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Londres tenta comprar o tempo perdido

Bilhões em ciência expõem a tentativa britânica de trocar o isolamento do Brexit por soberania tecnológica. O governo britânico anunciou um pacote bilionário para tentar assumir protagonismo em duas das fronteiras mais disputadas da ciência contemporânea. Serão 2 bilhões de libras para computação quântica e 2,5 bilhões para fusão nuclear, em uma aposta explícita na […]

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Bilhões em ciência expõem a tentativa britânica de trocar o isolamento do Brexit por soberania tecnológica.

O governo britânico anunciou um pacote bilionário para tentar assumir protagonismo em duas das fronteiras mais disputadas da ciência contemporânea.

Serão 2 bilhões de libras para computação quântica e 2,5 bilhões para fusão nuclear, em uma aposta explícita na soberania tecnológica e energética.

Divulgada em 16 de março, a estratégia busca recolocar o Reino Unido no centro do tabuleiro geopolítico global após anos de desgaste.

Segundo a revista Nature, fonte desta reportagem, a iniciativa foi recebida com alívio cauteloso pela comunidade científica britânica. O objetivo declarado é fortalecer a independência tecnológica e energética do país, além de reter e formar talentos nacionais.

Mas o entusiasmo oficial esbarra em um passivo político e institucional difícil de apagar. Para muitos analistas, o pacote não representa exatamente um salto histórico, e sim uma tentativa de reparar os danos profundos que o Brexit causou ao ecossistema de pesquisa do país.

“Você tem que voltar ao Brexit para entender o que está acontecendo agora”, afirmou Tony Roulstone, pesquisador de energia nuclear da Universidade de Cambridge, em declaração reproduzida pela Nature. A saída do Reino Unido do projeto internacional ITER, reator experimental de fusão instalado na França, tornou-se o símbolo mais visível desse isolamento autoimposto.

A corrida quântica receberá o equivalente a 2,66 bilhões de dólares. O plano do governo combina pesquisa básica, desenvolvimento industrial e comercialização de tecnologias, numa tentativa de encurtar a distância em relação aos líderes globais.

Londres prometeu comprar e utilizar os sistemas bem-sucedidos que surgirem desse esforço. A lógica é reproduzir mecanismos de aquisição estatal que ajudaram a impulsionar setores como navegação por satélite e aeronaves stealth nos Estados Unidos.

A meta declarada é ambiciosa: tornar o país o primeiro a implantar o uso em larga escala de computadores quânticos e o mais rápido a adotar inteligência artificial no G7. O problema é que a computação quântica em larga escala, com vantagens práticas consistentes em múltiplos setores, ainda não existe como realidade operacional consolidada.

A disputa internacional nesse campo já mobiliza grandes potências e corporações em uma guerra por patentes, infraestrutura e cérebros. Nesse cenário, o investimento britânico, embora vultoso, chega quando China e Estados Unidos já consolidaram redes muito mais extensas de pesquisa e desenvolvimento.

Na fusão nuclear, a aposta de 2,5 bilhões de libras é igualmente ousada e cercada de incertezas. O centro da estratégia é a construção de uma usina protótipo chamada Spherical Tokamak for Energy Production, conhecida como STEP.

A instalação será erguida no local de uma antiga usina termelétrica a carvão, no centro do Reino Unido, em um gesto carregado de simbolismo sobre transição energética. O pacote inclui ainda 45 milhões de libras para o primeiro supercomputador de inteligência artificial do país dedicado exclusivamente a acelerar a pesquisa em fusão.

Cientistas classificam o STEP como um projeto “moonshot”, de alto risco e retorno incerto. Mesmo que não alcance seu objetivo final, a expectativa é que produza avanços colaterais importantes em áreas estratégicas da ciência e da engenharia.

Produzir significativamente mais energia do que consome continua sendo o Santo Graal da fusão nuclear. Por isso, a meta do projeto é vista pela comunidade científica como extremamente ambiciosa, talvez até excessiva para os prazos e capacidades hoje disponíveis.

“Isso vai construir muita capacidade em ciência de materiais, engenharia de magnetos, todo tipo de coisa”, avaliou Richard Jones, físico experimental aposentado da Universidade de Manchester, em material da Nature. O ganho indireto em conhecimento, formação técnica e capacitação industrial aparece, assim, como uma das justificativas mais sólidas para o investimento.

O pano de fundo geopolítico é incontornável. A decisão britânica parte da percepção de que a liderança nas próximas décadas dependerá do domínio de tecnologias de ponta capazes de redefinir energia, defesa, indústria e poder econômico.

Energia limpa e potencialmente ilimitada, de um lado, e capacidade de computação exponencial, de outro, formam os novos campos de batalha da soberania nacional. O Reino Unido tenta evitar a condição de espectador em uma corrida na qual já largou em desvantagem.

Ainda assim, a estratégia levanta dúvidas profundas sobre a fragmentação do esforço científico global. Enquanto projetos como o ITER se apoiam em cooperação internacional de grande escala, a resposta britânica do pós-Brexit parece apostar em um caminho mais nacionalizado e mais isolado.

Esse modelo enfrenta obstáculos evidentes, sobretudo pelo custo proibitivo e pela complexidade extrema dessas tecnologias. A experiência recente mostra que avanços disruptivos raramente nascem de ambientes fechados, e com mais frequência emergem de redes colaborativas que cruzam fronteiras e compartilham riscos.

Para o Brasil e outros países do Sul Global, o caso britânico oferece uma lição estratégica relevante. Dependência tecnológica não é apenas atraso econômico, mas uma armadilha estrutural que consolida posições subalternas na hierarquia internacional.

Iniciativas como o Sirius, acelerador de partículas brasileiro, e os avanços da Embrapa em biocombustíveis e agricultura tropical mostram que é possível construir capacidade científica de ponta com foco em desafios nacionais e regionais. Investir de forma contínua em ciência básica e aplicada não é luxo orçamentário, mas proteção concreta contra a irrelevância geopolítica.

O sucesso ou o fracasso da aposta britânica será observado muito além da Europa. O experimento testará se uma potência científica de médio porte consegue buscar autonomia em áreas hoje dominadas por superpotências e por grandes consórcios internacionais.

Se o Reino Unido transformar bilhões de libras em breakthroughs tecnológicos reais, poderá reescrever parte do manual da inovação no século XXI. Se fracassar, deixará um aviso caro e eloquente sobre os limites do nacionalismo tecnológico em um mundo profundamente interdependente.

O que começa agora nos laboratórios e centros de engenharia britânicos é mais do que uma agenda científica. Trata-se de um experimento político, econômico e estratégico de alto risco, cujos efeitos podem ecoar por todo o sistema internacional de inovação.

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