O governo brasileiro iniciou um processo de reforço da capacidade militar do país, com investimentos de R$ 1,27 bilhão na compra de mísseis anticarro e blindados, refletindo a decisão do presidente Lula de fortalecer o Sistema Nacional de Defesa diante de um cenário internacional cada vez mais instável.
A aquisição faz parte de um esforço para modernizar as forças terrestres e preparar o país para enfrentar ameaças contemporâneas e futuras. A decisão ocorre em um contexto de crescente tensão geopolítica e de erosão das regras que, durante décadas, organizaram o sistema internacional.
Os dados foram fornecidos pelo Exército brasileiro por meio da Lei de Acesso à Informação.
Segundo a Força, 220 mísseis anticarro foram adquiridos em 2025, ao custo de R$ 153,8 milhões. Parte deles corresponde a 100 mísseis Javelin FGM-148F, obtidos por meio de acordo com o governo dos Estados Unidos.
Outro lote inclui 120 mísseis AC Max 1.2, fabricados no Brasil pela empresa SIATT, sediada em São José dos Campos.
O objetivo dessas aquisições é ampliar a capacidade de dissuasão do país em cenários de combate terrestre. Experiências recentes de conflitos internacionais também influenciaram o planejamento militar brasileiro.
A guerra entre Rússia e Ucrânia demonstrou a eficácia de sistemas portáteis anticarro para conter colunas de blindados. Já nos conflitos na Palestina, o uso desse tipo de armamento em áreas urbanas reforçou a importância de armas capazes de neutralizar forças mecanizadas superiores.
Além dos mísseis, o Exército adquiriu 163 veículos blindados entre 2023 e 2026, com gasto total de R$ 1,12 bilhão.
A maioria dos veículos corresponde ao VBTP Guarani 6×6, blindado anfíbio fabricado no Brasil pela empresa IDV Brasil, em Sete Lagoas (MG).
O Guarani pesa cerca de 18 toneladas, pode atingir 110 km/h, tem autonomia de 600 quilômetros e é capaz de operar tanto em terrenos irregulares quanto em travessias de rios.
A produção do veículo faz parte de um contrato maior, estimado em R$ 7,5 bilhões, que prevê a fabricação de centenas de unidades até 2040.
Militares apontam que o principal gatilho estratégico para acelerar esse processo foi a crise envolvendo Venezuela e Guiana, iniciada em 2023 com a disputa territorial pela região de Essequibo.
Na época, setores de inteligência brasileiros avaliaram a possibilidade de tropas venezuelanas atravessarem território brasileiro em eventual ofensiva terrestre contra a Guiana. O Brasil chegou a mobilizar tropas, aviões e blindados para a região de Roraima.
Desde então, o cenário regional mudou drasticamente.
No início deste ano, os Estados Unidos realizaram um ataque militar em Caracas e capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro, levado para Nova York para julgamento. A operação, considerada por muitos analistas como uma intervenção sem precedentes na América do Sul, provocou forte preocupação diplomática na região.
Para o governo brasileiro, o episódio evidenciou o grau de deterioração das normas internacionais.
O sequestro de um chefe de Estado por uma potência estrangeira representa uma ruptura grave com os princípios da soberania e da não-intervenção que sustentam o direito internacional desde a Segunda Guerra Mundial.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos intensificaram ataques militares contra o Irã, ampliando um ciclo de confrontos que vem fragilizando ainda mais a ordem global.
Nesse contexto de crescente instabilidade, o presidente Lula tem defendido que o Brasil, embora seja um país historicamente pacífico, precisa reforçar sua capacidade de defesa.
Durante encontro recente com o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, Lula alertou que a América do Sul sempre se apresentou como uma região de paz, mas que nenhum país pode ignorar os riscos de um mundo em rápida transformação.
Para o governo brasileiro, as aventuras militares das grandes potências e o enfraquecimento das instituições internacionais tornam cada vez mais necessário que países emergentes reforcem sua autonomia estratégica.
O objetivo não é militarizar o país, mas garantir que o Brasil tenha capacidade de proteger sua soberania, seu território e seus recursos diante de um cenário global que se tornou mais imprevisível.
Em um mundo cada vez mais marcado pela força bruta e pelo desprezo às regras internacionais, a reconstrução do sistema nacional de defesa passa a ser vista em Brasília como uma condição básica para preservar a paz.