“Não somos neutros. Estamos ao lado do Irã”, diz embaixador russo em Londres

“Não somos neutros. De jeito nenhum. Estamos ao lado do Irã, é claro.” Em entrevista à TV britânica, o embaixador russo em Londres afirmou de forma explícita que Moscou tomou partido na guerra. Na mesma resposta, atacou o enquadramento ocidental do conflito: “A lógica, neste momento, entre os países ocidentais e outros, é que o Irã é culpado por tudo”. E prosseguiu: “Mas ninguém está dizendo que os Estados Unidos e Israel iniciaram um ataque contra o Irã e que o Irã está apenas respondendo a esse ataque. Então isso é simplesmente injusto.” Antes, já havia descrito a ofensiva como “uma agressão absolutamente ilegal e não provocada por Israel e pelos Estados Unidos contra o Irã”.

O entrevistado é Andrei Kelin, embaixador da Rússia no Reino Unido. A entrevista foi concedida na manhã deste domingo, 8 de março de 2026, ao programa Sunday Morning With Trevor Phillips, da Sky News, que no mesmo dia também ouviu a chanceler britânica Yvette Cooper.

Logo no início da conversa, Trevor Phillips tentou estabelecer um paralelo entre a justificativa apresentada por Vladimir Putin para a guerra na Ucrânia e o argumento usado por Israel e pelos Estados Unidos para atacar o Irã. Kelin rejeitou a comparação de imediato, dizendo que se tratava de “duas coisas diferentes”. Em seguida, deslocou o foco para o Oriente Médio e afirmou que os “eventos imediatos no Irã” eram, naquele momento, mais importantes do que qualquer outro tema, porque poderiam desencadear uma crise longa, grave e capaz de abalar a economia mundial.

A entrevista foi ao ar quando a guerra entrava em seu nono dia. Segundo a Reuters, novos bombardeios atingiram Teerã neste domingo, enquanto o conflito se ampliava regionalmente, com relatos de danos também em países do Golfo. No próprio programa, Phillips resumiu a justificativa americana e israelense como uma tentativa de degradar a capacidade iraniana de atacar vizinhos e de impedir Teerã de construir uma arma nuclear. Kelin recusou esse enquadramento e insistiu que, para Moscou, o ponto central é outro: o Irã, e não seus adversários, aparece no debate ocidental como responsável automático pela escalada.

Esse argumento reapareceu de forma ainda mais clara quando o diplomata afirmou que a ofensiva ocorreu “no meio das negociações entre os Estados Unidos e o Irã” sobre a questão nuclear. Segundo ele, o ministro das Relações Exteriores de Omã, que mediava as conversas, havia informado que os dois lados estavam “perto do sucesso”. Ainda assim, disse Kelin, “os EUA interromperam essas negociações e decidiram lançar um ataque”. Ao retomar esse ponto, o embaixador reforçou que, em sua visão, o foco deveria voltar ao ataque inicial e às negociações interrompidas, não apenas à resposta iraniana.

Kelin também questionou diretamente a justificativa nuclear para a guerra. Segundo ele, Donald Trump já havia anunciado, após o primeiro ataque de 2025, que as capacidades nucleares iranianas haviam sido destruídas. Em seguida, o embaixador afirmou que a Agência Internacional de Energia Atômica e a inteligência dos Estados Unidos já haviam dito que o Irã não possui uma arma nuclear. Por isso, concluiu: “na ausência de qualquer evidência” da existência dessa arma, “não está claro o que os EUA estão fazendo ali, afinal”. Foi assim que o diplomata contestou a base apresentada por Washington para a ofensiva.

Ao ser perguntado se a Rússia ajudaria Teerã de maneira concreta, o diplomata respondeu que Moscou tem “toda a simpatia pelo Irã”, a quem chamou de vizinho e parceiro histórico. Disse também que, até o momento da entrevista, os iranianos não haviam pedido assistência. Mas acrescentou que, se esse pedido fosse feito, a Rússia o consideraria “seriamente” e disponibilizaria ajuda. Na sequência, porém, fez uma distinção importante: segundo Kelin, a relação com o Irã é de “parceria estratégica”, não de aliança militar formal, como os tratados que os Estados Unidos mantêm com alguns de seus aliados.

Essa diferenciação ajuda a entender o tom adotado pelo embaixador ao longo da entrevista. Kelin deixou claro que a Rússia não se apresenta como neutra, mas também evitou prometer, naquele momento, uma intervenção militar automática em favor do Irã. Na entrevista, o apoio explicitamente detalhado por ele concentrou-se na via política e diplomática, enquanto a ajuda material foi condicionada a um pedido iraniano. Ao mesmo tempo, ele procurou marcar distância do modelo de alianças militares ocidentais, citando tratados formais como elemento que, segundo ele, não existe na relação russo-iraniana.

Na parte mais contundente da entrevista, Kelin voltou a criticar o modo como a crise vem sendo enquadrada fora do eixo russo-iraniano. Disse que “não entendemos essa lógica” que transforma o Irã em culpado por tudo e reclamou até de uma minuta de resolução no Conselho de Segurança da ONU que, segundo ele, estaria “apenas culpando o Irã pelos acontecimentos e pela crise”. A fala resume a posição que ele levou à televisão britânica: para Moscou, o conflito deve ser lido a partir do ataque inicial contra o Irã, da interrupção das negociações nucleares e da recusa em aceitar o que o próprio embaixador chamou de uma leitura “simplesmente injusta” da guerra.

Vídeo legendado aqui.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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