Deputada usou idosa analfabeta como laranja para fraudar aposentados

Esquema criminoso no INSS colocou uma pensionista de 72 anos como presidente fantasma de associação que movimentava milhões.

Uma operação da Polícia Federal revelou um dos aspectos mais perversos do esquema de fraudes contra aposentados do INSS.

A deputada federal Maria Gorete Pereira, do MDB do Ceará, passou a usar tornozeleira eletrônica após decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.

O alvo central da investigação é a Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional, a Aapen, sediada em Fortaleza. A entidade descontava mensalidades diretamente dos benefícios de quase 492 mil associados, em operações ilegais que somavam milhões de reais por mês.

O que torna o caso ainda mais grave é a figura que aparecia formalmente como presidente da associação. Francisca da Silva de Souza tem 72 anos, é analfabeta, viúva, mora na periferia de Fortaleza e complementa sua aposentadoria fazendo manicure.

Segundo apuração do portal G1, Francisca chegou ao cargo por meio de uma fraude dentro da fraude. Ela foi abordada em 2023 por uma mulher chamada Liduína, que a convenceu de que teria direito a um empréstimo.

Essa mulher a levou até um grupo de advogados, onde Francisca assinou documentos acreditando estar garantindo um crédito financeiro. O que ela não sabia é que, ao assinar aqueles papéis, se tornava presidente de uma das maiores associações suspeitas do país.

Logo depois, centenas de cartas de cobrança começaram a chegar ao seu endereço. Mais de 200 processos judiciais passaram a tramitar em seu nome na Justiça.

Sem entender o que estava acontecendo, Francisca procurou a Defensoria Pública do Ceará em agosto do ano passado. O órgão ajuizou uma ação na Justiça estadual descrevendo a situação como uma fraude deliberada contra uma pessoa em extrema vulnerabilidade.

"Não se trata de presidente ou administradora de qualquer associação, mas sim de uma hipervulnerável enganada por pessoas inescrupulosas", afirmou a Defensoria no processo. O órgão classificou Francisca como uma "laranja" colocada no cargo sem qualquer consciência do que isso significava.

Para provar que foi enganada, a idosa apresentou à Justiça trocas de mensagens e áudios com os advogados envolvidos. Em uma conversa de maio de 2025, ela demonstrava medo de ter o CPF cancelado em razão das cobranças, e um dos advogados a tranquilizava dizendo que esse risco não existia.

A investigação da PF aponta que a deputada Gorete Pereira era peça central no funcionamento do esquema. Segundo a corporação, ela atuava como "articuladora política junto a órgãos públicos" e recebia valores por meio de intermediários e empresas de fachada.

O documento encaminhado ao STF descreve que a parlamentar "utilizava influência política para viabilizar acordos com o INSS e manter contato direto com autoridades administrativas". Ela também pressionava servidores para acelerar processos que beneficiavam as associações investigadas.

A defesa de Gorete Pereira nega todas as irregularidades e afirma que as informações da investigação "não refletem a realidade dos fatos".

Além da deputada, a PF prendeu preventivamente a advogada Cecília Rodrigues da Mota, que presidiu a Aapen antes de Francisca ser colocada no cargo. O empresário Natjo de Lima Pinheiro também foi alvo da operação.

De acordo com a PF, o trio controlava ao menos quatro entidades diferentes, todas operando com o mesmo modelo. As associações AAPB, CAAP, Aapen e Probasp tinham presidentes e diretorias formais que eram apenas laranjas.

O controle real era exercido por Natjo, Cecília e Gorete por meio de procurações, subordinados estratégicos e domínio absoluto sobre os recursos financeiros.

A Aapen encerrou suas atividades em abril do ano passado, três dias depois de outra operação da PF, chamada Sem Desconto. O fechamento das sedes criou um novo obstáculo para as vítimas: sem endereço para intimação, a Justiça não consegue notificar as entidades nos processos movidos por aposentados que pedem ressarcimento.

O governo federal criou um plano nacional de ressarcimento, mas a iniciativa é criticada por advogados que atuam na área. A principal queixa é que o plano não garante o pagamento de indenizações, apenas a devolução dos valores descontados indevidamente.

Centenas de aposentados que já obtiveram decisões favoráveis na Justiça seguem sem receber. Os responsáveis pelas associações não foram localizados pela Justiça a tempo de cumprir as sentenças.

O caso expõe um padrão que se repete no escândalo mais amplo das fraudes no INSS: associações criadas para sugar recursos de trabalhadores pobres, sustentadas por influência política, protegidas por laranjas vulneráveis e esvaziadas quando a investigação bate à porta.

Francisca da Silva de Souza, que nunca quis ser presidente de nada, ainda aguarda uma resposta da Justiça sobre sua situação. Ela é, ao mesmo tempo, vítima e personagem involuntária de um dos maiores esquemas de corrupção contra aposentados da história recente do Brasil.

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