Por que a Ucrânia, que já sangra numa guerra alheia, quer se meter em outra?
Como se não bastasse o sacrifício diário de vidas ucranianas no altar de uma guerra que serve aos interesses de Washington, Zelensky decidiu que seu país tem sangue de sobra para doar em mais uma frente. Desta vez, no Oriente Médio, contra o Irã.
A informação é confirmada por Newsweek, The Hill, Euronews e Kyiv Post: Zelensky anunciou o envio de especialistas militares em drones interceptadores para a região do Golfo, com o objetivo de ajudar americanos, israelenses e aliados árabes a derrubar os drones iranianos Shahed — os mesmos que a Rússia usa para bombardear cidades ucranianas desde 2022. Onze países pediram a ajuda de Kiev. Equipes ucranianas, acompanhadas pelo ministro da Defesa Rustem Umerov, já estão a caminho.
A resposta de Teerã foi imediata. No sábado, Ebrahim Azizi — presidente da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento iraniano — avisou no X: ao fornecer apoio com drones a Israel, a Ucrânia se tornou parte beligerante e, nos termos do Artigo 51 da Carta da ONU, transformou todo o seu território em alvo legítimo para o Irã.
O Artigo 51 é o mesmo que os Estados Unidos invocaram para invadir o Afeganistão. O mesmo que Israel usa para justificar suas operações. O coringa jurídico favorito do Ocidente — agora na mão de Teerã, apontado para Kiev.
A quem essa decisão serve?
A Ucrânia está em guerra há mais de quatro anos. Cidades bombardeadas, economia sustentada por empréstimos ocidentais, Forças Armadas no limite. E Zelensky resolve oferecer especialistas e equipamentos para um conflito a milhares de quilômetros de distância.
Não serve ao povo ucraniano. Serve à sobrevivência política de Zelensky, que precisa se manter relevante para Washington num momento em que o apoio americano está longe de ser garantido. É uma tentativa de comprar boa vontade com sangue ucraniano — desta vez, no deserto.
E nem isso funcionou. Trump dispensou a oferta na Fox News: “Não precisamos da ajuda deles. Sabemos mais sobre drones do que qualquer um.” Zelensky respondeu com um “retórica é retórica”. O recado, porém, foi claro.
O contexto é grave. A guerra EUA/Israel contra o Irã está na terceira semana, com pelo menos três mil mortos e três milhões de deslocados. Teerã responde com mísseis e drones contra Israel e bases americanas no Golfo. O Estreito de Ormuz está bloqueado. É neste caldeirão que Zelensky decidiu enfiar a Ucrânia — um país que já enfrenta uma potência nuclear em casa e agora provoca outra do outro lado do mapa, sem exército de sobra, sem economia própria e sem garantia de que Washington vá retribuir o favor.
A declaração de Azizi não é bravata. É advertência formal, do tipo que antecede escaladas concretas. A Ucrânia já paga um preço altíssimo por uma guerra que, como argumentam vozes de Chomsky a Mearsheimer e ao Papa Francisco, poderia ter sido evitada. Se Zelensky insistir em abrir uma segunda frente contra o Irã, quem pagará a conta — mais uma vez — será o povo ucraniano.
O alerta está dado. Ignorá-lo pode transformar uma tragédia em catástrofe.