Na capital mais fria do planeta, uma resposta popular e tecnológica começa a desmontar a engrenagem que transformou sobrevivência em veneno.
Em Ulaanbaatar, onde o inverno derruba os termômetros para abaixo de 35 graus negativos, o frio extremo e a poluição do ar se fundiram numa mesma crise de sobrevivência.
Cerca de 1 milhão de pessoas vivem em gers nas colinas ao redor da capital mongol, uma cidade planejada para 600 mil habitantes na era soviética e que hoje abriga 1,6 milhão.
Para enfrentar os longos meses de gelo, essas famílias queimam carvão, madeira, pneus e plástico, produzindo uma névoa tóxica que, segundo a empresa local de ciência URECA, tem no carvão residencial a origem de até 80% da fumaça que aprisiona o vale.
Os números registrados pela embaixada dos Estados Unidos em Ulaanbaatar revelam a escala do desastre. No auge do inverno, a concentração de partículas finas PM2.5 chegou a 687 microgramas por metro cúbico, 27 vezes acima do limite seguro definido pela Organização Mundial da Saúde.
Em certos dias, respirar na capital mongol equivale a fumar vários maços de cigarro. O que deveria ser apenas uma necessidade básica, aquecer a casa, virou uma máquina cotidiana de adoecimento.
A crise é ambiental, social e também climática. “Eventos climáticos catastróficos na Mongólia estão ocorrendo com maior frequência”, afirmou Unurbat Erdenemunkh, cofundador da URECA, ao se referir ao zud, fenômeno em que o solo congela completamente, mata os animais de pasto e destrói o sustento de um terço da população ainda dependente da pecuária nômade.
Esses choques climáticos empurraram uma massa de deslocados para a capital, onde a tentativa de escapar da catástrofe rural acaba alimentando outra catástrofe, agora urbana. O ciclo é brutal: para não congelar, queima-se combustível fóssil; ao queimá-lo, aprofunda-se a crise sanitária e climática. Apenas no último inverno, estima-se que mais de 7 mil mongóis tenham morrido por efeitos da poluição do ar.
Foi nesse cenário que Erdenemunkh decidiu trocar a carreira acadêmica por uma intervenção direta em sua cidade natal. Ex-físico experimental, com passagem por pesquisa médica nos Estados Unidos e na Holanda, ele contou à revista Nature, fonte original deste relato, que se especializou em terapia de prótons para tratamento de câncer, mas depois de quase sete anos em laboratórios quis fazer algo útil por Ulaanbaatar.
Em 2022, ao lado da investidora Orchlon Enkhtsetseg, ele fundou a URECA com foco em soluções climáticas para a Ásia Central. O principal projeto da empresa é o “Carvão para Solar”, ou C2S, um piloto que já atende 80 famílias em comunidades de gers e que se apresenta como um modelo concreto de transição energética justa.
A proposta é simples na forma e ambiciosa no alcance. A empresa instala gratuitamente painéis solares, aquecedor elétrico, baterias e um medidor inteligente para acompanhar o desempenho do sistema. “Foi preciso muita confiança dessas famílias para participar. Substituímos a queima de carvão por energia limpa e mostramos que famílias de baixa renda podem ser campeãs da ação climática”, afirmou Erdenemunkh.
O sistema funciona de forma híbrida, com apoio da rede elétrica quando necessário. Ainda assim, o armazenamento térmico em tijolos especiais e o uso de baterias garantem até seis horas de autonomia, algo decisivo numa rede sujeita a falhas, enquanto as baterias de chumbo-ácido têm vida útil de três anos e esse ciclo é administrado pela própria empresa.
A motivação do cientista não é apenas técnica ou política, mas íntima. Seus dois filhos pequenos, mesmo vivendo em um apartamento de área nobre, foram hospitalizados seis vezes no último ano por problemas respiratórios agravados pela poluição. Nos bairros de gers, o risco é ainda maior, e o envenenamento por monóxido de carbono matou mais de 800 pessoas em sete anos.
Os primeiros resultados do projeto ajudam a explicar por que a iniciativa começa a ganhar atenção. “Nosso projeto C2S está funcionando. Nenhuma das 80 famílias participantes queimou carvão nos últimos três anos”, disse Erdenemunkh. Neste inverno, o programa será ampliado para 180 famílias, sinalizando que o modelo pode crescer.
Mas a inovação não se limita à geração de energia. Uma parte decisiva do projeto está no combate ao desperdício térmico das gers, estruturas tradicionais reconhecidas como patrimônio cultural imaterial pela UNESCO e que, apesar de sua importância histórica, são notoriamente ineficientes para reter calor.
Estudos citados pela URECA indicam que 25% do calor se perde pelo teto e até 20% escapa pela porta de madeira. Em parceria com a ONG local GerHub, a empresa usou uma câmera térmica para mapear essas perdas e desenvolver um kit de isolamento com camadas extras de feltro de lã e “plugues” de isolamento.
Os resultados são expressivos e ajudam a reduzir a demanda energética das moradias. A imagem térmica de uma parede de ger sem isolamento registra 3 graus negativos, mas, após a intervenção, a mesma parede alcança 13,9 graus. Na porta, a temperatura salta de 8,6 graus para 20,1 graus.
Esse ganho de até 20 graus em partes da estrutura muda a equação econômica e energética do projeto. Quanto menos calor se perde, menos eletricidade é necessária, e mais viável se torna a substituição do carvão por uma solução limpa. Trata-se de uma adaptação que preserva a cultura tradicional ao mesmo tempo que a equipa para enfrentar o século XXI.
O caso de Ulaanbaatar ultrapassa as fronteiras da Mongólia porque expõe, de forma quase didática, a crueldade da injustiça climática. Os que menos contribuíram para o aquecimento global estão entre os mais punidos por seus efeitos e, para sobreviver, acabam empurrados a práticas que aprofundam o problema.
A resposta construída pela URECA inverte essa armadilha. Em vez de impor uma transição copiada dos países ricos, o projeto aposta em soluções descentralizadas, ajustadas à realidade local, sensíveis à cultura e voltadas para quem mais precisa. Não é apenas uma troca de fonte energética, mas uma correção política de uma equação socialmente perversa.
Enquanto o debate internacional se concentra em megaprojetos de hidrogênio verde e fusão nuclear, nas colinas de Ulaanbaatar avança uma transformação silenciosa, feita de painéis solares, feltro de lã e baterias de chumbo-ácido. Pode parecer modesta à distância, mas sua força está justamente aí: oferecer calor sem veneno, energia sem humilhação e uma saída concreta para populações tratadas como nota de rodapé da crise climática.
O projeto se impõe, assim, como referência para regiões que enfrentam o falso dilema entre tradição, desenvolvimento e sustentabilidade. Ele mostra que ciência aplicada com inteligência social não distribui caridade tecnológica, mas instrumentos de emancipação. Na capital mais fria da Terra, a energia limpa deixou de ser abstração e começou a aquecer vidas reais.

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