O marqueteiro Paulo de Tarso da Cunha Santos, responsável por campanhas icônicas como o “Lula lá” de 1989, adverte que a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta um cenário adverso e precisa de uma profunda revisão estratégica. Em sua análise, o avanço da direita no cenário internacional, simbolizado pelo projeto “Maga” de Donald Trump, encurralou o presidente, tornando a tradicional propaganda petista, focada em programas sociais e realizações administrativas, ineficaz. “O povo está cansado da demora que a democracia liberal propõe”, afirma Tarso, ressaltando que a percepção de lentidão nas entregas do governo joga contra a popularidade do petista.
O principal alerta do estrategista é que a campanha de Lula não pode mais se basear na prestação de contas do passado, mas deve obrigatoriamente olhar para o futuro. Ele aponta que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário segundo as pesquisas recentes, “sintetiza o futuro e o antipetismo”. Para Tarso, a comunicação do PT precisa abandonar a narrativa de que a vitória virá facilmente no primeiro turno. “É importantíssimo preparar o nosso exército para uma batalha mais longa. Nós não vamos ganhar na saída das primeiras trincheiras”, aconselha, defendendo que a campanha seja pensada desde o início para uma disputa em dois turnos, sem que isso seja visto como uma decepção pelo eleitorado.
Apesar dos desafios e do tom crítico, Paulo de Tarso acredita que Lula pode vencer a eleição. Ele avalia que o presidente “tem tudo na mão para se reeleger no segundo turno”, citando a máquina do governo, a maturidade política e a conjuntura internacional como fatores favoráveis. A vitória, contudo, não virá de bandeja. O marqueteiro, que atuou em mais de 40 anos de campanhas para políticos de diversos espectros, de petistas a tucanos, argumenta que a comunicação da campanha está excessivamente centrada na figura do próprio presidente e carece de “elementos de sonho, elementos de realização” para engajar o eleitorado.
Com 73 anos e memórias recém-lançadas no livro “Lula lá e outras histórias”, Tarso apresenta-se como um veterano estrategista político que compreende as nuances de uma disputa eleitoral para além da simples vitória. Ele introduz o conceito de “vitória de credenciamento”, na qual um candidato, mesmo perdendo, sai fortalecido para pleitos futuros, como ocorreu com Marina Silva em 2010 e com o próprio Lula em suas tentativas antes de ser eleito em 2002. Essa construção de credibilidade, segundo ele, é fundamental e muitas vezes mais importante que a intenção de voto momentânea, pois solidifica a “expectativa de vitória” no eleitorado.
Entre as sugestões para a campanha de Lula, o marqueteiro destaca a necessidade de uma estratégia de comunicação que funcione em um “mix” de meios, incluindo rádio, TV e internet, pois um erro em qualquer uma dessas frentes pode ser fatal em uma disputa acirrada. Ele também minimiza a ideia de que a internet, por si só, define uma eleição majoritária, afirmando que “like não é igual a voto” e que a violência e a desinformação, embora chamem a atenção, não substituem a construção de fatos políticos sólidos.
Por fim, o alerta mais preocupante de Paulo de Tarso transcende a eleição de 2026. Ele decreta que “estamos no fim da era Lula” e que o PT, assim como o Brasil, precisa urgentemente pensar em um projeto de país para o futuro, focado em educação e tecnologia, para não ser “atropelado pela história”. A ausência de um sucessor claro para Lula e a falta de um debate interno sobre o pós-Lula no partido são, para o marqueteiro, sinais de que a legenda corre o risco de se tornar irrelevante se não se reinventar para o “começo da era Brasil”.