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O inverno que assombra a Europa

A guerra movida por Estados Unidos e Israel contra o Irã já cobra seu preço no gás, no petróleo e na soberania energética de países inteiros. A Comissão Europeia enviou na semana passada uma carta urgente aos Estados-membros com um apelo incomum para esta época do ano. O comissário de Energia, Dan Jorgensen, pediu que […]

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A guerra movida por Estados Unidos e Israel contra o Irã já cobra seu preço no gás, no petróleo e na soberania energética de países inteiros.

A Comissão Europeia enviou na semana passada uma carta urgente aos Estados-membros com um apelo incomum para esta época do ano.

O comissário de Energia, Dan Jorgensen, pediu que os países começassem a estocar gás para o próximo inverno “o mais cedo possível”, segundo a Al Jazeera.

A antecipação de vários meses revela o impacto imediato do terremoto nos mercados energéticos globais provocado pela guerra no Golfo Pérsico.

Os preços do gás natural na União Europeia já subiram mais de 30% desde o início do conflito, em 28 de fevereiro. O movimento expõe o grau de sensibilidade do bloco a choques externos, mesmo quando o risco de desabastecimento direto ainda parece contido.

A escalada foi detonada pelo ataque israelense ao gigantesco campo de gás South Pars, no Irã, e pela retaliação iraniana contra o complexo industrial de Ras Laffan, no Catar. Juntos, esses episódios produziram uma tempestade perfeita no coração da infraestrutura energética mundial.

O complexo catari atingido pelo Irã responde por cerca de 20% do fornecimento global de gás natural liquefeito. A estatal QatarEnergy informou que o ataque eliminou 17% da capacidade de exportação de Doha, com impactos que podem durar até cinco anos.

A desaceleração deve atingir principalmente os compradores asiáticos, como China, Japão e Índia, que absorvem 80% do gás natural liquefeito do Catar. A Europa, que obtém apenas 9% de seu gás natural liquefeito do país, tende a sofrer menos pela falta direta e mais pela disputa feroz pelos carregamentos remanescentes.

O tráfego de navios-tanque que deixam o Golfo pelo Estreito de Ormuz também vem sendo estrangulado pela guerra, comprimindo ainda mais a oferta global. Em sua carta, Jorgensen admitiu que o abastecimento de gás da União Europeia permanece “relativamente protegido neste momento”, mas fez questão de registrar o risco crescente.

Ele alertou que, como importador líquido, o bloco pode ver suas projeções de armazenamento afetadas por “preços globais altos e voláteis”. Não por acaso, a meta obrigatória de armazenamento para o próximo inverno foi reduzida em 10 pontos percentuais, de 90% para 80% da capacidade.

O comissário também abriu a possibilidade de um desvio de até 20% da meta em caso de “condições difíceis”, após avaliação da Comissão. A flexibilização, longe de ser um detalhe técnico, funciona como termômetro do nervosismo europeu diante de um cenário que escapa ao seu controle.

O que se vê é uma Europa que trocou uma dependência por outra ao substituir o gás russo pelo norte-americano. Agora, assiste à própria fragilidade energética ser exposta por um conflito do qual é espectadora, mas cujos custos econômicos paga integralmente.

A guerra, iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, mostra como a política externa belicista do Ocidente produz instabilidade sistêmica muito além do campo de batalha. Enquanto os governos europeus correm para encher reservatórios, os países do Sul Global enfrentam uma pressão ainda mais severa.

Os preços do petróleo dispararam mais de 50% desde o início do conflito, superando 110 dólares por barril. Para nações insulares do Pacífico, altamente dependentes de importações, isso significa a perspectiva concreta de desabastecimento e de custos proibitivos.

Paul Barker, diretor executivo do Instituto de Assuntos Nacionais da Papua-Nova Guiné, explicou ao The Guardian a vulnerabilidade da região. “Muitas dessas economias são relativamente fracas, com poder de compra limitado e forte dependência de remessas e ajuda externa”, afirmou.

Barker acrescentou que os custos mais altos ameaçam setores centrais, como o turismo. Também tornam “cada vez mais difícil entregar serviços governamentais básicos a ilhas remotas”.

Em Samoa, cerca de dois terços da geração de energia do país vêm de diesel importado. O primeiro-ministro samoano, La’aulialemalietoa Leuatea Schmidt, fez um apelo público por ajuda após reunião com o líder da Nova Zelândia.

“Perguntei se era possível desviar combustível para o nosso país em caso de crise”, revelou La’aulialemalietoa. “Não sabemos o que vai acontecer a seguir.”

A crise energética em cascata escancara a interconexão do sistema global e mostra como um conflito no Golfo produz repercussões planetárias. O que explode numa região estratégica rapidamente se transforma em inflação, escassez e insegurança social em lugares muito distantes dali.

A estratégia iraniana de retaliar ataques a suas instalações energéticas mirando a infraestrutura dos adversários demonstrou alta eficácia assimétrica. Ao atingir o complexo catari, Teerã pressionou um nó central da cadeia global de gás natural liquefeito e afetou os cálculos econômicos de potências distantes.

O episódio oferece uma lição geopolítica dura sobre o verdadeiro custo da guerra e sobre quem acaba pagando a conta. Populações da Europa e das ilhas do Pacífico enfrentam inflação energética, enquanto a indústria de defesa dos Estados Unidos registra lucros recordes.

A dependência europeia do gás natural liquefeito norte-americano, aprofundada após a sabotagem dos gasodutos Nord Stream, revelou-se uma armadilha estratégica. Washington vende seu gás a preços elevados e, ao mesmo tempo, alimenta o ambiente de conflito que ajuda a sustentar esses mesmos preços.

A carta de Jorgensen é, acima de tudo, um documento de impotência política. Ela registra a admissão de que a soberania energética do bloco foi erodida e de que seu destino passou a depender de aventuras militares alheias.

Para o Brasil, a crise reforça a urgência de um projeto nacional de autossuficiência energética e de diversificação de fontes. Num mundo em que países inteiros se tornam reféns da volatilidade dos mercados, recursos próprios e matriz diversificada deixam de ser apenas vantagem econômica e passam a ser ativo de segurança nacional.

A guerra no Golfo, portanto, está longe de ser um evento distante. Ela funciona como espelho de um modelo global baseado em interdependências desiguais e na primazia da força.

O inverno europeu que se aproxima será mais uma prova de fogo, não apenas contra o frio, mas contra as consequências de escolhas estratégicas equivocadas. O desfecho desta crise pode moldar as alianças energéticas das próximas décadas e acelerar a transição para um mundo multipolar em que a paz volte a ser tratada como interesse estratégico.

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