas pautas como fumaça que se dissipa, o bloco responde com outra física: fumaça também ocupa espaço.

            O Planta na Mente não é o maior bloco do Rio. Não é o mais antigo. Não é o mais patrocinado. Mas cumpre uma função que o Carnaval sempre teve: dizer em voz alta o que o discurso oficial tenta sussurrar. Enquanto houver gente sendo presa por porte, enquanto a política de drogas seguir seletiva, enquanto a moral pública continuar mais rígida com o baseado do que com o lucro do bar, blocos assim vão surgir. Porque a rua, quando canta, revela. Quando dança, denuncia.

Quando desfila, documenta.

            No Carnaval, a cidade finge que tudo é fantasia. Mas a fantasia, às vezes, é o único jeito de dizer a verdade. E quando a bateria entra, o coro responde, a fumaça sobe e o refrão se espalha, fica impossível fingir que não se ouviu. No fim, a pergunta não é se a planta vai continuar na avenida. A pergunta é: até quando o país vai continuar fingindo que não vê?


(*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJ na cadeira do Audiovisual. Atualmente, integra o elenco do espetáculo teatral “O Bem Amado”, de Dias Gomes, ao lado de Diogo Vilela, com direção de Marcus Alvisi.

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