Talvez não devêssemos nem estar lá

Crédito: Divulgação Casa Branca.

Surreal.

Trump deflagrou a maior guerra no Oriente Médio desde a invasão do Iraque e agora conclui, com ar de revelação, que talvez nem precisasse estar ali.

A declaração foi dada a repórteres a bordo do Air Force One. O planeta inteiro já sente o impacto do conflito.

“Realmente, estou exigindo que esses países venham e protejam o próprio território, porque é território deles… eles deveriam nos ajudar. Você poderia fazer o caso de que talvez não devêssemos estar lá de jeito nenhum, porque não precisamos. Temos muito petróleo.”

“Temos muito petróleo.” Só que o resto do mundo não tem.

Na mesma entrevista, Trump cobrou ajuda internacional para lidar com a crise no Golfo. O presidente pressionou aliados e potências globais a participarem da proteção das rotas marítimas.

Ele mencionou diretamente a China e disse que Pequim deveria ajudar a garantir a segurança da região. Também pediu ao Reino Unido que se envolva mais diretamente.

Trump chegou ainda a lançar um aviso à OTAN. Disse que, se a aliança não ajudar a liberar o Estreito de Ormuz, o futuro poderá ser “muito ruim”.

Enquanto isso, a guerra já produz efeitos econômicos gigantescos. Segundo o CSIS, os Estados Unidos gastaram US$ 16,5 bilhões em apenas 12 dias da Operação Epic Fury.

Esse valor cobre apenas o custo operacional direto. Entram na conta munições, interceptores e operações aéreas e navais.

Não estão incluídas a mobilização prévia de tropas nem a reposição de estoques militares. Também ficam de fora os danos em bases americanas atingidas por mísseis iranianos no Catar, nos Emirados e no Bahrein.

O Penn Wharton Budget Model estima que uma guerra de dois meses pode custar entre US$ 40 bilhões e US$ 95 bilhões ao contribuinte americano. O impacto econômico total pode chegar a US$ 210 bilhões.

Mesmo assim, esses cálculos consideram apenas os Estados Unidos. O prejuízo global é muito maior.

O Estreito de Ormuz não está formalmente fechado. O Irã afirma que embarcações de países que não estão em guerra podem atravessar normalmente.

Na prática, porém, o custo dos seguros marítimos disparou. A navegação comercial ficou extremamente reduzida.

Por ali passam cerca de 20% do petróleo mundial. Também transitam um quinto do gás natural liquefeito do planeta e quase um terço dos fertilizantes comercializados globalmente.

O barril de Brent estava na faixa de US$ 70 antes da guerra. No dia 9 de março ultrapassou US$ 119 no pico intradiário.

Desde então permanece acima de US$ 100. A pressão já começa a atingir consumidores em vários países.

Em São Francisco, o galão de gasolina chegou a US$ 6,50. O aumento dos combustíveis começa a se espalhar pelos mercados.

O Irã, alvo direto dos bombardeios, já acumula perdas de dezenas de bilhões de dólares. Infraestruturas estratégicas vêm sendo destruídas em diferentes regiões do país.

A QatarEnergy, segunda maior exportadora de GNL do mundo, suspendeu a produção. Isso provoca efeitos imediatos nos mercados globais de gás, fertilizantes e hélio.

Mais de 46 mil voos foram cancelados na região. Aeroportos como Dubai e Doha operam com capacidade drasticamente reduzida.

Esses hubs são centrais para o turismo e a logística internacional. A paralisação atinge cadeias globais de transporte e comércio.

O preço da ureia, fertilizante nitrogenado essencial para a agricultura, subiu 35% desde 28 de fevereiro. Os países do Golfo respondem por quase metade das exportações mundiais desse produto.

Eles também concentram cerca de 30% das exportações globais de amônia. A pressão já chega aos custos agrícolas.

O bloqueio do Estreito também cortou cerca de 45% da oferta mundial de enxofre. O material é essencial para fertilizantes, mineração e produção de ácido sulfúrico.

Agricultores americanos, europeus e brasileiros já começam a sentir a alta dos insumos. O impacto tende a chegar aos alimentos.

A Oxford Economics calcula que, se o barril permanecer próximo de US$ 140 por dois meses, partes da economia global podem entrar em recessão. Energia, agricultura e transporte seriam atingidos simultaneamente.

E Trump diz que “temos muito petróleo”.

A frase resume uma lógica simples. Se os Estados Unidos não dependem do petróleo do Golfo, então o problema seria dos outros.

O custo para o mundo, porém, já caminha para centenas de bilhões de dólares. Somam-se destruição de infraestrutura, crise energética e paralisação de cadeias logísticas.

E a guerra ainda não acabou.

“Talvez não devêssemos nem estar lá.”

Redação:
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