A energia que blindou Pequim

Em meio ao caos no Golfo, a China mostra que soberania energética não se improvisa.

A crise energética global desencadeada pela guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã expôs de forma brutal a vulnerabilidade dos países que confiaram na estabilidade de uma ordem internacional unipolar.

Segundo dados da consultoria marítima Kpler, as exportações de petróleo do Oriente Médio despencaram 61% nas últimas semanas, espalhando pânico entre economias asiáticas que dependiam da região para quase 60% de seu petróleo bruto.

Enquanto Japão, Índia e Coreia do Sul enfrentam um quadro dramático de desabastecimento, a China surge como a potência mais preparada para absorver o choque.

Essa diferença não nasceu do acaso, mas de uma estratégia de Estado construída ao longo de anos. Em 2021, durante visita a um grande campo petrolífero, Xi Jinping afirmou que a China precisava manter seu abastecimento energético “com as próprias mãos”, como foi registrado à época.

O que muitos analistas ocidentais trataram como excesso de cautela agora aparece como uma escolha decisiva. Reportagem do The Guardian mostra que a preparação metódica de Pequim começou a render dividendos justamente quando o sistema entrou em convulsão.

Michal Meidan, chefe de pesquisa de energia da China no Oxford Institute for Energy Studies, escreveu recentemente que o sistema energético chinês dispõe de “amortecedores significativos”. Esses buffers incluem grandes reservas estratégicas de petróleo e gás natural liquefeito, produção doméstica robusta e expansão acelerada de fontes alternativas, como eólica e solar.

A comparação com os vizinhos é eloquente. Embora a China importe cerca de metade de seu petróleo bruto do Oriente Médio, sua exposição é bem menor do que a de outras economias asiáticas.

O Japão, por exemplo, obtém aproximadamente 95% de suas importações de petróleo da região hoje em conflito. Trata-se de uma dependência extrema, que o coloca numa posição de fragilidade imediata diante de qualquer ruptura prolongada.

Pequim seguiu outro caminho e montou uma rede de segurança que agora começa a ser acionada. Um dado particularmente revelador é a estabilidade do comércio energético entre Teerã e a China, relação estratégica que desafia as sanções unilaterais impostas por Washington.

Segundo estimativas da Kpler, os embarques de petróleo iraniano para a China recuaram apenas marginalmente, de 1,57 milhão de barris por dia em fevereiro para 1,47 milhão em março. Em um cenário de colapso regional, essa queda limitada ajuda a explicar por que o país ainda preserva margem de manobra.

Além da rota iraniana, a frota chinesa operada por empresas estatais também se move para garantir suprimentos por caminhos alternativos. O superpetroleiro Kai Jing, por exemplo, desviou sua rota para buscar petróleo saudita em um porto do Mar Vermelho no início deste mês, segundo a Caixin, e deve atracar na China em abril.

Essas manobras logísticas são apenas a face visível de uma arquitetura energética desenhada para resistir a turbulências severas. O núcleo mais sensível desse sistema permanece oculto em reservas estratégicas cujo volume exato é tratado como segredo de Estado.

Estimativas do Center on Global Energy Policy, da Universidade de Columbia, indicam que a China pode dispor de cerca de 1,4 bilhão de barris estocados. É uma reserva colossal, acumulada silenciosamente ao longo dos anos, que oferece ao país uma capacidade de reação rara entre as grandes potências emergentes.

Ao primeiro sinal de agravamento da crise, Pequim já determinou que suas refinarias domésticas interrompessem exportações para priorizar o abastecimento interno. Essa capacidade de comando centralizado sobre setores estratégicos da economia é um trunfo que mercados fragmentados dificilmente conseguem reproduzir com a mesma velocidade.

Mas a blindagem chinesa não depende apenas de petróleo armazenado. Ela também resulta de uma transformação estrutural que busca reduzir a dependência dos combustíveis fósseis no longo prazo.

A China se tornou a principal locomotiva mundial da transição energética, apesar de esse fato ser frequentemente minimizado pela narrativa ocidental. Segundo a Agência Internacional de Energia, o país vende por ano mais veículos elétricos e híbridos do que todo o resto do mundo somado.

Isso não é apenas política ambiental, nem simples modernização industrial. Trata-se de um eixo central de segurança nacional, pensado para diminuir a vulnerabilidade externa em momentos de crise geopolítica.

Na geração elétrica, o avanço também é expressivo. A think tank Ember estima que eólica, solar e hidrelétrica responderam por cerca de 31% da eletricidade chinesa em 2024.

Essa diversificação cria um colchão importante contra choques nos hidrocarbonetos. Enquanto a Europa se viu refém do gás russo e agora o Oriente Médio mergulha em desordem, a China construiu várias linhas de defesa ao mesmo tempo.

A lição estratégica é difícil de ignorar. No século 21, soberania energética passa necessariamente pela combinação entre reservas, capacidade estatal, diversificação de fornecedores e domínio das tecnologias verdes.

Ainda assim, a crise atual representa um teste de estresse real, e não uma prova sem custos. A própria Michal Meidan alerta que, embora a China esteja melhor posicionada do que a maioria, nenhum país está totalmente imune a uma ruptura prolongada.

Ela observa que liberar estoques da reserva estratégica de petróleo é “mais fácil dizer do que fazer”, até porque esse mecanismo só foi testado uma vez na história chinesa. Além disso, refinadores independentes, que são grandes importadores do petróleo iraniano, e setores industriais dependentes de gás natural liquefeito já enfrentam a perspectiva de preços mais altos e escassez.

Em outra avaliação, Meidan afirmou que, embora uma interrupção curta possa ser administrável, a perspectiva de rupturas prolongadas e dos aumentos de preços associados está acionando alarmes em Pequim. A resiliência chinesa, portanto, é real, mas não ilimitada.

Mesmo com esses limites, o contraste com o restante da Ásia e com boa parte do Ocidente é marcante. A guerra no Golfo Pérsico mostra que, num mundo multipolar ainda em formação, a instabilidade tende a ser menos exceção do que regra.

Por isso, a aposta chinesa na autossuficiência relativa parece hoje menos uma escolha ideológica e mais uma exigência de sobrevivência econômica. O país não eliminou seus riscos, mas reduziu de maneira significativa sua exposição ao tipo de chantagem energética que paralisa outras nações.

Para o Brasil, a mensagem é cristalina e urgente. A vulnerabilidade energética continua sendo uma das maiores ameaças à soberania no mundo contemporâneo.

O pré-sal deu ao país uma margem importante, mas depender de um único modelo e avançar lentamente na construção de uma matriz mais diversificada e renovável nos mantém expostos. A experiência chinesa indica que planejamento de Estado, investimento pesado em tecnologia e visão geopolítica de longo prazo são os únicos antídotos consistentes contra crises que podem desorganizar economias inteiras.

No fim, a guerra apenas acelerou uma verdade que já estava diante de todos. O futuro pertence aos países capazes de colocar seu destino energético nas próprias mãos.

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