Líderes do PL e União admitem articulação para barrar votação e embate se intensifica na CCJ. Esquerda segue confiante de vitória
A direita partidária assumiu publicamente que vai atuar para impedir a votação do fim da escala 6×1 na Câmara dos Deputados.
Em evento com empresários realizado nesta segunda-feira (23), em São Paulo (SP), os presidentes do PL, Valdemar da Costa Neto, e do União Brasil, Antônio Rueda, admitiram que trabalham para segurar a proposta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde a tramitação começou a avançar.
Rueda afirmou que a aprovação seria “avassaladora” caso o texto chegue ao plenário e defendeu uma estratégia para “segurar que essa votação vá para o Plenário”.
Segundo ele, é preciso “inteligência” para evitar que deputados e senadores que disputam a reeleição tenham que votar contra uma pauta de redução da jornada. “É uma posição muito cruel para quem está disputando uma reeleição”, declarou.
Valdemar foi na mesma linha e afirmou que é preciso “trabalhar para não deixar votar de jeito nenhum”, inclusive com pressão do empresariado sobre parlamentares. “Se puser isso em pauta, é muito difícil não passar”, disse, ao defender que a disputa se concentre na CCJ.
A comissão indicada pelos dirigentes como campo de batalha ganhou, nesta terça-feira (24), um novo elemento político: o deputado federal Paulo Azi (União-BA) foi designado relator da proposta. A indicação foi articulada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). A CCJ é responsável por analisar a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata do tema antes da criação de uma comissão especial.
No mesmo evento, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, defendeu que o debate sobre a redução da jornada fique para 2027. Segundo ele, “6×1 e redução de jornada em ano eleitoral não combinam” e o calendário político poderia confundir “as motivações” com “os interesses do país”.
Em resposta, o presidente da República em exercício e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), afirmou que a redução da jornada é uma “tendência mundial”. Para ele, trata-se de um debate que “não deve fazer corridas”, mas que precisa ser aprofundado, já que diferentes setores produtivos apresentam realidades distintas.
Também nesta segunda-feira, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, reiterou que acabar com a escala 6×1 é uma das principais prioridades do governo federal em 2026. Ele defendeu a redução da jornada máxima para 40 horas semanais, com escala 5×2 e sem redução salarial.
Autores de propostas defendem votação e apontam temor eleitoral da direita
Hoje, diferentes propostas sobre a redução da jornada de trabalho tramitam simultaneamente no Congresso Nacional. Na Câmara dos Deputados, estão apensadas a PEC 8/2025, apresentada pela deputada Erika Hilton (Psol-SP), que propõe jornada de 36 horas semanais no modelo 4×3, e a PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que prevê redução gradual até 36 horas. Também na Câmara está o PL 5989/2025, de autoria do deputado Vicentinho (PT-SP), que fixa a jornada máxima em 40 horas semanais. No Senado, a PEC 148/2015, apresentada pelo senador Paulo Paim (PT-RS), estabelece redução inicial para 40 horas com diminuição progressiva.
O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), autor da PEC 221/2019, afirmou ao Brasil de Fato que a mobilização em torno do tema tem força nas ruas e nas redes sociais e que há condições políticas reais de aprovação.
“Eu trabalho com o debate político permanente de convencimento. É uma matéria que tem ganhado as ruas, as redes”, disse. Segundo ele, parte do empresariado já começa a antecipar mudanças na jornada diante de um cenário de pleno emprego. “O mercado de trabalho está em pleno emprego e precisa de trabalhadores e trabalhadoras descansadas, mais produtivas, com qualidade de vida”, explica.
Para o parlamentar, a resistência da direita está ligada ao cálculo eleitoral para a campanha de reeleição de Lula. Ele classificou a escala 6×1 como “a escravidão moderna desse século 21” e afirmou que há possibilidade de apoio inclusive em partidos que hoje se posicionam contra a votação. “Nós vamos fazer um bom combate e vamos convencer grande parte dos parlamentares”, declarou.
O deputado Vicentinho (PT-SP) também reagiu à articulação de PL e União Brasil para barrar a tramitação. Para ele, os dois partidos atuam como “verdadeiros representantes dos patrões” no Congresso.
“Eles são os verdadeiros representantes dos patrões aqui no Congresso. Além de serem contra a democracia, porque mostraram isso, sempre votaram projetos contra a classe trabalhadora”, afirmou. Segundo o parlamentar, a tentativa de impedir que a proposta vá ao plenário revela receio de enfrentar o voto aberto em ano eleitoral. “Eu quero ver vocês terem coragem de votar contra o projeto. Por isso que eles estão articulando para não permitir que o projeto vá para ser apreciado pelos deputados.”
Vicentinho reconhece que há divergências sobre o formato da mudança. “Há uma polêmica sobre se é 40 horas semanais ou 36. Hoje eu senti que 36 pode não passar porque esse Congresso é vendido aos patrões”, avaliou. Ele é autor do PL 5989/2025, que altera a CLT para fixar a jornada máxima em 40 horas semanais, sem redução salarial, e vedar o trabalho aos sábados, salvo autorização por negociação coletiva, com adicional ou compensação. Para o deputado, o fundamental é garantir ao menos dois dias de descanso por semana. “Para trabalhar, tem que descansar no mínimo dois dias.”
No Senado, Paulo Paim (PT-RS) apresentou, ainda em 2015, a PEC 148, que prevê a redução da jornada para 40 horas semanais em um primeiro momento, com diminuição progressiva até 36 horas. Em entrevista à Rádio Brasil de Fato, ele afirmou que o essencial é que o Congresso leve o tema à votação.
“O importante no primeiro momento é garantir as 40 horas. Vamos a voto então. Ano eleitoral, cada um assuma a sua responsabilidade”, declarou. Para Paim, a própria articulação da direita para impedir a tramitação demonstra que há maioria potencial favorável à mudança. “Eles estão com medo de ir a voto. Se for a voto, nós vamos ganhar.”
O senador também criticou a narrativa de que o Brasil já teria jornada inferior à média internacional. Segundo ele, o país mantém há quase quatro décadas o limite de 44 horas semanais, enquanto diversos países europeus operam entre 35 e 40 horas. “Não tem o mínimo cabimento dizer que o Brasil trabalha menos. A média na Europa fica em torno de 36 horas semanais”, afirmou, citando ainda mudanças recentes em países como México, Chile e Portugal.
“A jornada de trabalho no Brasil, nos moldes em que está hoje, ainda é muito semelhante ao trabalho escravo”, disse.
Cobertura baseada em ‘terror’, avalia pesquisador
A disputa em torno da jornada também se dá no campo da narrativa. Para o professor de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro do DiraCom, Rogério Christofoletti, a cobertura da grande mídia tem sido marcada por um padrão histórico de alarmismo quando se trata de direitos trabalhistas.
“A cobertura jornalística de direitos trabalhistas no Brasil é quase sempre guiada por terror e ameaça. Foi assim em 1962, quando O Globo estampou manchete dizendo que o 13º salário seria ‘desastroso para o país’, e é assim agora”, afirmou ao Brasil de Fato.
Segundo ele, além de editoriais que projetam “catástrofes econômicas”, parte da imprensa adota uma segunda estratégia: revestir o debate de um suposto tecnicismo neutro. “A artimanha é dar um tom técnico e científico para um debate que é político e que envolve direitos e justiça social”, analisou.
Christofoletti citou reportagem publicada no domingo (21) pela Folha de S.Paulo, que reforçou a ideia de que o brasileiro “trabalha pouco”. Para ele, o texto intitulado Brasileiro trabalha menos que a média mundial; veja rankings apresenta apenas uma parte dos dados e não ouviu fontes com posições divergentes. “De forma manipuladora, fica cristalizada a ideia de que se trabalha pouco aqui e que a mudança da escala seria uma temeridade”, afirmou.
O pesquisador acrescentou que é preciso considerar o papel estrutural das empresas de comunicação no debate. “A grande mídia é formada por empresas e, como empregadoras, elas não estão dispostas a fazer um debate amplo e honesto sobre jornada de trabalho justa e direitos trabalhistas na economia do século 21”, declarou.
Do movimento popular ao Congresso
O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou projeção nacional a partir da mobilização do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que denunciou os efeitos da jornada de seis dias consecutivos de trabalho e apenas um de descanso sobre a saúde física e mental dos trabalhadores. A proposta foi formalizada na Câmara por meio da PEC 8/2025, apresentada pela deputada Erika Hilton (Psol-SP), e recebeu 226 assinaturas.
Em 2 de fevereiro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva incluiu o fim da escala 6×1 entre as prioridades do governo na Mensagem ao Congresso Nacional. No documento, defendeu a redução da jornada “sem redução de salário” e afirmou que “não é justo que uma pessoa trabalhe duro toda a semana e tenha apenas um dia para descansar o corpo e a mente”.
Antes disso, o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, declarou, em 30 de dezembro de 2025, que o ano eleitoral poderia, inclusive, facilitar a aprovação da medida, a depender da mobilização da classe trabalhadora. Já o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, espera ver a proposta aprovada ainda no primeiro semestre.
Um levantamento da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, divulgado em 12 de fevereiro, apontou que 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1, desde que não haja redução salarial. O mesmo estudo indicou que 52% acreditam que a proposta será aprovada pelo Congresso.
No campo econômico, estudos apresentados no debate têm apontado cenários distintos. Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicada em 10 de fevereiro, concluiu que a redução da jornada para 40 horas semanais teria impacto inferior a 1% no custo operacional de grandes setores como indústria e comércio. O instituto destacou que, embora o custo da hora trabalhada aumente, o peso da folha no total das despesas dessas empresas é relativamente baixo.
Já simulações do FGV Ibre indicam que uma redução para 36 horas semanais, sem ganhos de produtividade, poderia implicar queda do Produto Interno Bruto (PIB). Especialistas ouvidos pela imprensa comercial também projetam aumento de custos em setores intensivos em mão de obra.
Em nota técnica publicada em setembro de 2025, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) afirmou que a disputa pelo tempo de trabalho é histórica e que o Brasil reúne condições para reduzir a jornada, desde que combinada com controle de horas extras e limites à flexibilização introduzida pela reforma trabalhista de 2017.
As centrais sindicais defenderam, em nota conjunta divulgada em 10 de fevereiro deste ano, a adoção da jornada de 40 horas semanais com escala 5×2. Para as entidades, a medida é “um passo necessário” para ampliar a empregabilidade, elevar a produtividade e promover o desenvolvimento social.
Publicado originalmente pelo Brasil de Fato em 24/02/2026
Por Rodrigo Chagas – São Paulo (SP)
Edição: Maria Teresa Cruz