A tentativa de Ottawa de organizar uma saída para o conflito revela menos liderança do que o esgotamento de uma ordem ocidental que já não controla nem os próprios aliados.
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã já produziu, além de destruição, uma fila de espectadores ansiosos por alguma pausa.
O Canadá tenta agora reunir o Grupo dos Sete e países do Oriente Médio para discutir possíveis saídas para o conflito, numa movimentação diplomática que chega visivelmente atrasada.
Segundo a ministra das Relações Exteriores do Canadá, Anita Anand, em entrevista ao jornal britânico The Guardian, a meta é construir uma abordagem coletiva para a crise.
Anand afirmou ter redigido um documento de princípios para compartilhar com outros países. A intenção, segundo ela, é reduzir o risco de transbordamento regional e abrir espaço para uma coordenação diplomática mais ampla.
“É importante para nós termos uma conversa sobre as saídas”, disse a chanceler. A formulação resume bem o esforço canadense de apresentar algum horizonte político depois de semanas em que a lógica militar dominou completamente o cenário.
O problema é que a iniciativa surge apenas após uma campanha de bombardeios liderada por Washington e Telavive. Nesse processo, europeus e canadenses foram empurrados para a posição de observadores, sem influência real sobre as decisões centrais.
Agora, esses mesmos atores tentam coordenar uma posição comum, embora diplomatas reconheçam que a tarefa é extremamente difícil. O centro do impasse está na exigência iraniana de garantias contra novos ataques, algo que o atual formato diplomático ocidental parece incapaz de oferecer com credibilidade.
Anand fez questão de marcar distância da ofensiva militar inicial. “Fomos consultados sobre a operação militar ofensiva? Não. Participamos da operação ofensiva? Não. Temos a intenção de participar da operação militar? Não”, declarou.
Ela também condenou a retaliação iraniana como “censurável”, mas o tom de suas declarações deixa transparecer uma frustração mais profunda com a marginalização estratégica do Canadá. Ottawa tenta se apresentar como voz responsável, mas fala de fora de um tabuleiro cujas jogadas decisivas foram feitas por outros.
Esse limite não é apenas conjuntural. O Canadá abriga uma grande diáspora iraniana, não mantém relações diplomáticas com Teerã há 15 anos e designou a Guarda Revolucionária como entidade terrorista, o que reduz drasticamente sua capacidade de atuar como mediador genuíno.
O pano de fundo é mais amplo e mais grave. O que se vê é um Ocidente fragmentado, submetido à erosão acelerada da antiga ordem unipolar e cada vez menos capaz de transformar poder militar em direção política estável.
Nesse contexto, o discurso recente do primeiro-ministro Mark Carney no Fórum Econômico Mundial em Davos ganha novo peso. Carney defendeu que “potências médias” precisam ser mais ativas diante dos grandes hegemonistas, numa referência clara ao declínio da influência unilateral dos Estados Unidos.
Anand retomou essa ideia ao explicar que Carney “identificou que estamos num ponto único no tempo onde países com interesses e valores semelhantes podem ser mais poderosos e influentes juntos do que separados”. A frase expressa a tentativa canadense de fabricar relevância por meio de coalizões pragmáticas, variáveis e temáticas.
A ministra citou como exemplos a “coalizão dos dispostos” na Ucrânia e grupos voltados para soberania no Ártico e tecnologia. Trata-se de uma diplomacia de diversificação, desenhada para um mundo em que alianças fixas já não bastam para garantir influência.
Essa reorientação também responde ao relacionamento turbulento com os Estados Unidos de Donald Trump. Anand negou que a política externa canadense esteja se espalhando “apenas” por causa de Trump, mas admitiu que, desde o início de 2025, Ottawa adotou uma política agressiva de diversificação comercial.
“Desde que Mark Carney se tornou primeiro-ministro, assinamos mais de 12 acordos comerciais em seis meses, em quatro continentes”, afirmou a chanceler. O objetivo declarado é dobrar o comércio exterior não norte-americano na próxima década, meta que revela a urgência em reduzir a dependência do vizinho do sul.
Em paralelo, Anand fez campanha para que o Reino Unido aderisse ao Banco de Defesa, Segurança e Resiliência, cuja carta será negociada em Montreal. A instituição pretende fornecer capital para que empresas de defesa ampliem sua produção, atendendo a uma demanda global em expansão.
Esse ponto é decisivo porque mostra que as chamadas potências médias já se preparam para um ciclo prolongado de conflitos e rivalidade sistêmica. A guerra no Irã funciona, assim, como catalisador de realinhamentos mais profundos do que a diplomacia tardia de Ottawa consegue admitir publicamente.
A incapacidade de Washington de conter as consequências de sua própria ação militar empurrou aliados tradicionais para a busca de um papel próprio, ainda que improvisado. A iniciativa canadense, por mais bem-intencionada que seja, soa como um apelo à razão num teatro em que força e resistência continuam ditando o ritmo.
Enquanto Teerã exige garantias concretas de segurança, o que o Grupo dos Sete consegue oferecer são princípios, reuniões e conversas sobre saídas. A distância entre os instrumentos diplomáticos do Ocidente e a realidade do terreno raramente pareceu tão grande.
O verdadeiro significado da movimentação de Ottawa não está em seu potencial de mediação, que é limitado desde a origem. Ele está no reconhecimento tácito de que a era da hegemonia incontestável terminou e de que até aliados próximos dos Estados Unidos estão sendo arrastados por um furacão que não ajudaram a criar.
A guerra expôs a falácia de uma segurança coletiva ocidental que, na prática, continua sendo decidida em Washington sem consulta efetiva aos demais. Canadá e Europa agora administram os custos dessa subordinação, tentando influir numa crise cujos principais botões simplesmente não controlam.
A chamada diplomacia das saídas é, no fundo, a diplomacia dos que chegaram depois. Seu sucesso é duvidoso, mas seu aparecimento já serve como indicador geopolítico incontornável do deslocamento global de poder.
Para o Brasil e para o Sul Global, a lição é direta. A multipolaridade já não é hipótese nem desejo, mas fato consumado, e a reação confusa das potências médias ocidentais apenas confirma o declínio terminal da centralidade transatlântica nas decisões sobre guerra e paz.
As crises internacionais do futuro serão definidas por uma geometria de poder muito mais complexa. Nesse novo cenário, capacidade de resistência e soberania estratégica, como demonstradas pelo Irã, tendem a valer mais do que velhos alinhamentos automáticos.