O Iêmen pode fechar o cerco

Se os Houthis entrarem formalmente na guerra, Gaza deixa de ser fronteira e vira gatilho de uma crise global.

A guerra em Gaza já transbordou há muito do confronto local e ameaça se consolidar como um choque regional de grandes proporções.

No centro dessa nova escalada está o movimento Ansar Allah, conhecido como Houthis, que controla boa parte do Iêmen e avalia entrar formalmente no conflito ao lado do Irã.

Se esse passo for dado, o impacto pode ir muito além do Oriente Médio e atingir comércio, energia, inflação e cadeias de suprimento em escala mundial.

A possibilidade foi discutida em uma análise da Al Jazeera com participação de especialistas. Segundo o debate, o grupo iemenita mantém todas as opções em aberto, embora já ataque navios vinculados a Israel no Mar Vermelho.

O ponto mais explosivo dessa hipótese é a abertura de uma nova frente marítima. Uma entrada direta dos Houthis contra Israel e os Estados Unidos ampliaria o risco sobre corredores vitais para o fluxo global de petróleo e mercadorias.

Hoje, o Estreito de Hormuz, passagem decisiva para o petróleo do Golfo, já opera sob forte tensão e com tráfego marítimo drasticamente reduzido. Se os Houthis intensificarem ações no estreito de Bab el-Mandeb, no sul do Mar Vermelho, outra artéria central do comércio internacional pode ser estrangulada.

A combinação desses dois gargalos produziria um choque imediato sobre as rotas entre Ásia e Europa. O efeito mais previsível seria a disparada do petróleo, seguida por nova pressão sobre fretes, seguros e abastecimento global.

Para o Brasil, o problema não seria abstrato nem distante. O país depende de importações de fertilizantes e de peças industriais que circulam por essas rotas, o que significa pressão direta sobre custos de produção e sobre o preço dos alimentos.

Em outras palavras, uma escalada no Mar Vermelho e no Golfo não ficaria restrita aos mapas militares. Ela chegaria ao supermercado, à indústria e ao bolso do consumidor brasileiro na forma de inflação importada.

Os Houthis não são um ator periférico nem improvisado. O grupo sobreviveu a quase uma década de guerra brutal liderada pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos, com amplo apoio logístico e de inteligência dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Essa trajetória alterou a percepção sobre sua capacidade militar. Durante anos, o movimento foi subestimado, mas acumulou experiência de combate e passou a operar com arsenal relevante de drones e mísseis de cruzeiro, fornecidos ou desenvolvidos com tecnologia iraniana.

Os ataques já realizados contra infraestrutura crítica saudita e contra embarcações no Mar Vermelho demonstraram alcance, precisão e persistência. Ao mesmo tempo, o grupo atua sob a bandeira da solidariedade à Palestina, o que lhe garante ressonância política em setores importantes do mundo árabe.

Ainda assim, a decisão de entrar formalmente na guerra está longe de ser automática. Como explicou o analista Khaled Batarfi no debate citado pela Al Jazeera, os Houthis mantêm um canal de comunicação com a Arábia Saudita, que busca uma saída para sua guerra custosa no Iêmen.

Esse fator pesa porque uma escalada aberta pode implodir um processo frágil de distensão. Riad, que tenta se afastar da guerra em Gaza e reduzir danos estratégicos, seria empurrada de volta para uma posição extremamente delicada em sua fronteira sul.

Do outro lado da balança está a pressão ideológica e estratégica do chamado eixo de resistência. Liderado por Teerã e composto também por Hezbollah no Líbano e milícias no Iraque e na Síria, esse campo se move sob a lógica de que o confronto já não diz respeito apenas a Gaza.

Nesse contexto, ficar de fora de um momento decisivo pode custar credibilidade aos Houthis. Para um grupo que construiu parte de sua legitimidade regional no discurso de enfrentamento a Israel e aos Estados Unidos, a neutralidade tem preço político alto.

O pesquisador Farea al-Muslimi, do Chatham House, destacou justamente esse ponto. Segundo ele, os Houthis se veem diretamente implicados no conflito e não tratam a guerra como um episódio isolado em Gaza, mas como parte de uma ofensiva mais ampla dos Estados Unidos e de Israel contra o eixo de resistência.

Essa leitura muda o cálculo estratégico do grupo. Nessa visão, defender o Irã significa, em última instância, defender a própria sobrevivência política e militar do movimento no Iêmen.

Por isso, um eventual ataque americano massivo ao Irã, embora ainda distante, alteraria instantaneamente o cenário. O que hoje aparece como possibilidade passaria a ser tratado como necessidade operacional e simbólica.

Se os Houthis entrarem formalmente na guerra, a dinâmica militar no Oriente Médio mudará de patamar. Estados Unidos e Reino Unido teriam de dividir ainda mais recursos navais já sobrecarregados, e a operação de proteção no Mar Vermelho deixaria de ser contenção para se tornar guerra aberta.

Para Israel, isso significaria mais uma frente de pressão, inclusive com ameaça de mísseis de longo alcance, ainda que em parte simbólica. Politicamente, o custo para o governo de Benjamin Netanyahu aumentaria com a percepção de que o conflito se expande sem controle e sem horizonte claro de encerramento.

A Europa também teria muito a perder. Com economias já fragilizadas, os países europeus dificilmente absorveriam sem danos um bloqueio simultâneo em Hormuz e Bab el-Mandeb, o que tende a elevar a pressão diplomática por cessar-fogo.

O diretor de estudos marítimos da Universidade Tufts, Rockford Weitz, alertou para os custos econômicos imediatos de uma escalada desse tipo. Seguros marítimos subiriam rapidamente, enquanto companhias de navegação seriam forçadas a desviar rotas para o Cabo da Boa Esperança, na África, num trajeto muito mais longo e caro.

Esse desvio significaria semanas adicionais de viagem, maior consumo de combustível e aumento das emissões de poluentes. Em termos logísticos, o mundo voltaria a enfrentar um choque sistêmico, com potencial para tornar pequena a crise vivida durante a pandemia.

O dado central, portanto, é simples e inquietante. Gaza já não é apenas Gaza, porque a continuidade da guerra empurra novos atores para dentro do conflito e amplia o risco de uma explosão regional de múltiplas frentes.

A possibilidade de entrada formal dos Houthis funciona como um aviso severo sobre a natureza desse processo. Conflitos localizados, quando alimentados pela intransigência e pela intervenção de potências externas, podem desorganizar o planeta inteiro.

Também por isso, a discussão não é apenas militar. Trata-se de saber até quando o mundo aceitará que a devastação em Gaza siga operando como motor de uma crise cada vez mais ampla, mais cara e mais difícil de conter.

A saída continua sendo política e urgente. O fim imediato do massacre em Gaza e o respeito ao direito internacional não são apenas exigências morais, mas condições concretas para impedir que o incêndio se espalhe por toda a região e volte ao resto do mundo em forma de guerra econômica.

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