Menu

“Artista é o caralho!”; o capitalismo descobriu como explorar até o cérebro

Você provavelmente faz parte de uma nova classe social — mesmo que ainda não tenha percebido. É a turma que trabalha com ideias, criatividade, conhecimento e imaginação. O cérebro virou ferramenta de produção. Mas há um detalhe curioso nessa nova economia: as ideias podem valer bilhões… enquanto quem as cria continua tentando pagar o aluguel. […]

sem comentários
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News
O Capitalismo descobriu como explorar até o cérebro
Ser artista no Brasil é ter dois empregos: criar… e explicar que isso é trabalho / Reprodução

Você provavelmente faz parte de uma nova classe social — mesmo que ainda não tenha percebido. É a turma que trabalha com ideias, criatividade, conhecimento e imaginação. O cérebro virou ferramenta de produção. Mas há um detalhe curioso nessa nova economia: as ideias podem valer bilhões… enquanto quem as cria continua tentando pagar o aluguel. Neste artigo, vamos falar do cognitariado — essa classe invisível que move a economia criativa — passando pelo diagnóstico de Fernando Haddad em Capitalismo Superindustrial, pela música ácida de Rubinho Jacobina e pelo curioso contraste entre a França, que decidiu proteger seus artistas, e o Brasil, que ainda parece achar que aplauso paga conta.

Por Rollo — ator e trabalhador da cultura. Escreve do front do chamado cognitariado: a tribo que vive de pensar, criar e imaginar — e que, mesmo assim, ainda precisa explicar que arte também é trabalho. Entre um ensaio e um set, observa com ironia o paradoxo do século XXI: a criatividade virou motor da economia, mas quem cria continua tentando convencer o mundo de que inspiração também paga boleto.


Existe uma palavra que parece saída direta de uma tese universitária de 400 páginas — dessas que dão dor de cabeça antes mesmo do sumário: cognitariado. Respira. Não precisa de dicionário, nem de Rivotril, nem de dois cafés seguidos. A tradução para o português de botequim é simples: cognitariado é o proletariado da cabeça. É a turma que trabalha com ideias, criatividade, informação, cultura, conhecimento. Programadores. Designers. Professores. Roteiristas. Pesquisa-dores. Músicos. Atores. Gente que produz valor com o cérebro, não com a marreta. A economia digital vive disso. Aliás, respira disso. Depende disso. Lucra disso. Mas existe um pequeno detalhe — desses que o PowerPoint do capitalismo evita mencionar: a cabeça produz riqueza. Mas quem captura essa riqueza… geralmente é outro. O cognitariado cria. Alguém monetiza.

O capitalismo que explora o cérebro

            Esse fenômeno aparece com clareza no livro Capitalismo Superindustrial, do economista e ministro da Fazenda Fernando Haddad. A tese central do livro é elegante e assustadora ao mesmo tempo: o capitalismo evoluiu, não no sentido moral. No sentido operacional. Antes ele explorava principalmente músculo. Agora explora também mente. Segundo Haddad, ciência, tecnologia, criatividade e conhecimento passaram a ser fatores centrais de produção. Ou seja: antes o capital explorava o operário da fábrica. Agora explora também o designer, o roteirista, o artista, o pesquisador, o programador. O capitalismo industrial virou algo mais sofisticado. Mais elegante. Mais silencioso. E, claro, mais eficiente em capturar criatividade humana.  Haddad chama isso de capitalismo superindustrial. Tradução livre: o capitalismo descobriu que ideias também podem ser mineradas.

Artista: herói romântico ou trabalhador precarizado?

Rubinho Jacobina e a Força Bruta – Artista é o K / Via Youtube

            Aqui entra uma música que muita gente da área cultural conhece como quem conhece o caminho do bar depois do ensaio. A canção “Artista é o Caralho”, do compositor carioca Rubinho Jacobina. Rubinho não caiu de paraquedas no mundo da música. Ele é irmão do compositor Nelson Jacobina, coautor do clássico Maracatu Atômico. Ou seja, uma família musical raiz. Mas a música de Rubinho faz algo raro no Brasil. Ela rasga o verniz romântico da arte. Sai o gênio inspirado de boina. Entra o artista da vida real. Aquele que trabalha muito, ganha pouco, e ainda ouve que deveria agradecer pela “visibilidade”. É uma crônica musical da precariedade cultural brasileira. E quem trabalha com arte sabe que aplauso é lindo. Mas o proprietário do imóvel prefere PIX.

França: o país que levou a cultura a sério

            Agora vamos atravessar o Atlântico. Na França existe um sistema chamado Intermittence du spectacle. Ele nasceu em 1936, durante o governo da Frente Popular na França. O diagnóstico foi simples e brutalmente honesto: arte não é trabalho contínuo. Um ator faz uma temporada e depois fica meses sem contrato. Um músico grava um disco e depois passa um tempo vivendo de streaming que paga centavos. Então os franceses fizeram algo radical. Algo que, para muitos países, parece quase ficção científica administrativa: reconheceram que arte é trabalho e criaram um seguro-desemprego específico para trabalhadores do espetáculo. E funciona assim: o artista precisa comprovar 507 horas de trabalho em 12 meses. Se atingir esse mínimo, passa a receber uma renda quando estiver sem contrato. Ou seja, trabalha quando há espetáculo e recebe apoio quando não há. Simples.  Civilizado. Quase escandalosamente racional. Hoje mais de 120 mil profissionais participam do sistema. E não é coincidência que a França tenha uma das cenas culturais mais fortes do planeta. Quando o artista consegue sobreviver, ele também consegue criar. Ideia revolucionária, eu sei.

Brasil: o país do talento sem estrutura

            Agora voltamos para casa. Aqui o artista brasileiro viveu durante décadas basicamente de três coisas: cachê, edital e  milagre. Às vezes nessa ordem. Às vezes só o terceiro. A tentativa mais próxima de mudar isso foi o PL 211/2010, que propunha incluir artistas no seguro-desemprego. A ideia era simples, quase ingênua. Comprovou atividade artística? Recebe benefício quando estiver sem contrato. Resultado? O projeto foi arquivado. Motivo oficial: “falta de fonte de custeio, de  financiamento”. Tradução do juridiquês para o português claro: o país que consegue mobilizar bilhões para salvar banco em crise achou caro proteger atores, músicos e técnicos de teatro. Prioridades são uma forma de poesia política.

A pandemia e o momento de lucidez

            Foi preciso um vírus parar o planeta para que o Brasil percebesse o óbvio. Sem espetáculo. Sem cinema. Sem show. Sem teatro. Milhares de trabalhadores culturais ficaram instantaneamente sem renda. Foi então que surgiu a Lei Aldir Blanc. Ela garantiu renda temporária para artistas e revelou algo que o setor já sabia há décadas: o trabalho cultural é estruturalmente intermitente. A pandemia apenas tirou o disfarce.

Cognitariado: a classe invisível

            Voltamos ao começo. O cognitariado é a classe que trabalha com conhecimento. Mas há um detalhe cruel: ele é altamente qualificado, frequentemente criativo, quase sempre apaixonado pelo que faz. E, ainda assim, economicamente frágil.  O artista talvez seja o exemplo mais extremo disso: produz cultura, identidade, linguagem, imaginação, memória coletiva. Mas raramente tem proteção social. É o trabalhador da mente vivendo em condições quase artesanais. O cérebro virou meio de produção mas o sistema ainda trata o artista como se estivesse fazendo hobby.

Entre a poesia e o boleto

            Talvez por isso a música de Rubinho Jacobina continue atual. Porque ela lembra algo que o romantismo cultural prefere esconder. Artista também paga aluguel, compra comida, precisa sobreviver. O cognitariado pode trabalhar com ideias. Mas o supermercado ainda não aceita pagamento em inspiração, conceito, sensibilidade artística. A caixa do mercado continua exigindo cartão. Ou dinheiro.

A pergunta que fica

            Se a economia do século XXI depende cada vez mais de conhecimento… Se criatividade virou motor econômico… Se cultura movimenta bilhões… Então surge uma pergunta inevitável: por que ainda tratamos quem produz cultura como amador heroico? A França respondeu essa pergunta há quase noventa anos. O Brasil ainda está pensando no assunto. Enquanto isso, o cognitariado segue trabalhando. Com a cabeça cheia de ideias. E o bolso cheio de boletos! Se você chegou até aqui, provavelmente faz parte dessa tribo. A tribo que cria. A tribo que insiste. A tribo que mantém o mundo cultural girando mesmo quando o sistema finge que não percebe. Bem-vindo ao cognitariado.


(*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJna cadeira do Audiovisual. Atualmente, integra o elenco do espetáculo teatral “O Bem Amado”, de Dias Gomes, ao lado de Diogo Vilela, com direção de Marcus Alvisi.

, , , , , , , , , , , ,
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário

Escreva seu comentário

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!


Leia mais

Recentes

Recentes