Enquanto os Estados Unidos consomem energia política, recursos militares e capital diplomático na escalada da guerra contra o Irã, a China segue avançando em outra frente: a do comércio internacional.
Os números divulgados nesta terça-feira pela Administração Geral das Alfândegas mostram que a segunda maior economia do planeta iniciou 2026 com a maior expansão de suas trocas externas em anos.
Nos dois primeiros meses do ano, o comércio total de bens alcançou cerca de US$ 1,12 trilhão, crescimento superior a 18% em relação ao mesmo período do ano anterior.
As exportações somaram aproximadamente US$ 670 bilhões, alta de 21,8%, desempenho muito acima das previsões de mercado, que esperavam avanço próximo de 7%. As importações cresceram 19,8%, para cerca de US$ 451 bilhões, sinalizando que a economia chinesa segue absorvendo grandes volumes de insumos industriais, energia e componentes tecnológicos.
O resultado foi um superávit comercial de US$ 213,6 bilhões apenas no bimestre — recorde para o período e 26% superior ao registrado entre janeiro e fevereiro de 2025. O país caminha para superar, ao longo de 2026, o saldo recorde de US$ 1,2 trilhão acumulado no ano passado.
Parte dessa expansão reflete a forte demanda global por produtos industriais e tecnológicos chineses. A exportação de produtos mecânicos e elétricos cresceu mais de 24%, impulsionada por embarques de circuitos integrados, semicondutores e equipamentos ligados à infraestrutura de inteligência artificial.
A geografia comercial revela mudanças estruturais importantes. O fluxo com o Sudeste Asiático atingiu cerca de US$ 180 bilhões, alta superior a 20%, consolidando a ASEAN como maior parceira comercial da China. Com a União Europeia, o intercâmbio chegou a aproximadamente US$ 145 bilhões, avanço de quase 20%. O comércio com a América Latina cresceu cerca de 20% e com a África, mais de 34%.
O movimento mais amplo aparece na rede de países da Iniciativa Cinturão e Rota, que concentra grande parte do chamado Sul Global. O comércio com esses parceiros atingiu aproximadamente US$ 583 bilhões no bimestre, crescimento de 20%.
O dado mais revelador, porém, é o que falta no quadro geral de euforia: o comércio com os Estados Unidos despencou quase 17% no período, para cerca de US$ 88 bilhões. As exportações chinesas para os EUA caíram 11%, e as importações vindas do país norte-americano recuaram quase 27%. A expansão chinesa não acontece apesar do desacoplamento — ela acontece ao redor dele, com fabricantes redirecionando embarques para o Sudeste Asiático, a América Latina e a África.
Entre os fatores que inflaram os números do início do ano estão o calendário do Ano Novo Lunar, que criou uma base comparativa mais baixa no período anterior, e a possível antecipação de embarques em setores como painéis solares e baterias, diante de mudanças tributárias esperadas por exportadores.
Do lado das importações, o aumento de quase 16% nas compras de petróleo bruto chama atenção. Analistas apontam que a China elevou seus estoques estratégicos nos meses anteriores à guerra no Oriente Médio, comprando volumes adicionais da Rússia e do Irã a preços reduzidos — uma decisão que agora se revela presciente diante do fechamento de fato do estreito de Ormuz.
Apesar dos fatores sazonais, o desempenho reflete tendências de fundo. A China continua ampliando sua presença nos mercados internacionais ao combinar uma base industrial extremamente diversificada, liderança em segmentos de manufatura avançada e a expansão sistemática de suas redes comerciais com economias emergentes.
O resultado é um início de ano que confirma o peso da economia chinesa na dinâmica do comércio global. Em um momento marcado por guerra no Golfo, fragmentação geopolítica e incerteza sobre rotas marítimas, o comércio exterior da China segue funcionando como um dos principais motores de produção e circulação de bens no mundo.



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