Continente se tornou maior comprador global pela primeira vez desde os anos 1960, aponta estudo. Já os EUA se consolidam como grande fornecedor num mundo multipolarizado.
Os fluxos globais de armas cresceram quase 10% nos últimos cinco anos, com a Europa mais do que triplicando suas importações, mostram os dados mais recentes do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri).
Embora as importações europeias ainda não estejam nos níveis vistos durante a Guerra Fria, o continente é agora o maior destino de armas no mundo, pela primeira vez desde os anos 1960, segundo relatório divulgado nesta segunda-feira (09/03).
No período analisado, entre 2021 e 2025, os países europeus responderam por 33% das importações globais de armas, contra 12% de 2016 e 2020. O instituto analisa tendências em blocos de cinco anos porque algumas entregas de grandes contratos podem distorcer os números anuais.
“As entregas para a Ucrânia desde 2022 são o fator mais evidente, mas a maioria dos outros países europeus também começou a importar muito mais armas para reforçar suas capacidades militares, contra uma ameaça percebida em crescimento por parte da Rússia,” disse Mathew George, diretor do Programa de Transferências de Armas do Sipri.
As outras regiões que mais receberam armas são, respectivamente, Ásia e Oceania (31%), Oriente Médio (26%), Américas (5,6%) e África (4,3%). Nas Américas, o crescimento foi de 12%.
O Brasil recebeu 21% do total importado entre 2021 e 2025 na região, atrás apenas dos Estados Unidos (52%), e 60% na América do Sul. O país é o vigésimo quarto fornecedor de armas no mundo (0,3% do total global), tendo Portugal como principal comprador, e o vigésimo quinto importador (1,2% do total global), sendo abastecido, sobretudo, por França e Suécia.
Mais vendas dos EUA, menos da Rússia
Quase metade das armas destinadas à Europa (48%) veio dos Estados Unidos, seguidos pela Alemanha (7,1%). Os americanos são os principais exportadores do mundo, respondendo por 42% de todas as transferências internacionais de armas no período analisado — crescimento notável em comparação aos 36% registrados nos cinco anos anteriores.
Sob Trump, a Casa Branca vê as exportações de armas como um instrumento de política externa e um meio de fortalecer sua indústria de defesa. “Os EUA consolidam ainda mais seu domínio como fornecedor de armas, mesmo em um mundo cada vez mais multipolar”, aponta Pieter Wezeman, pesquisador sênior do Sipri.
Alemanha é o 4º maior exportador
Por sua vez, a Alemanha superou a China e tornou-se o quarto maior exportador de armas entre 2021 e 2025, com 5,7% das exportações globais. Em segundo e terceiro lugar, vêm respectivamente França (9,8%) e Rússia (6,8%).
No caso russo, houve queda abrupta de 64% durante o período, em que os últimos quatro anos foram marcados pela guerra na Ucrânia. O país usa mais de seu próprio equipamento contra o vizinho, enquanto Estados Unidos e Europa pressionam países terceiros a não comprarem armas russas.
No contexto de alta tensão regional, o maior importador de armas entre os Estados-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Europa é hoje a Polônia, que faz fronteira com a Ucrânia e Belarus. Enquanto o país busca fortalecer a defesa nacional, o volume das importações aumentou em 852%.
Armas europeias pelo mundo
Apesar de seus líderes discursarem sobre a necessidade de a Europa se tornar mais autossuficiente, as transferências entre países do continente representaram apenas um quinto dos seus fluxos.
“Os fornecedores europeus ainda exportam majoritariamente para fora da Europa, e não dentro do continente”, disse George.
No caso da Alemanha, quase um quarto das exportações (24%) foi para a Ucrânia, e apenas 17% foram para outros países europeus. Isto é, mais da metade deixou o continente, sobretudo para Egito (14%) e Israel (10%).
No ano passado, a Alemanha impôs um embargo parcial à venda de armas para Israel, suspendendo o fornecimento de equipamentos militares que pudessem ser usados em Gaza. As exportações chegaram a zero, antes de a medida ser revertida três meses depois. O governo alemão condicionou a retomada da venda de armamento à manutenção do cessar-fogo celebrado entre Israel e o grupo palestino Hamas.
O total de importações israelenses aumentou em 12%, fazendo do país o décimo quarto recipiente global. Os Estados Unidos fornecem 68% das armas e a Alemanha, 31%. As exportações do país também cresceram em 56%, “ajudando a fortalecer a indústria doméstica de armas para apoiar Israel em sua guerra de múltiplas frentes,” afirmou o Sipri.
Perspectivas no Oriente Médio
Já as importações de armas para o Oriente Médio caíram 13%. Ainda assim, três dos maiores importadores do mundo continuam vindo da região, que recebeu mais da metade de suas armas (54%) dos Estados Unidos.
A Arábia Saudita respondeu por 6,8% das importações globais, enquanto Catar e Kuwait representaram, respectivamente, 6,4% e 4,8%.
“Daqui para frente, há uma longa lista de sistemas pendentes de entrega ao Oriente Médio. Quando essas entregas ocorrerem, poderemos ver esses números subir”, disse George à agência de notícias AFP.
A região está em guerra desde 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel começaram a bombardear o Irã, e as consequências do conflito ainda não podem ser previstas para o comércio de armas. Tensões geopolíticas, entretanto, costumam afetar o fechamento de novos contratos, com crises de segurança impulsionando as vendas.
China investe em produção própria
Enquanto isso, China e Índia, “estão buscando desenvolver e produzir internamente tecnologia de defesa”, afirmou George, em mais uma explicação para a queda das exportações russas.
No caso indiano, o país também tem buscado diversificar fornecedores. Também o Paquistão tem aumentado significativamente suas importações. Ambos os países estiveram entre os dez maiores importadores de armas do mundo nos últimos cinco anos.
A mudança da China em direção à produção doméstica e ao afastamento das importações russas fez com que suas importações totais caíssem 72%. O país saiu da lista dos dez maiores importadores pela primeira vez desde o início dos anos 1990, segundo o Sipri.
“Temores sobre as intenções da China influenciam os esforços de armamento em outras partes da Ásia e Oceania, que muitas vezes ainda dependem de armas importadas”, segundo Wezeman. O Japão aumentou suas importações de armas em 76%, enquanto Taiwan aumentou as suas em 54%.
Publicado originalmente pelo DW em 09/03/2026