Uma nova arquitetura de guerra está sendo desenhada no Golfo, uma guerra sem linhas de frente, travada não com tanques ou mísseis, mas com feixes de radar, feeds de satélite e coordenadas criptografadas. O campo de batalha hoje é o espectro eletromagnético, e ambos os lados lutam, acima de tudo, para cegar o outro.
Recentemente, três altos funcionários americanos revelaram ao The Washington Post que a Rússia está fornecendo ao Irã inteligência sensível, incluindo as localizações precisas de navios de guerra e aeronaves dos EUA que operam em todo o Oriente Médio. Embora o presidente russo, Vladimir Putin, tenha negado o compartilhamento de informações em um telefonema com Donald Trump, a realidade é que a inteligência se tornou uma moeda de troca. A Rússia, que recebeu drones e munições iranianas para sua guerra na Ucrânia, agora parece estar retribuindo o favor.
Para o Irã, que opera uma constelação limitada de satélites de reconhecimento militar, o acesso à avançada rede de vigilância russa, incluindo o satélite Kanopus-V (redesignado como “Khayyam” para uso iraniano), é um divisor de águas. Não se trata de um mero suplemento à sua capacidade militar, mas do sistema nervoso de sua doutrina de ataque de precisão.
O papel da China é mais discreto, mas não menos consequente. Pequim passou anos remodelando o cenário da guerra eletrônica do Irã, exportando sistemas de radar avançados, como o YLC-8B anti-stealth, e fazendo a transição da navegação militar iraniana do GPS americano para a constelação criptografada chinesa BeiDou-3. Além disso, o Irã está perto de adquirir 50 mísseis antinavio supersônicos CM-302, a variante de exportação do YJ-12 da China, apelidados de “assassinos de porta-aviões”.
Os Estados Unidos e Israel não estão passivos. Eles estão caçando. Equipes de inteligência rastreiam movimentos da liderança iraniana e mapeiam os nós de comando da Guarda Revolucionária. Nas fases de abertura das operações “Roaring Lion” e “Epic Fury”, eles destruíram a infraestrutura de radar iraniana com uma velocidade e precisão que expuseram a fragilidade da integração defensiva de Teerã.
Por décadas, o Golfo foi um teatro de esmagadora dominância tecnológica dos EUA e de Israel. Essa dominância não desapareceu, mas foi erodida, silenciosa e deliberadamente, por anos de transferências de hardware chinês e compartilhamento de inteligência russa. A China, por sua vez, trata o conflito como um laboratório de tiro real, coletando dados valiosos para um eventual confronto em Taiwan. A Rússia, por outro lado, vê a oportunidade de cobrar uma “dívida estratégica”, permitindo que o Irã sangre as forças americanas e esgote seus estoques de interceptadores.
A questão não é mais se o Golfo vai explodir. Já explodiu. A questão é quem conseguirá enxergar claramente quando a fumaça finalmente se dissipar.
Com informações da Al Jazeera (artigo de Jasim Al-Azzawi).