A crise em Hormuz transformou a transição energética de promessa climática em necessidade estratégica imediata.
A ironia histórica é brutal.
Donald Trump, o presidente do “perfure, baby, perfure”, pode ter acabado de oferecer um dos maiores impulsos recentes à revolução verde.
Seu ataque ao Irã e a crise subsequente no Estreito de Hormuz estão redesenhando o debate global sobre segurança energética.
O bloqueio virtual da passagem, por onde circula cerca de um quinto do petróleo mundial, fez os preços dispararem. Segundo análise do think tank Ember, mesmo uma média de 85 dólares por barril em 2024 imporia aos países importadores um custo extra de 240 bilhões de dólares.
A conta geopolítica dos combustíveis fósseis ficou escancarada. O que antes era tratado como risco abstrato agora aparece diretamente no caixa de governos, empresas e consumidores.
Mas a disrupção também abre uma oportunidade de escala histórica. A mesma análise da Ember indica que a maximização de energias renováveis, veículos elétricos e bombas de calor poderia cortar esse custo adicional em 70 por cento.
“O conflito no Irã quase certamente será um acelerador da transição energética”, afirmou Sam Butler-Sloss, analista da Ember, em material publicado pela revista New Scientist. A frase resume a inversão em curso: a crise que nasce do petróleo pode acelerar justamente sua perda de centralidade.
A percepção da fragilidade do sistema fóssil cresce no mesmo ritmo dos preços. Quanto mais instável o abastecimento, mais evidente se torna a necessidade de fontes de energia menos expostas a choques geopolíticos.
O impacto desta crise tende a ser ainda mais amplo do que o choque provocado pela invasão russa da Ucrânia em 2022. Aquele episódio já havia catalisado a Europa, que mais que dobrou sua capacidade anual de instalação solar.
A União Europeia e o Reino Unido aceleraram seus planos energéticos, enquanto a energia eólica continuou avançando. Hoje, as fontes renováveis já respondem por cerca de 45 por cento da capacidade energética global instalada, um marco expressivo.
Agora, porém, o epicentro da vulnerabilidade se desloca para a Ásia. A região recebe quatro quintos do petróleo e do gás natural liquefeito que passam pelo Estreito de Hormuz.
Japão e Coreia do Sul dependem da rota para 70 por cento de seu petróleo, enquanto um terço do gás natural de Taiwan vem dali. Até metade das importações indianas de petróleo e gás atravessa o estreito, e há relatos de restaurantes no país limitando opções no cardápio por escassez de gás de cozinha.
“Este é o momento Ucrânia da Ásia”, definiu Butler-Sloss. A comparação não é retórica: trata-se de um choque que pode reorganizar prioridades industriais, fiscais e energéticas em toda a região.
No curto prazo, existe um paradoxo climático evidente. As emissões podem subir antes de cair.
Japão e Coreia do Sul ampliaram a geração a carvão, mais poluente que o gás, e reforçaram a produção de usinas nucleares já existentes. É uma resposta emergencial para manter o sistema funcionando enquanto o abastecimento fóssil se torna mais caro e mais incerto.
No médio prazo, porém, a direção já começa a mudar. Seul prometeu acelerar financiamento, licenciamento e acesso à rede para projetos eólicos e solares.
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, declarou em março que a energia solar e os veículos elétricos são a chave para reduzir a dependência de importações estrangeiras de combustível. “As economias da Ásia estão recebendo um alerta, assim como a Europa recebeu o seu há quatro anos”, observou Pavel Molchanov, da firma de investimentos Raymond James & Associates.
Segundo ele, esse alerta deve empurrar mais renováveis para a matriz elétrica, porque os combustíveis fósseis permanecem sujeitos a rupturas de oferta e explosões de preço. Em outras palavras, a transição deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a ser uma política de blindagem econômica.
A China ocupa um lugar singular nesse tabuleiro. O país já instala mais energia solar e eólica do que o resto do mundo combinado, mas quase metade de suas importações de petróleo bruto passa por Hormuz.
Essa dependência representa uma vulnerabilidade estratégica difícil de aceitar para Pequim. Analistas esperam, por isso, uma aceleração ainda maior em seu programa de renováveis, embora o país também deva elevar temporariamente o uso do carvão, coerente com sua estratégia de manter todas as opções abertas.
“Esta é precisamente a lição que muitos outros países tirarão”, previu Li Shuo, do Asia Society Policy Institute. A lição é simples e dura: depender de combustíveis importados em rotas militarmente sensíveis custa caro demais.
Para países com redes elétricas frágeis, o encarecimento do gás natural e do diesel torna a energia solar ainda mais atraente. O Paquistão é um exemplo eloquente: depois de ser praticamente expulso do mercado de gás natural liquefeito pelos preços elevados no pós-Ucrânia, a participação da solar em sua geração elétrica saltou de 4 para 25 por cento.
Esse avanço ocorreu em grande medida porque residências e empresas passaram a instalar painéis solares baratos, majoritariamente chineses. É uma democratização energética empurrada pela necessidade e viabilizada por tecnologia de baixo custo.
No horizonte mais longo, o maior vencedor global pode ser o veículo elétrico. Como o mercado de petróleo é global e opera com um preço de referência que se espalha rapidamente, qualquer crise afeta diretamente o bolso do consumidor nos postos.
A adoção em massa de veículos elétricos é o que a Ember chama de “super-alavanca”, capaz de reduzir em um terço a conta dos países importadores de combustíveis fósseis. Diante disso, governos passam a ter um incentivo muito mais concreto para acelerar a eletrificação do transporte.
Ainda assim, a mudança da frota será lenta, alertou Michael Liebreich, consultor da Liebreich Associates. Como a vida média de um carro se aproxima de duas décadas, os efeitos mais visíveis dessa substituição levarão anos para aparecer.
Já a troca da geração a gás natural por renováveis tende a ser mais rápida e duradoura. “A narrativa de uma demanda crescente por gás em um mundo que tem energia eólica, solar e baterias baratas, e que é cada vez mais avesso a depender dos mercados globais de commodities, está errada. Acabou”, sentenciou Liebreich.
O episódio atual é mais do que uma crise de oferta. Ele marca uma mudança profunda na percepção de risco que organiza as decisões energéticas do planeta.
Energia deixou de ser apenas mercadoria e passou a ocupar o centro da discussão sobre soberania nacional e resiliência econômica. Cada navio ameaçado no Golfo Pérsico reforça o argumento a favor de parques eólicos, usinas solares, baterias e redes mais autônomas.
No Sul Global, historicamente refém da volatilidade do petróleo, a tecnologia solar barata dominada pela China aparece como rota concreta de fuga. Já não se trata apenas de mudança climática, um argumento que muitas vezes soava distante para países pressionados por urgências sociais e fiscais.
Trata-se de economia prática, segurança imediata e menor exposição a crises fabricadas longe de casa. A transição energética encontrou na turbulência geopolítica seu argumento mais pragmático e mais poderoso.
A era dos fósseis talvez não termine por falta de petróleo ou gás. Ela pode terminar porque a instabilidade que os acompanha se tornou um luxo caro demais.
Sol e vento não embargam, não bloqueiam estreitos e não cobram pedágio geopolítico. A corrida final pela energia limpa acaba de ganhar um combustível inesperado: o medo.