A guerra errada e o plano certo: o que o novo plano quinquenal da China revela

Enquanto os Estados Unidos gastam bilhões bombardeando o Irã e o mundo acompanha a queda do preço do petróleo, a China publicou um dos documentos econômicos mais importantes da década.

Quase ninguém está prestando atenção.

Talvez porque ele diga mais sobre o futuro do poder global do que qualquer batalha em andamento.

O documento é o novo 15º Plano Quinquenal, apresentado no Congresso Nacional do Povo em 5 de março. Com 141 páginas, o plano revela o grau de ambição estratégica que Pequim pretende aplicar à próxima fase da competição tecnológica global.

A inteligência artificial aparece mais de cinquenta vezes no texto. O objetivo é claro: atingir 70% de penetração da IA na economia chinesa até 2027 e 90% até 2030.

O plano identifica a robótica humanoide como um dos pilares industriais do futuro e estabelece um valor-alvo para indústrias relacionadas à inteligência artificial superior a 10 trilhões de yuans — cerca de US$ 1,45 trilhão, segundo a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma. Mas o documento vai muito além da automação: inclui metas para redes de comunicação quântica entre o espaço e a Terra, cronogramas para pesquisa em fusão nuclear, avanços em interfaces cérebro-computador e expansão da infraestrutura digital que sustentará essas tecnologias.

Outro ponto central é a decisão de adotar “medidas extraordinárias” para garantir a autossuficiência chinesa em semicondutores e consolidar o domínio no processamento de terras raras. Trata-se de uma escolha que conecta diretamente tecnologia, indústria e segurança nacional.

A comparação com a resposta americana revela a diferença de abordagem. Em 2022, Washington aprovou o CHIPS and Science Act, considerado o maior programa de política industrial dos Estados Unidos em uma geração, destinando US$ 52,7 bilhões para a fabricação de semicondutores, incluindo US$ 39 bilhões em subsídios diretos e um crédito fiscal de 25% para investimentos privados.

O programa produziu resultados expressivos. Segundo a Semiconductor Industry Association, mais de 140 projetos foram anunciados em 30 estados, com investimentos privados que ultrapassam US$ 450 bilhões no ecossistema de semicondutores — embora o número frequentemente citado de US$ 640 bilhões inclua também o efeito combinado de outras duas leis aprovadas no mesmo período, o Inflation Reduction Act e o Bipartisan Infrastructure Law.

Mesmo assim, o escopo permanece limitado. O CHIPS Act concentra-se essencialmente em um único setor da disputa tecnológica: os semicondutores. Já o plano chinês opera em escala sistêmica, integrando inteligência artificial, robótica, infraestrutura espacial, computação quântica, materiais estratégicos e indústria avançada dentro de uma única arquitetura econômica. A diferença não é apenas de investimento, mas de desenho institucional.

O ponto mais sensível dessa disputa aparece no mercado de terras raras. A China controla cerca de 90% do processamento global desses minerais, fundamentais para tecnologias militares e industriais. Um caça F-35 utiliza aproximadamente 420 quilos de materiais de terras raras em sua construção — e sistemas como baterias Patriot, interceptores THAAD e mísseis guiados também dependem desses insumos.

Em abril de 2025, Pequim impôs controles de exportação sobre sete elementos pesados de terras raras, incluindo disprósio, térbio e samário. Em outubro, ampliou as restrições para mais cinco elementos e introduziu exigências extraterritoriais inéditas sobre produtos fabricados fora da China com insumos chineses — embora essa segunda onda tenha sido suspensa até novembro de 2026, após acordo com Washington.

Ao mesmo tempo, o Pentágono estabeleceu o prazo de janeiro de 2027 para eliminar a dependência chinesa desses materiais em compras militares. Especialistas estimam que a criação de cadeias alternativas de processamento pode levar entre dez e quinze anos — o que cria uma janela de vulnerabilidade estratégica em que os Estados Unidos continuam consumindo armamentos sofisticados cujo processamento ainda está concentrado na China.

Nesse contexto, o novo plano quinquenal funciona menos como um documento econômico tradicional e mais como um roteiro de reorganização industrial em escala nacional.

A verdadeira mensagem do plano, no entanto, não está apenas nas metas tecnológicas. Ela está na lógica de articulação que as sustenta: capital, indústria, pesquisa científica e infraestrutura alinhados em torno de uma trajetória comum. Inteligência artificial, robótica, computação quântica e processamento de materiais não são apostas isoladas — são componentes de um sistema projetado para gerar efeitos cumulativos ao longo de décadas.

A próxima fase da competição global provavelmente não será decidida apenas por quem produz os melhores chips ou os modelos de inteligência artificial mais avançados. A disputa central será sobre quem consegue implementar sistemas inteligentes em escala nacional — integrando energia, computação, manufatura e logística. O país que alcançar essa integração primeiro terá uma vantagem estrutural duradoura.

Enquanto as bombas continuam caindo no Oriente Médio, Pequim parece concentrada em outro campo de batalha: o da infraestrutura tecnológica que definirá a economia do século XXI.

Com informações do Substack de Shanaka Anslem Perera.
Endereço de X: @shanaka86

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