Donald Trump costuma dizer que a transição energética é uma farsa. Em seus discursos, ele afirma que a chamada energia verde seria uma fraude ou enganação, enquanto o verdadeiro poder econômico continuaria sendo o petróleo, o carvão e o gás.
Se a China tivesse levado esse tipo de raciocínio a sério, hoje estaria numa posição extremamente vulnerável. Como maior importadora de petróleo do planeta, qualquer guerra no Golfo poderia provocar um choque energético devastador para a economia chinesa.
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã mostra justamente o contrário. A aposta chinesa em reduzir sua dependência de combustíveis fósseis começa a se revelar uma vantagem estratégica num momento em que rotas energéticas globais voltam a entrar em risco.
Durante mais de uma década, o governo chinês tratou a transição energética não apenas como política ambiental. Ela foi pensada também como instrumento de segurança nacional e de autonomia geopolítica.
Esse raciocínio aparece no chamado plano “30-60”, que estabelece duas metas centrais: atingir o pico de emissões de carbono até 2030 e alcançar neutralidade climática até 2060. A estratégia faz parte da construção de um novo sistema energético nacional baseado em eletrificação e fontes renováveis.
Segundo análise publicada pelo South China Morning Post, a atual crise no Golfo tende a gerar turbulência nos mercados, mas não deve provocar uma ruptura grave no abastecimento energético da China. A combinação de diversificação de fornecedores, reservas estratégicas e expansão das energias renováveis funciona como amortecedor contra choques externos.
O conflito ocorre justamente quando Pequim realiza as chamadas “duas sessões”, reuniões anuais do parlamento chinês que discutem as diretrizes do próximo plano quinquenal. A segurança energética aparece como um dos temas centrais nas discussões da liderança chinesa.
Nas últimas duas décadas, a expansão industrial do país exigiu um crescimento gigantesco da geração de eletricidade. Segundo dados citados pela Agência Internacional de Energia, a produção elétrica per capita da China aumentou mais de 550% desde o início do século.
Esse crescimento teve custos ambientais relevantes. O carvão ainda responde por mais de 60% da geração elétrica chinesa, e o setor energético é responsável por cerca de 90% das emissões de gases de efeito estufa do país.
Diante desse quadro, Pequim enfrentou um dilema estratégico. Ou desaceleraria o crescimento econômico ou reduziria gradualmente sua dependência de combustíveis fósseis enquanto construía uma nova base energética.
A liderança chinesa optou pela segunda alternativa. O país passou a investir massivamente em energia solar, eólica, nuclear e em tecnologias de armazenamento e transmissão elétrica.
Hoje, a China possui mais capacidade instalada de energia renovável do que o restante do mundo combinado. Apenas em 2024, instalou 278 gigawatts de energia solar, superando toda a capacidade solar então existente nos Estados Unidos.
No total, o país já conta com cerca de 888 gigawatts de energia solar e 522 gigawatts de energia eólica. Ao mesmo tempo, domina grande parte da cadeia industrial dessas tecnologias.
A China responde por mais de 80% da produção mundial de painéis solares e cerca de 60% das turbinas eólicas. Também lidera setores estratégicos como baterias, veículos elétricos e redes de transmissão de ultra-alta tensão.
Embora essa transformação tenha impacto ambiental importante, o cálculo chinês sempre foi também geopolítico. A dependência de petróleo importado foi vista durante décadas como uma vulnerabilidade estratégica.
Grande parte desse petróleo atravessa o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais sensíveis do planeta. Qualquer guerra ou bloqueio nessa região poderia comprometer seriamente o abastecimento energético de vários países.
Mesmo assim, Pequim construiu amortecedores importantes contra esse tipo de risco. Segundo estimativas citadas pelo South China Morning Post, a China possui reservas estratégicas suficientes para cerca de 124 dias de consumo sem novas importações.
Além disso, estoques globais mantidos fora da China e da Índia somam cerca de 2 bilhões de barris, o que representaria aproximadamente 125 dias adicionais de suprimento proveniente do Golfo. Isso reduz o risco de um choque imediato em caso de interrupção das rotas marítimas.
O país também diversificou seus fornecedores de energia. Nos últimos anos, ampliou importações da Rússia, através do gasoduto Power of Siberia, e passou a comprar petróleo de produtores como Brasil, Guiana e Canadá.
Até agora, os mercados não indicam uma crise energética fora de controle. Embora o petróleo possa se aproximar de US$ 100 por barril, a volatilidade ainda está muito abaixo de crises históricas como o embargo petrolífero de 1973 ou a Guerra do Golfo de 1990.
Para a liderança chinesa, a crise atual funciona como um teste de estresse geopolítico. Ela reforça a percepção de que segurança energética, política industrial e transição tecnológica são dimensões inseparáveis de uma mesma estratégia nacional.
O conflito também deve entrar na pauta do encontro previsto entre Xi Jinping e Donald Trump, em Pequim, no fim do mês, caso a escalada militar não inviabilize a reunião. Mais do que um episódio regional, a guerra no Golfo reacende a disputa sobre quem controlará as bases energéticas da economia global nas próximas décadas.
Nesse terreno, a China parece ter entendido algo essencial: reduzir dependências estratégicas pode ser tão importante quanto ampliar poder militar. E, no mundo que emerge das crises energéticas, quem liderar a nova matriz energética terá vantagem decisiva.
Informações do South China Morning Post: o artigo de David Dodwell, publicado em 6 de março de 2026, argumenta que a guerra no Irã funciona como validação da estratégia chinesa de segurança energética. O texto destaca as reservas estratégicas chinesas, a diversificação de fornecedores e a liderança do país em energia solar, eólica, veículos elétricos, baterias e redes de transmissão de alta capacidade.


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