“Esta guerra não é nossa”: a voz firme de Abbas Araqchi e a resistência do Irã

Em entrevista à Al Jazeera, o chanceler do Irã, Abbas Araqchi, afirmou que a guerra “não foi escolhida” por seu país. Crédito: Youtube/Al Jazeera

Em meio ao 19º dia da guerra iniciada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã em 28 de fevereiro, o chanceler iraniano Abbas Araqchi concedeu nesta quarta-feira, 18 de março, uma entrevista à Al Jazeera que merece atenção especial. A fala do ministro combina sangue-frio, firmeza política e uma clareza rara em tempos de propaganda, bombardeios e histeria imperial.

Araqchi não falou como um burocrata acuado. Falou como representante de um Estado sob ataque, de um povo ferido e de uma civilização que se recusa a se ajoelhar.

A frase que melhor resume o espírito da entrevista veio logo ao centro da conversa: “Esta guerra não é nossa”. E ele foi além: “Nós não a começamos. Os Estados Unidos a começaram e são responsáveis por todas as consequências desta guerra – humanas e financeiras – seja para o Irã, para a região ou para o mundo inteiro.”

Há, nessa formulação, um ponto político essencial. O Irã procura deslocar o debate da caricatura ocidental, que sempre tenta apresentar a vítima como culpada, e recolocar a questão em seus termos reais: trata-se de uma agressão imperial, com participação direta de Washington e Tel Aviv, contra um país soberano.

O chanceler também respondeu ao assassinato de Ali Larijani com uma serenidade que impressiona. Em vez de dramatizar a perda individual, afirmou que a estrutura da República Islâmica é sólida e que “a presença ou a ausência de um único indivíduo não afeta essa estrutura”.

Essa talvez tenha sido uma das mensagens mais fortes de resistência da entrevista. Israel e Estados Unidos apostam no terror seletivo, no assassinato de dirigentes e na destruição de centros de comando para produzir colapso político.

Araqchi respondeu dizendo, em outras palavras, que o Irã não é um castelo de cartas. É um sistema estatal, político e social com densidade histórica, institucional e nacional suficiente para absorver golpes sem se dissolver.

Outro trecho poderoso veio quando o jornalista perguntou se ele próprio temia ser alvo. A resposta foi seca, digna e memorável: “Estamos firmes e trabalhando pelos objetivos e interesses do nosso país. E não hesitamos em dar a vida por isso, se necessário.”

É difícil não reconhecer a qualidade política dessa resposta. Não há fanfarronice, não há teatralidade, não há retórica vazia.

Há senso de dever. Há consciência histórica.

Há, sobretudo, a compreensão de que uma nação atacada precisa de porta-vozes à altura de sua tragédia e de sua resistência. Abbas Araqchi aparece, nessa entrevista, exatamente assim: como um quadro político de alto nível, capaz de defender seu país com firmeza, coerência e inteligência estratégica.

Ao longo da entrevista, ele também tentou recentrar o olhar internacional sobre aquilo que a mídia ocidental prefere esconder. Segundo Araqchi, hospitais, escolas, prédios residenciais, professores, cientistas e civis têm sido atingidos; ele cita 53 hospitais atacados e lembra o massacre de 168 alunos em uma escola de Minab.

Os números gerais da guerra variam conforme a fonte. A Al Jazeera, em seu rastreador atualizado, fala em pelo menos 1.444 mortos e 18.551 feridos no Irã, enquanto a Reuters registra que a ONG HRANA já contabiliza 3.114 mortos, incluindo 1.354 civis e 207 crianças, observando que há divergências entre levantamentos oficiais e independentes.

Essas discrepâncias, por si só, já revelam uma coisa. Em guerras desse tipo, a primeira vítima não é apenas a verdade abstrata, mas a visibilidade das vítimas concretas.

Mesmo assim, Araqchi insiste num ponto decisivo: o mundo fala pouco dos civis iranianos. E ele tem razão.

Quando escolas iranianas são bombardeadas, quando hospitais são atingidos, quando bairros residenciais viram alvo, a cobertura dominante tenta dissolver o horror em linguagem técnica. O imperialismo mata, mas quer matar em silêncio.

No tema regional, Araqchi sustentou que o Irã não “ampliou” o conflito por vontade própria. Segundo ele, ao ser atacado por forças americanas e israelenses, Teerã passou a responder contra bases e ativos militares dos EUA espalhados pela região, o que empurra a guerra para além das fronteiras iranianas.

É um argumento central da diplomacia iraniana neste momento. A regionalização da guerra não seria uma escolha voluntária do Irã, mas consequência direta da arquitetura militar que os Estados Unidos construíram no Oriente Médio ao longo de décadas.

Araqchi também rejeitou a ideia de um simples cessar-fogo. “Não aceitamos cessar-fogo”, disse ele; “acreditamos em acabar com a guerra”, e acabar com a guerra, em sua formulação, significa encerrar todas as frentes e construir uma paz duradoura para toda a região.

Esse é outro ponto importante. O ministro procura mostrar que o problema não é um episódio isolado, mas uma engrenagem permanente de guerra, sabotagem e desestabilização que vai do Irã ao Líbano, do Iêmen ao Iraque, sempre sob a sombra da supremacia militar dos EUA e da agressividade israelense.

Talvez o trecho mais politicamente sofisticado da entrevista tenha sido sua mensagem ao povo americano. Araqchi disse que esta não é a guerra do povo dos Estados Unidos nem a guerra do povo iraniano, mas “a guerra de Israel, desenhada para os interesses de Israel”, e afirmou que o custo humano e financeiro está sendo pago pelas pessoas comuns.

Aqui ele toca numa nervura sensível. O imperialismo não sacrifica apenas os povos que bombardeia. Ele também consome os recursos, a moral e a própria democracia do país agressor. A guerra interessa aos complexos militares, às elites de segurança e à engrenagem geopolítica da dominação, não ao cidadão comum americano que paga a conta em sangue, inflação, medo e decadência social.

Por isso a entrevista de Abbas Araqchi é importante. Não apenas pelo que revela sobre a posição oficial do Irã, mas pela estatura política de quem a enuncia.

Em tempos de ruído, ele falou com nitidez. Em tempos de massacre, falou com gravidade. E em tempos de intimidação, falou como fala quem sabe que resistir não é uma escolha estética. É uma necessidade histórica.

Assista aqui, legendado com exclusividade pelo Cafezinho. Fonte-base da transcrição: Al Jazeera e Al Jazeera (Killing of Larijani).

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