Maíra Santafé: Não é polarização, é disputa entre democracia e autoritarismo

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Como o uso distorcido da ideia de “polarização” cria falsas equivalências, confunde o eleitorado e alimenta a criminalização da política, enfraquecendo a compreensão do voto e das instituições democráticas como ferramentas de transformação social

Por Maíra Santafé*

Insisto em um ponto que considero fundamental para compreender o momento político brasileiro: chamar de “polarização” a disputa atual é, no mínimo, um equívoco analítico. E, mais do que isso, tornou-se parte de uma disputa de narrativa que acaba confundindo o eleitorado.

Para que exista polarização real, é necessário haver dois polos equivalentes em radicalidade ou posição política. No Brasil de hoje, isso simplesmente não corresponde à realidade. De um lado, há um campo que defende abertamente soluções autoritárias, flerta com a ruptura institucional e chegou a apoiar ataques às instituições democráticas, como ocorreu nos ataques de 8 de janeiro de 2023. De outro, está o campo democrático, que hoje se expressa em um governo de centro-esquerda eleito dentro das regras constitucionais, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva.

A insistência em enquadrar esse cenário como “polarização” não é apenas uma descrição neutra da realidade. A linguagem nunca é neutra. Esse ponto é amplamente discutido em áreas como a semiótica e a comunicação social, que analisam justamente como as palavras moldam percepções e organizam narrativas políticas.

Quando se usa a palavra “polarização”, cria-se automaticamente um efeito de equivalência. A imagem mental sugerida é a de dois extremos opostos e igualmente radicais disputando espaço. Na prática, isso produz o que estudiosos da comunicação chamam de simetrização discursiva: dois lados passam a ser percebidos como se ocupassem posições equivalentes no espectro político, mesmo quando suas posições e práticas são profundamente diferentes.

Esse enquadramento também alimenta outra narrativa recorrente: a ideia de que existiria um “centro moderado” capaz de salvar o país da suposta radicalização dos dois lados. Assim, desloca-se o debate do conteúdo político – ou seja, das propostas e posições concretas – para o próprio conflito, tratado como problema em si.

A semiótica ajuda a entender esse mecanismo. Palavras não apenas descrevem a realidade; elas produzem sentidos. Termos como “polarização”, “radicalização”, “extremos” ou “ambiente político tóxico” ativam interpretações específicas na mente do público. Ao repetir essas expressões, o debate público passa a ser estruturado por elas.

Outro conceito importante para compreender esse processo é o chamado “falso equilíbrio”. No jornalismo, ele ocorre quando posições muito diferentes – em termos de evidências, compromisso democrático ou base factual – são apresentadas como se tivessem o mesmo peso. Isso pode gerar a impressão de que todos os lados são igualmente responsáveis pela crise política.

O efeito sobre o eleitorado é conhecido. Quando se repete que o país vive uma polarização entre extremos, muitas pessoas passam a acreditar que “todos são iguais” ou que “os dois lados exageram”. Esse tipo de percepção frequentemente despolitiza o debate e desloca a atenção das questões centrais.

Esse tipo de narrativa acaba contribuindo também para outro problema grave: a criminalização generalizada da política. Quando se reforça a ideia de que todos os atores políticos são iguais ou que a política é, por natureza, um espaço de disputa egoísta entre extremos, abre-se caminho para desacreditar a própria ação política. E isso só interessa àqueles que não têm compromisso com o interesse coletivo.

Na prática, esse discurso favorece políticos que atuam movidos apenas por interesses pessoais ou de pequenos grupos e não por um projeto de país. Na minha visão, quem entra na política apenas para atender a interesses particulares não deveria estar na política. A política é, antes de tudo, uma ferramenta coletiva.

Mais do que isso: a política é provavelmente a ferramenta mais poderosa que uma sociedade possui para transformar a vida das pessoas. É por meio dela que se definem prioridades, investimentos públicos, políticas sociais e modelos de desenvolvimento.

Por isso, é fundamental que as pessoas compreendam que o voto tem consequências concretas no cotidiano. O voto influencia o preço do pão, do arroz e do feijão, dos combustíveis, das roupas, da medicação e de tantos outros aspectos da vida diária.

Quando escolhemos nossos representantes, estamos escolhendo qual projeto de país terá força para se concretizar. Dependendo da correlação de forças que sai das urnas, determinadas políticas públicas avançam, outras são interrompidas e algumas sequer chegam a existir.

Em tempos de intensa disputa de narrativas, compreender o papel da linguagem é fundamental. Não apenas para interpretar o debate público, mas também para evitar que palavras aparentemente neutras acabem mascarando diferenças profundas entre projetos de país.

No fim das contas, a política continua sendo o principal instrumento de transformação social. E quanto mais as pessoas entenderem o peso do próprio voto e a importância das escolhas coletivas, mais forte será a democracia.

*Maíra Santafé é jornalista, cantora, compositora e poetisa.

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