O Irã expõe a fadiga moral do Ocidente e recoloca a resistência anti-imperial no centro da história.
Há momentos em que a propaganda continua falando alto, mas a história já começou a mudar de assunto.
A entrevista de Marco Fernandes com Breno Altman, ao recuperar a imagem do Irã como “a Stalingrado do século XXI”, tocou num ponto essencial que a mídia ocidental tenta interditar.
Os Estados Unidos e Israel podem conservar uma espantosa capacidade de destruição, mas isso já não basta para vencer a batalha política, simbólica e moral que ajudaram a incendiar.
A grande imprensa do Atlântico Norte, com suas sucursais tropicais sempre zelosas, insiste em apresentar o Irã como uma anomalia ontológica, uma ameaça em si, quase uma patologia geopolítica. Com isso, apaga deliberadamente a moldura imperial do conflito e transforma agressão em contenção, cerco em prudência, violência preventiva em defesa civilizatória.
Segundo o Brasil de Fato, um analista observou que os Estados Unidos “estão usando a guerra para expandir mercados”. A frase é importante porque devolve a economia política ao centro da cena, ali onde a cobertura convencional prefere enxergar apenas mísseis, teocracia e abstrações morais cuidadosamente selecionadas.
O Portal Mídia, por sua vez, falou em “realidade simulada” produzida pelo imperialismo dos EUA, e a formulação é precisa. O que se simula não é apenas uma versão dos fatos, mas um regime inteiro de percepção no qual o Ocidente aparece sempre como árbitro da ordem, mesmo quando age como incendiário profissional.
Essa operação narrativa não é nova. Ela depende da demonização do inimigo e da infantilização do público, como se povos inteiros não tivessem memória, interesses e direito à soberania, mas apenas o dever de se submeter à gramática securitária de Washington e às urgências militares de Tel Aviv.
O Irã, neste cenário, ressurge menos como potência convencional e mais como polo de resistência. Não porque seja idealizado, puro ou imune a contradições, mas porque encarna a recusa de um sistema internacional em que alguns países se arrogam o direito de bombardear, sancionar, cercar e depois monopolizar a narrativa sobre os escombros.
Segundo o Opera Mundi, a estratégia iraniana prevê rápida substituição de lideranças martirizadas, o que sugere resiliência institucional e capacidade de prolongar a resistência. Esse dado é decisivo porque contraria a caricatura de um Estado frágil sustentado apenas por voluntarismo ideológico, caricatura muito útil para quem precisa anunciar colapsos iminentes que nunca chegam.
Até a notícia da Investing.com Brasil sobre a negativa russa de compartilhamento de imagens de satélite e tecnologia de drones com o Irã ajuda, involuntariamente, a esclarecer o quadro. Ao negar uma tutela direta de Moscou, o episódio enfraquece a fantasia de que toda capacidade iraniana seria simples extensão mecânica de potências externas, embora também revele a cautela russa diante do risco de escalada maior.
Há ainda outro dado eloquente, destacado pela Tribuna do Sertão, ao informar que aliados evitam envolvimento no conflito dos EUA e Israel contra o Irã. Não se trata, evidentemente, de adesão automática ao campo iraniano, mas de algo talvez mais revelador, o medo crescente de embarcar sem retorno numa aventura cujo custo político é alto e cuja legitimidade é cada vez mais escassa.
Eis o ponto que mais incomoda o Ocidente. O bloco atlântico ainda dispõe de dinheiro, armas, satélites, bases e meios para devastar países inteiros, mas já não consegue converter essa superioridade destrutiva em liderança moral minimamente convincente fora de seu circuito de autoconfirmação.
A Europa, nesse teatro, oferece talvez o espetáculo mais melancólico. Berço de uma tradição intelectual que um dia soube ao menos nomear os monstros do imperialismo, o continente hoje parece resignado ao papel de vassalo elegante, pronunciando frases sobre direitos humanos enquanto acompanha, com covardia burocrática, mais uma escalada produzida sob patrocínio americano.
Essa decadência moral é agravada por uma falsificação histórica persistente. O mesmo Ocidente que se apresenta como guardião exclusivo da memória antifascista apagou, de forma sistemática, o papel central da União Soviética na derrota do nazismo e reduziu a resistência chinesa ao fascismo japonês a nota de rodapé desconfortável.
Não é um lapso inocente. Ao sequestrar para si a vitória sobre o fascismo, o Ocidente construiu uma autobiografia heroica que lhe permite posar de civilização redentora mesmo quando patrocina golpes, guerras por procuração, sanções assassinas e cercos prolongados contra povos do Sul Global.
Stalingrado foi transformada numa metáfora abstrata, quase europeizada, descolada da experiência soviética concreta que esmagou a máquina hitlerista ao custo de milhões de vidas. E a guerra no Pacífico, quando lembrada, costuma surgir filtrada por Hollywood, com pouca disposição para reconhecer o papel decisivo da China no enfrentamento do expansionismo japonês e a dimensão asiática da derrota do fascismo.
Por isso a imagem mobilizada por Breno Altman é tão poderosa. Chamar o Irã de Stalingrado do século XXI não significa reproduzir analogias fáceis, mas perceber que há situações históricas em que um país cercado e demonizado passa a condensar algo maior do que si mesmo, a resistência de povos inteiros à ordem imperial.
É claro que a analogia tem limites, e convém preservá-los para não cair em retórica vazia. Mas há um núcleo de verdade incômodo para os editorialistas da boa consciência ocidental: o império pode ferir, pode matar, pode arrasar infraestruturas, porém já não consegue impedir que seus adversários ocupem o terreno moral da história.
A batalha, portanto, não é apenas militar. É uma disputa sobre quem tem o direito de nomear a barbárie, quem fala em defesa da civilização enquanto naturaliza massacres, e quem resiste mesmo sabendo que pagará caro por essa recusa.
Talvez seja esse o nervo do nosso tempo. O Sul Global começa a perceber, com nitidez crescente, que a ordem liberal internacional vale como norma para os fracos e como ornamento retórico para os fortes.
No fim, Stalingrado continua voltando porque certos símbolos não envelhecem quando a violência imperial insiste em se repetir com novas roupas. E talvez Drummond ainda nos ajude a compreender o que está em jogo, porque “a poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais”, e às vezes também está nos povos que resistem.