Crise entre Tarcísio e Kassab se agrava e saída do secretário se torna cada vez mais iminente

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O relacionamento político entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o secretário de Governo, Gilberto Kassab, entrou em fase crítica e já é descrito por interlocutores de ambos os lados como insustentável. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, aliados afirmam que o presidente nacional do PSD pode deixar o cargo até abril, em meio ao agravamento das tensões internas na gestão estadual.

O desgaste se intensificou nas últimas semanas após uma sequência de divergências políticas, disputas por espaço dentro da base aliada e declarações públicas que tornaram explícito o distanciamento entre os dois. O clima, que já vinha se deteriorando desde o ano passado, atingiu o ponto máximo com episódios envolvendo articulações partidárias e discussões sobre a formação da chapa eleitoral para 2026.

Expansão do PSD e desconforto no governo

Um dos principais focos de atrito é a atuação de Kassab para ampliar o PSD em São Paulo. À frente da Secretaria de Governo — responsável pela articulação política com prefeitos e pela gestão de convênios e emendas — ele teria multiplicado por sete o número de prefeitos filiados à legenda, conforme a reportagem.

Interlocutores afirmam que Tarcísio demonstrou incômodo com o movimento, sobretudo porque a expansão ocorreu com a filiação de prefeitos e deputados vindos de partidos que integram a própria base aliada. Lideranças dessas siglas passaram a alegar que o secretário estaria usando sua influência institucional para fortalecer o PSD, inclusive com suspeitas de facilitação na liberação de convênios a gestores municipais ligados ao partido.

Até meados do ano passado, o governador teria dito a aliados que Kassab “vendia na praça” um controle da máquina pública que não possuía. O desconforto também alcançou outras legendas: em dezembro, o PP chegou a ameaçar lançar candidato próprio ao governo paulista, citando em nota o “crescente descontentamento” de prefeitos e críticas à falta de atenção do Palácio dos Bandeirantes.

Disputa interna pela vaga de vice

Outro elemento central da crise envolve a composição da chapa para a tentativa de reeleição de Tarcísio em 2026. Kassab é apontado como um dos interessados na vaga de vice, que também é disputada pelo atual vice-governador Felício Ramuth e por André do Prado, presidente da Assembleia Legislativa.

A tensão aumentou após o vazamento de informações sobre investigação envolvendo Ramuth na Justiça de Andorra por suspeita de lavagem de mais de US$ 1,6 milhão — acusação negada pelo vice-governador. Nos bastidores, surgiram especulações de que o vazamento teria partido de adversários internos, hipótese negada pelos citados.

Procurado, André do Prado afirmou que não teve participação no episódio e declarou que tal atitude não faz parte de sua conduta. Kassab, por meio de assessoria, também negou envolvimento e classificou as acusações como intrigas de baixo nível. Tarcísio, questionado, disse que “fofoca antes de eleição sempre tem” e afirmou que o caso não interfere na montagem da chapa.

Declarações públicas ampliam tensão

O mal-estar ganhou dimensão pública após entrevista de Kassab ao UOL em janeiro. Ao comentar a relação de Tarcísio com o ex-presidente Jair Bolsonaro, o secretário disse que gestos de gratidão são importantes, mas acrescentou: “Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão”.

A declaração foi mal recebida pelo governador, que respondeu no dia seguinte afirmando manter relação de amizade e gratidão com Bolsonaro e que isso não significa submissão. Dias depois, durante agenda oficial, Tarcísio voltou ao assunto e declarou que algumas pessoas tentam rotular lealdade como submissão e que amizade e lealdade se tornaram atributos raros na política.

No dia seguinte, Kassab publicou mensagem nas redes sociais dizendo sentir-se privilegiado por ter bons amigos e conselheiros, gesto interpretado por aliados como resposta indireta ao governador.

Saída considerada questão de tempo

Nos bastidores do Palácio dos Bandeirantes, a saída do secretário é tratada como provável. Segundo aliados, Tarcísio teria avisado a auxiliares que permanecerão na gestão apenas aqueles focados exclusivamente na administração, e não na disputa eleitoral.

Dois interlocutores afirmam que o governador soube pela imprensa, no fim do ano passado, da intenção de Kassab de deixar o cargo para coordenar campanhas, e pediu que fosse comunicado previamente sobre qualquer decisão. Kassab teria entendido que, se saísse naquele momento, não poderia indicar o sucessor, o que teria adiado a formalização da saída.

A avaliação corrente é que ele deve permanecer ao menos até o fim da janela partidária, no início de abril, período em que parlamentares podem trocar de partido sem perder o mandato. A estratégia seria evitar que um rompimento imediato provoque debandada de deputados do PSD e enfraqueça a legenda nas eleições.

Sinalizações políticas e disputa de influência

Aliados de Kassab consideraram simbólica a reunião marcada por ele com três governadores cotados como presidenciáveis do PSD — Eduardo Leite, Ronaldo Caiado e Ratinho Jr. — interpretada como demonstração de força partidária e recado sobre o peso da legenda nas articulações nacionais e estaduais.

Com a troca de declarações públicas, disputas internas e interesses eleitorais em jogo, o ambiente entre governador e secretário é descrito como deteriorado. Interlocutores avaliam que a permanência de Kassab no primeiro escalão tornou-se apenas uma questão de tempo, em um conflito que combina estratégia partidária, controle político da máquina estadual e projeções para a eleição de 2026.

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