O bloqueio do Estreito de Ormuz e o agravamento da guerra no Oriente Médio recolocam o petróleo no centro do debate econômico global. Cerca de 20% de todo o petróleo do mundo passa por aquele corredor marítimo, e estimativas da IEA indicam que a produção global pode sofrer uma redução de até 8 milhões de barris por dia. O Brent, que já tocou 119 dólares o barril, opera na faixa de 97 dólares em março de 2026, e analistas projetam cenários de 110 a 150 dólares caso o conflito se prolongue.
Diante desse novo choque de oferta, os brasileiros se perguntam qual será o impacto sobre a economia nacional. Reunimos aqui os dados mais recentes de produção, consumo, comércio exterior e estoques globais para oferecer aos leitores um panorama técnico e fundamentado.
A produção mundial de petróleo encerrou 2025 em 106,8 milhões de barris por dia, com projeção de 108,6 milhões para a média de 2026. A demanda global situa-se em 104,6 milhões de barris por dia em 2025, com expectativa de 105,5 milhões em 2026. Até o início do conflito, portanto, o mercado operava com um colchão confortável de cerca de 2 milhões de barris por dia de excedente. Os estoques comerciais da OCDE somam 2,88 bilhões de barris em janeiro de 2026, o nível mais alto desde 2021. Somam-se a isso as reservas estratégicas, que incluem 370 milhões de barris nos Estados Unidos, cerca de 400 milhões na China e 1,5 bilhão no total dos países da IEA. A agência já autorizou a liberação emergencial de 400 milhões de barris para amortecer o choque.
Do ponto de vista estrutural, o Brasil é um dos países mais bem preparados no mundo para enfrentar um choque de oferta de petróleo. A produção nacional atingiu 3,77 milhões de barris por dia em 2025, novo recorde histórico, enquanto o consumo doméstico de derivados situa-se em torno de 2,3 milhões de barris por dia. Ou seja, o Brasil produz cerca de 64% mais petróleo do que consome em derivados.
Os números do comércio exterior confirmam essa posição. No acumulado de 12 meses de março de 2025 a fevereiro de 2026, o Brasil exportou 55,6 bilhões de dólares em petróleo, derivados e gás, importou 25,0 bilhões e registrou um saldo positivo de 30,6 bilhões de dólares. Para efeito de comparação, no período de março de 2021 a fevereiro de 2022, antes da guerra na Ucrânia, o saldo era de 15,3 bilhões. Ou seja, o superávit do setor dobrou em quatro anos. No período de março de 2022 a fevereiro de 2023, o saldo caiu para 14,6 bilhões mesmo com exportações recordes de 54 bilhões, porque a importação disparou para 39,5 bilhões com o choque de preços. A partir do período seguinte, março de 2023 a fevereiro de 2024, o saldo saltou para 29,3 bilhões e se manteve nesse patamar, chegando aos 30,6 bilhões atuais.
O governo federal, atento ao risco de desabastecimento interno em cenário de crise, já lançou medidas para regulamentar a relação entre exportação e abastecimento doméstico, de modo a garantir que o petróleo produzido no Brasil sirva primeiro à economia nacional.
Apesar da posição confortável no petróleo bruto, o Brasil carrega um problema estrutural que sucessivos governos tentaram enfrentar. A capacidade de refino é insuficiente para atender a demanda interna de derivados. A produção de derivados nas refinarias brasileiras gira em torno de 1,8 milhão de barris por dia, contra um consumo de 2,3 milhões, gerando um déficit de aproximadamente 0,5 milhão de barris por dia. O principal gargalo é o diesel, do qual o Brasil importa cerca de 20% do que consome. É esse o flanco vulnerável. Em um cenário de choque de oferta global, o preço dos derivados importados pode disparar, pressionando custos de frete, alimentos e a inflação em geral.
A trajetória da produção de derivados é reveladora. Até dezembro de 2014, a produção nas refinarias brasileiras crescia de forma consistente, atingindo o pico histórico de 66,3 milhões de barris por mês em média móvel de 12 meses. A partir de 2015, com a Operação Lava Jato e a paralisação dos investimentos no parque de refino, a produção despencou para 54,5 milhões de barris por mês no final de 2018, uma queda de 18%. Durante o governo Bolsonaro, de 2019 a 2022, a produção estagnou no patamar baixo, com lenta recuperação apenas no período final. No governo Lula III, a partir de 2023, o refino retomou fôlego e hoje opera em torno de 65 milhões de barris por mês, próximo do pico de 2014, mas ainda sem superá-lo.
Enquanto o refino patinava, a produção de gás natural brasileira viveu uma expansão extraordinária. De 1.474 milhões de metros cúbicos por mês em 2006 para 5.536 milhões em janeiro de 2026, um crescimento de 276% em 20 anos, impulsionado pela produção associada do pré-sal. Ainda assim, o Brasil segue deficitário em gás natural, importando cerca de 3,3 bilhões de dólares nos últimos 12 meses, sobretudo da Bolívia.
Analistas trabalham com três cenários para o preço do Brent em 2026. No cenário base, entre 90 e 100 dólares, o saldo comercial se mantém e a pressão sobre o diesel é moderada. No cenário de guerra prolongada, entre 110 e 130 dólares, as exportações sobem mas o diesel importado encarece significativamente. No cenário de choque severo, na faixa de 150 dólares, o risco inflacionário se torna concreto e o governo pode acionar reservas. A gasolina já está em 5,70 reais por litro e o diesel em 6,10, segundo a ANP.
O Brasil está entre os países mais bem posicionados para enfrentar um choque global de petróleo. Produzimos mais do que consumimos, temos um superávit comercial robusto de mais de 30 bilhões de dólares anuais no setor, e a produção segue em trajetória ascendente. Mas o déficit estrutural de derivados, em especial o diesel, permanece como o principal ponto de vulnerabilidade. A retomada do investimento no parque de refino, interrompida pela Lava Jato e postergada por anos, é o desafio que definirá o grau real de segurança energética do país nos próximos anos.