Menu

Washington na coleira da guerra

A negativa de Netanyahu não dissipa a crise, apenas expõe quem já perdeu o controle dela. A declaração do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de que Israel não arrastou os Estados Unidos para um conflito com o Irã soa menos como esclarecimento e mais como um gesto defensivo diante de uma evidência política cada vez mais […]

sem comentários
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News

A negativa de Netanyahu não dissipa a crise, apenas expõe quem já perdeu o controle dela.

A declaração do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de que Israel não arrastou os Estados Unidos para um conflito com o Irã soa menos como esclarecimento e mais como um gesto defensivo diante de uma evidência política cada vez mais difícil de disfarçar.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Netanyahu fez a afirmação em meio ao avanço das acusações de que Tel Aviv atua deliberadamente para ampliar a guerra regional.

Negar o que já se tornou visível no tabuleiro do Oriente Médio apenas revela o tamanho do constrangimento geopolítico que cerca Washington e seu principal aliado na região.

A dinâmica é clara para quem observa a região sem o filtro da propaganda ocidental. A retórica belicista de Israel, somada aos ataques frequentes contra alvos iranianos na Síria e à insistência em um confronto aberto, impõe pressão constante sobre os Estados Unidos.

Cada movimento de Tel Aviv testa a credibilidade das garantias de segurança americanas. A cada provocação, Washington é empurrado a responder, mesmo quando o custo estratégico dessa resposta já se mostra elevado.

Essa postura coloca os Estados Unidos em um dilema perverso. O governo Biden, já pressionado por guerras fracassadas e por uma imagem internacional desgastada, acaba seguindo o ritmo de um aliado que opera cada vez mais como fator de desestabilização e não de contenção.

A chamada parceria entre os dois países passa, assim, a se parecer menos com uma aliança equilibrada e mais com uma relação invertida, na qual o cliente dita os termos ao patrono. É nesse ponto que a negativa de Netanyahu ganha sentido político, porque ela tenta esconder não apenas a escalada militar, mas a própria assimetria real dessa relação.

A Folha de S.Paulo também noticiou que a administração Trump solicitou ao Congresso 200 bilhões de dólares para uma eventual guerra contra o Irã. A justificativa, resumida na frase "matar homens maus custa caro", expõe com brutalidade a lógica de um aparato militar mobilizado para sustentar uma agenda que não nasce propriamente dos interesses internos dos Estados Unidos, mas da preservação da hegemonia regional de um terceiro ator.

O dado é eloquente não apenas pelo volume astronômico de recursos, mas pelo que ele simboliza. Trata-se de um orçamento de guerra que revela o preço material da subordinação estratégica, em um momento em que os próprios Estados Unidos enfrentam desgaste econômico, fadiga militar e perda de autoridade política no sistema internacional.

Ao mesmo tempo, a arquitetura global de poder mostra rachaduras cada vez mais visíveis. Um artigo do site A Referência aponta que o bloco BRICS está dividido sobre como responder à crise, o que evidencia os limites de uma multipolaridade em formação que ainda não se converteu em aliança militar formal ou em mecanismo coeso de segurança.

Essa divisão, porém, não significa passividade. A posição predominante no BRICS e no Sul Global é de condenação à escalada e defesa da diplomacia, funcionando como contraponto político e moral ao belicismo ocidental, enquanto China e Rússia atuam nos bastidores para conter o conflito, conscientes de que uma guerra aberta comprometeria seus próprios projetos eurasiáticos.

Os efeitos econômicos da tensão já começam a se espalhar muito além do campo militar. O Portal do Agronegócio destacou que o mercado de fertilizantes entrou em alerta máximo diante da possibilidade de interrupção no fluxo de potássio e de outros insumos críticos, muitos dos quais passam pelo Estreito de Ormuz.

O impacto potencial é direto sobre a segurança alimentar mundial. Como sempre, uma crise produzida nos centros de decisão de Tel Aviv e Washington tende a ser paga sobretudo pelos países mais pobres, que não participam da formulação da guerra, mas arcam com a inflação, a escassez e a instabilidade.

Paradoxalmente, a escalada também produz ganhos para Moscou. Segundo análise publicada no Jornal Correio, a alta do petróleo e o desvio da atenção ocidental para o Oriente Médio oferecem à Rússia um alívio financeiro e estratégico relevante, ao mesmo tempo em que enfraquecem o apoio já vacilante à Ucrânia.

Cada recurso deslocado para o Golfo Pérsico deixa de ser aplicado em outra frente. Cada míssil, cada dólar e cada hora de atenção política desviados para a nova crise reduzem a capacidade do Ocidente de sustentar simultaneamente todos os seus teatros de confronto.

Outro sinal da gravidade do momento veio do Iêmen. A Tribuna do Agreste reportou a ameaça dos Houthis de bloquear um estreito vital para o comércio global, mostrando como atores regionais menores, inseridos no chamado Eixo da Resistência, podem exercer poder desproporcional sobre a economia mundial ao transformar a geografia em arma assimétrica.

Esse dado desmonta a fantasia de controle absoluto das grandes potências. Em um cenário de cadeias logísticas frágeis, rotas marítimas tensionadas e mercados sensíveis, basta um ponto de estrangulamento para produzir efeitos em cascata sobre energia, alimentos, transporte e preços internacionais.

Nesse contexto, a fala de Netanyahu é apenas a superfície do problema. O drama real é o deslocamento gradual, mas persistente, do poder global, em que os Estados Unidos seguem presos a um aliado que se converteu em passivo estratégico e veem sua capacidade de ditar os rumos do sistema internacional diminuir a cada crise que conseguem inflamar, mas já não conseguem controlar.

A guerra que se desenha, portanto, não é apenas uma possível guerra contra o Irã. Ela funciona como teste duro para a própria ordem unipolar, e a insistência de Trump em chamar a OTAN de "covarde" e "tigre de papel", como registrou a Folha de S.Paulo, revela a percepção amarga de que os instrumentos clássicos da dominação do século passado estão desgastados.

Para o Brasil e para o Sul Global, a lição é objetiva. A instabilidade interessa a uma elite belicista minúscula, enquanto nossa segurança alimentar, nosso desenvolvimento e nossa paz são tratados como variáveis descartáveis em um jogo alheio, o que torna ainda mais necessário fortalecer fóruns como o BRICS, não como réplica militar da OTAN, mas como dique político contra a irracionalidade que emana do Atlântico Norte.

No fim, a negação de Netanyahu funciona como espelho de uma decadência mais ampla. Ela reflete a incapacidade de Washington de admitir que, depois de décadas de domínio, tornou-se refém de suas próprias criaturas, e que o preço dessa submissão estratégica já está sendo cobrado não apenas em bilhões para bombas, mas na erosão acelerada de uma hegemonia que perdeu o rumo da história.

, , , ,
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário

Escreva seu comentário

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!


Leia mais

Recentes

Recentes