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Filme B: 54,7% dos filmes nacionais não alcançaram mil espectadores

Apesar de prêmios em Veneza e Cannes, cinema brasileiro teve apenas 5,2% do público em 2025, revelando distância entre prestígio internacional e adesão nas salas nacionais Nos últimos dois anos, as performances de Ainda estou aqui e O agente secreto nos festivais de Veneza e de Cannes, além das suas indicações e premiações internacionais, com destaque para o Oscar, […]

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Mais da metade dos lançamentos não chegou a mil espectadores, evidenciando falhas na distribuição e ausência de políticas eficazes para levar filmes ao público.
Sete títulos concentraram 73% dos ingressos, enquanto 80% das produções mal ultrapassaram 10 mil espectadores, ampliando o desequilíbrio do setor / Agência Brasil

Apesar de prêmios em Veneza e Cannes, cinema brasileiro teve apenas 5,2% do público em 2025, revelando distância entre prestígio internacional e adesão nas salas nacionais


Nos últimos dois anos, as performances de Ainda estou aqui O agente secreto nos festivais de Veneza e de Cannes, além das suas indicações e premiações internacionais, com destaque para o Oscar, nos dão a impressão de que o cinema brasileiro vive um momento de esplendor. Entretanto, os números obtidos pelos lançamentos brasileiros nos cinemas em 2025 foram ruins e bem abaixo das expectativas geradas pela exposição alcançada pelos dois filmes citados. As tabelas a seguir descrevem os números do setor:

O público dos filmes brasileiros exibidos nos cinemas em 2025, segundo dados do Filme B Box Office coletados em 15 de janeiro de 2026, foi de 11,9 milhões. Desse total, 5,9 milhões foram obtidos por produções lançadas no ano anterior, com destaque para Auto da Compadecida 2 (3,1 milhões de ingressos em 2025) e Ainda estou aqui (2,8 milhões de espectadores em 2025), os dois primeiros do ranking, em público, de filmes brasileiros exibidos em 2025. 

Assim, 6 milhões de pessoas assistiram às 203 obras nacionais lançadas nos cinemas brasileiros em 2025. Considerando que o público total do mercado brasileiro em 2025, incluindo os filmes estrangeiros, foi de 115,7 milhões de espectadores, os 6 milhões obtidos pela produção brasileira lançada no período representam cerca de 5,2% do total.

O quadro fica ruim quando se examina o comportamento mercadológico dos 203 filmes. Dois deles, Agente secreto Chico Bento e a goiabeira maraviosa, venderam entre 1,0 e 1,1 milhão de ingressos; outros dois, Vitória Homem com H, ficaram entre 600 e 750 mil espectadores; mais dois, Perrengue fashion Fé para o impossível, foram assistidos por audiências entre 250 e 400 mil pessoas; Último azul, com 201 mil espectadores, completa o grupo que obtiveram mais de 200 mil ingressos em 2025.  

Esses sete filmes alcançaram cerca de 73% do público computado pelo total dos 203 filmes brasileiros lançados em 2025.

Nove produções alcançaram entre 50 e 150 mil espectadores

A tabela acima nos informa que nove produções alcançaram entre 50 e 150 mil espectadores. Somados aos sete acima citados, temos 16 filmes com público entre 50 mil e 1,1 milhão de ingressos, responsáveis por 88% do total de ingressos vendidos pelo conjunto formado pelos 203 filmes brasileiros que foram lançados nos cinemas em 2025.

Vinte e quatro lançamentos ficaram com audiências entre 10 e 50 mil espectadores. O market share deste grupo foi de 8%. Assim, temos 40 filmes, com público entre 10 mil e 1,1 milhão de ingressos, responsáveis por 96% do público total obtido por 203 filmes lançados no ano passado. 

Por consequência, temos 163 filmes (80% dos 203 lançados) que não alcançaram, nas suas carreiras no mercado brasileiro de cinemas, mais do que 10 mil ingressos cada um. A participação de mercado total para este grupo foi de 4%.

O quadro se agrava com a constatação de que 111 lançamentos não alcançaram, cada um, 1.000 espectadores nas suas carreiras nos cinemas brasileiros. Esse número representa 54,7% do total dos 203 filmes lançados em 2025. Combinados, alcançaram a marca de 33.736 ingressos, 0,6% do público que assistiu aos filmes lançados e 0,3% do total obtido pelo cinema brasileiro no período.

Mediana de 719 espectadores por filme expõe o tamanho da crise

Quando a lista dos 203 filmes é ordenada, do maior para o menor público, o ponto central desse conjunto é de 719 ingressos. Essa é a mediana de espectadores obtidos pelas obras brasileiras lançadas no  ano passado. É do filme que ocupou a 102ª posição, o que significa que cerca de 50% (101) dos filmes brasileiros lançados nos cinemas em 2025 foram assistidos, cada um deles, por menos de  719 pessoas.

Esse resultado põe por terra qualquer argumento favorável ao desempenho da produção brasileira em 2025, e é consequência, sem dúvida, das políticas públicas implantadas e operadas pela gestão cultural do atual governo federal.

E não permite a ilusão provocada por análises superficiais de que os prêmios e o reconhecimento internacional de dois filmes excepcionais sejam mais do que exatamente isso: duas exceções. Reconhecidas, saudadas e festejadas; mas exceções.

Falta de apoio à distribuição condena filmes nacionais ao fracasso comercial

O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) alocou um significativo volume de recursos em diferentes estágios de produção, viabilizando a realização de mais de 200 filmes, mas não atentou para a necessidade de aportes de volume relevante e proporcional para a fase de comercialização nos cinemas. Afinal, cabe ao FSA zelar para que os filmes produzidos com o apoio de seus programas sejam adequadamente lançados. 

O FSA, através do seu Comitê Gestor, é corresponsável por esse resultado pois: 

  • apoiou a grande maioria desses projetos, muitos através de editais seletivos, sem análise de viabilidade comercial minimamente adequada; 
  • não foi capaz de estruturar um bom programa de apoio à comercialização dos filmes que financiou; 
  • não zelou, nem mesmo realizando um exame correto de planos de comercialização, para que os filmes produzidos com seus recursos fossem adequadamente lançados.

Não é exagero afirmar que um investimento quase idêntico ao alocado na produção seja aplicado na comercialização dos produtos audiovisuais destinados ao mercado cinematográfico. Esta afirmação está baseada na experiência com operações de coproduções pelo Art. 3o da Lei do Audiovisual. A excessiva, e danosa, dependência do setor de produção dos recursos do FSA pode distorcer essa hipótese, diminuindo a necessidade do mesmo nível de investimento para as duas fases da obra. Além disso, com a digitalização das campanhas de propaganda e da copiagem, o custo de P&A para um filme de potencial econômico médio foi reduzido. De qualquer forma, é um recurso indispensável para qualquer filme obter uma carreira digna nos cinemas.

FSA deve ser sócio atuante da distribuição como o é da produção

O FSA deve ser sócio atuante da distribuição como o é da produção. E deve ser firme na análise do Plano de Comercialização para garantir que o filme seja lançado corretamente, com chances de atingir o seu potencial de público.

Deve implantar um programa de aportes na comercialização dos filmes que apoia, na forma de um adiantamento, retornável pela retenção, proporcional aos demais financiadores do P&A, da Receita Líquida da Produção (RLP) do mercado de cinema e dos demais mercados, caso o cinema não venha a gerar receitas suficientes para tal. Adicionalmente, mas não menos importante, uma participação na Comissão de Distribuição equivalente ao investimento.

Remanejamento de linhas pode ser necessário e viável

É possível que um remanejamento nas linhas do FSA seja necessário. Não importa: o total investido nos últimos anos garante a viabilidade de um programa de apoio à distribuição mais robusto, principalmente se a regulação do mercado de VoD finalmente acontecer. Mas a sua necessidade é total e deveria receber prioridade. 

A lista completa dos 203 filmes brasileiros lançados em 2025 pode ser encontrada aqui.

Este artigo é dedicado a Luiz Carlos Barreto, liderança insubstituível, mestre e amigo, que recentemente me incentivou a elaboração de mais textos sobre o Cinema Brasileiro. 

Via Filme B*

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